Por Gaudêncio Penaforte –
Após semana de duros reveses no Congresso e euforia prematura da oposição, analistas da BlackRock e da Eurasia reafirmam o favoritismo do presidente. Encontro com Trump em Washington muda o tom do jogo — e a caravana volta a rodar pelo país.
O mês de maio parece estar revertendo o cenário político-eleitoral brasileiro. Depois de uma semana sombria no final de abril — marcada pela rejeição histórica do indicado Jorge Messias ao STF (a primeira em mais de um século) e pela derrubada do veto presidencial ao PL da Dosimetria —, o pré-candidato Flávio Bolsonaro chegou a decretar, eufórico, que o governo Lula havia acabado. Já deve estar arrependido.
O termômetro que mudou o clima veio de onde o dinheiro se move: de Nova York e dos grandes centros de análise de risco político global. Em conferência fechada com investidores realizada na segunda-feira (11), na sede da BlackRock — a maior gestora de ativos do mundo, com US$ 13,9 trilhões sob administração —, o analista responsável pela América Latina da firma, Aitor Jauregui, afirmou que Lula deve se reeleger em 2026.
Para Jauregui, a economia continua sendo o fator determinante do voto e o desempenho atual do presidente torna difícil reverter sua vantagem. O detalhe que mais incomodou o campo bolsonarista: o nome de Flávio Bolsonaro sequer foi mencionado na análise. Para o mercado global, ele ainda aparece mais como aposta doméstica do bolsonarismo do que como variável decisiva da disputa presidencial.
A percepção não é isolada. Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da Eurasia Group — referência mundial em consultoria de risco político —, segue a mesma linha. Com base em um histórico de 500 eleições globais nas últimas três décadas, Garman demonstrou que presidentes com aprovação entre 46% e 48% apresentam alto índice de reeleição. Sua síntese para o Brasil: ‘50%-50%, com viés Lula’. O analista
reconhece que a segurança pública seguirá como calcanhar de Aquiles do governo — vulnerabilidade sobre a qual qualquer candidato da oposição pode ser competitivo —, mas sustenta que o patamar de popularidade do incumbente é um ativo estrutural que a oposição, até agora, não conseguiu neutralizar.
Para entender por que o cenário se tornou mais favorável a Lula precisamente quando parecia mais adverso, é útil recorrer à anatomia dos trunfos e obstáculos do presidente, mapeada pelo analista Felipe Nunes (Quaest) no evento Brasil em Pauta New York, promovido pelo Estadão.
O RAIO-X DE FELIPE NUNES: TRUNFOS E OBSTÁCULOS DE LULA EM 2026


A Crítica de Campo Grande, 12 maio.
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Em síntese, Nunes vê Lula ainda competitivo, mas sob pressão estrutural: seus trunfos são conjunturais (incumbência, envolvimento de figuras da oposição com o Caso Master, Desenrola 2 e protagonismo internacional), enquanto seus obstáculos têm raízes mais profundas (percepção econômica negativa, recomposição conservadora do eleitorado, erosão do capital simbólico das políticas sociais e ressentimento social crescente).
O último trunfo ganhou substância concreta no dia 7 de maio, quando Lula se sentou com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca em uma reunião de trabalho que se estendeu por cerca de três horas — acima do previsto. Horas depois, o republicano chamou o brasileiro de ‘um homem bom, um cara inteligente’, descreveu-o nas redes como ‘presidente muito dinâmico’ e anunciou a intenção de expandir o comércio bilateral. Lula voltou de Washington com as baterias recarregadas.
É diante desse quadro — trunfos potencializados, obstáculos atacados — que se compreende a lógica da ofensiva governamental desta primeira quinzena de maio. Lula não está apenas governando: está montando a plataforma de campanha peça a peça, respondendo sistematicamente a cada um dos pontos de vulnerabilidade que Nunes enumerou.
Para neutralizar a percepção negativa sobre a economia, o Novo Desenrola Brasil, assinado em 4 de maio, oferece descontos de 30% a 90% em dívidas e permite usar até 20% do FGTS para quitá-las, com juros limitados a 1,99% ao mês. Para atacar o calcanhar de Aquiles da segurança pública — e capitalizar a agenda construída com Trump em Washington —, o governo lançou nesta mesma terça-feira (12) o programa ‘Brasil Contra o Crime Organizado’, com R$ 11 bilhões em investimentos: R$ 1 bilhão da União e R$ 10 bilhões via BNDES para os estados, estruturado em quatro eixos estratégicos: asfixia financeira das facções, fortalecimento da segurança prisional, qualificação da investigação de homicídios e combate ao tráfico de armas.
Ao mesmo tempo, o Planalto empurra no Congresso o projeto de lei que extingue a escala 6×1 e reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas sem corte salarial — enviado com urgência constitucional em 14 de abril. Com cerca de 37 milhões de trabalhadores diretamente beneficiados, a proposta é uma das mais poderosas bandeiras eleitorais de Lula junto ao eleitorado de base. O governo confia na aprovação em até três meses.
Maio está desenhando um roteiro diferente do que a oposição havia antecipado. Os trunfos de Lula ganharam massa crítica num curtíssimo espaço de tempo. Os obstáculos persistem, mas estão sendo atacados frontalmente. A caravana voltou a rodar. E quem decretou o fim do governo Lula na última semana de abril talvez precise rever o mapa.
(*) Gaudêncio Penaforte é analista político e observador do bastidores da República em Brasília.
REFERÊNCIAS CONSULTADAS
- BILENKY, Thais. ‘Analista da maior gestora do mundo diz que Lula se reelege e ignora Flávio’. UOL Colunas, 11 maio
- (Repercutido por Brasil 247, Revista Fórum e O Cafezinho, 12 maio 2026.)
- GARMAN, Christopher. ‘Eurasia vê viés pró-Lula e equívocos do mercado em suas apostas para 2026’. Bloomberg News
/ Bloomberg Línea, 2 set. 2025. - GARMAN, Christopher. ‘Aprovações como a de Lula tendem à reeleição’. CNN Brasil, 22 dez. 2025.
- GARMAN, Christopher. ‘Lula é favorito, mas eleição será estruturalmente competitiva’. CNN Brasil / Capital Insights, 6
nov. 2025. - GARMAN, Christopher; REIS, Leonardo. ‘Lula continua favorito e deve recuperar popularidade até julho’. Eurasia Group /
Brasil 247, abr. 2026. - NUNES, Felipe. Análise: ‘4 trunfos e 4 obstáculos de Lula na corrida presidencial’. Estadão / Brasil em Pauta New York.
Repercutido por Tribuna do Norte, 12 maio 2026. - CONGRESSO EM FOCO. ‘5 recados da pesquisa Quaest para Lula e a oposição’. Fev. 2026.
- CNN BRASIL. ‘Entenda em cinco pontos a reunião entre Lula e Trump na Casa Branca’. 8 maio 2026.
- ESTADO DE MINAS. ‘Trump após encontro com Lula: bom homem e inteligente’. 8 maio 2026.
- AGÊNCIA BRASIL. ‘Lula deixa a Casa Branca após reunião de três horas com Trump’. 7 maio 2026.
- MINISTÉRIO DA FAZENDA / GOV.BR. ‘Presidente Lula assina MP do Novo Desenrola’. 4 maio 2026.
- AGÊNCIA BRASIL. ‘Lula anuncia novo programa de renegociação de dívidas’. 4 maio 2026.
- GOV.BR / PLANALTO. ‘Lançamento do Programa Brasil Contra o Crime Organizado’. 12 maio 2026.
- REVISTA FÓRUM. ‘O plano bilionário de Lula para combater o crime organizado’. 12 maio 2026.
- AGÊNCIA BRASIL / GOV.BR. ‘Governo envia ao Congresso projeto que acaba com a escala 6×1’. 14 abr. 2026.
- SECRETARIA DE COMUNICAÇÃO SOCIAL. ‘Governo confia que fim da escala 6×1 seja aprovado em até três meses’.
15 abr. 2026. - O HOJE. ‘Lula se afunda e Flávio surfa em fragilidade do rival’. 4 maio 2026.
- BRASIL 247. ‘A pergunta decisiva é outra. E se Lula ganhar?’. Maio 2026.





