No 17 de julho de 1975, a capital paranaense amanheceu coberta de neve, num fenômeno com maior envergadura registrado somente meio século antes. No dia seguinte, 18, ocorria o evento climático mais devastador da história agropecuária paranaense.
No dia 17 de julho de 1975, a neve começou muito cedo em Curitiba. No amanhecer a paisagem da cidade mudou radicalmente e pessoas corriam pelas ruas curtindo um fenômeno histórico. Afinal, precedente com tamanha intensidade – ou até mais, como dizem os registros comparativos – remetia ao ano de 1928 (entre noite de 31 de julho e 1° de agosto). Alguns curitibanos mais veteranos curtiram os dois momentos no intervalo de quase meio século. Um outro fenômeno que se seguiria, data de 23 de julho de 2013 e foi mais uma nevasca seletiva, que se manifestou em algumas regiões da Grande Curitiba e foi mais forte na vizinha Santa Catarina.
Rememorando estes 51 anos. Como estudante de jornalismo da Católica do Paraná, eu acabara de completar 18 anos de idade e estava em férias da faculdade naquela manhã da neve. Porém, trabalhava num escritório de contabilidade com jornada somente à tarde, o que permitiu, bem agasalhado, percorrer com alguns amigos do interior e colegas de pensão vários pontos da “cidade esbranquiçada” e de “alto astral”. Estávamos ainda muito longe da era dos celulares e dos recursos digitais. Os equipamentos fotográficos de então, para amadores, eram primários, mas não desestimularam a corrida aos locais que vendiam os filmes fotográficos. Aliás, esgotaram-se rápido. Coloridos ou preto e branco, lembro que ainda no meio da manhã já não se achava fácil. Um amigo foi encontrar numa loja lá nos cantos da Rodoferroviária.
A festa pela novidade, ainda mais para quem tinha vindo de uma região quente do Noroeste paranaense, durou um bom tempo e permitiu exercícios copiados de filmes cinematográficos, como criar bonecos ou fazer e lançar bolas de neve. A concorrência por serviços de telefonia foi grande naquele dia, em especial entre jovens distantes de suas casas para estudar e ansiosos para compartilhar a novidade com familiares ou amigos. À tarde, já no escritório, veio-me a facilidade de dispor de “linha” ligar para os pais e contar mais detalhes sobre a “neve que apareceu na televisão” e igualmente muito narrada nas emissoras de rádio, prevalentes num Paraná de características mais rurais daqueles idos.

Aí a ficha caiu. O frio tinha sido rigoroso igualmente no interior do Estado e a previsão (já existiam recursos meteorológicos para a agricultura com estações do Inmet) era de geada ainda mais forte no dia seguinte. Dito e feito. A madrugada de 18 de julho foi marcada pelo fenômeno climático denominado geada negra, que dizimou grande parte da produção das lavouras do Estado, especialmente os cafezais e pastagens, episódio que marcaria o futuro das plantações no campo. O baque também me alcançava. Afinal, meu pai era produtor de café, como outros parentes. A devastação impactou diretamente na base econômica do chamado “ouro verde” e de toda a cadeia produtiva alimentada por ele. Milhares de famílias empobreceram ou ficaram endividadas com os reflexos daquele 18 de julho.
Então, a euforia da véspera para muitos, com aquele 17 de julho de 1975 de surpreendente nevasca, menos de 24 horas depois daria lugar, aos interioranos, a uma sensação de derrota por enxergar a corrosão financeira que se avizinhava naquele momento. Exigiu resiliência e perseverança para superar os momentos difíceis que vieram. Como o foi para milhares de paranaenses ou de estados vizinhos que tiveram de se redescobrir em novas culturas agrícolas. A partir dessa crise, o Paraná foi levado a diversificar sua agricultura, proporcionando o forte avanço da soja, do milho, feijão, trigo, cevada e do próprio café, ressurgindo com entusiasmo depois de décadas. O novo cenário, meio século depois, é de um Paraná no protagonismo como um dos maiores produtores do agro do Brasil.
Do encanto da neve à frustração com a geada negra, fenômenos distintos a operar aprendizados e lições. Alegrias e tristezas que caminham lado a lado, mas divididos por um rio que propicia visões de ângulos diferentes. Recordações em memória ou em fotos, que se alternaram entre o climax da neve ou do poder de superação. Cada qual guarda, a seu modo, o acervo construído sob essa ponte do tempo.
(*) Por Hernani Vieira, jornalista desde junho de 1976.











