Médico paranaense desenvolve a “Teoria do Polvo” para explicar endometriose causando dor em diferentes partes do corpo

Criada pelo cirurgião ginecológico Igor Chiminacio, a teoria utiliza um modelo visual para facilitar a compreensão da doença e ajudar mulheres a reconhecerem sintomas que vão muito além da cólica menstrual.

A endometriose ainda é uma das doenças mais subdiagnosticadas da saúde feminina. Embora atinja cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva, muitas convivem por anos com dores incapacitantes sem compreender a origem dos sintomas. Para tornar essa explicação mais simples e acessível, o ginecologista Igor Augusto de Souza Chiminacio, especialista em endometriose profunda e cirurgia minimamente invasiva, desenvolveu um modelo anatômico que vem chamando a atenção no meio médico e de pacientes: a “Teoria do Polvo”.

A proposta transforma a anatomia da pelve feminina em uma imagem de fácil compreensão. Nela, o útero representa a cabeça do polvo e os tecidos que sustentam esse órgão, conhecidos tecnicamente como paramétrios, funcionam como seus tentáculos. De acordo com o especialista, é justamente nesses tecidos de sustentação que a endometriose frequentemente se desenvolve

“Durante muitos anos, a doença foi explicada olhando apenas para os focos visíveis da endometriose. Mas o problema vai muito além deles. O tecido onde esses focos surgem é o que transmite a dor para nervos, músculos e outras estruturas da pelve. Quando a paciente entende esse conceito, ela também entende por que sente dor em locais tão diferentes do corpo”, explica o médico, que é natural de Laranjeiras do Sul (PR) e formado pelo Campus Curitiba da Católica em 2005.

Muito além da cólica

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pelas mulheres é justamente relacionar sintomas aparentemente desconectados à endometriose. Dor nas costas, na lombar, na virilha, nas pernas, no quadril, durante as relações sexuais, ao evacuar ou até durante atividades físicas costumam ser investigadas por diferentes especialistas antes que alguém suspeite da doença.

“Pela teoria do polvo, fica mais fácil compreender que o útero não está ‘solto’ dentro do corpo. Ele é sustentado por estruturas ricas em colágeno que envolvem vasos sanguíneos e nervos. Quando esses tecidos são acometidos pela endometriose, toda essa rede pode ser afetada, irradiando dor para diferentes regiões.”

A proposta não substitui o conhecimento existente, mas traduz conceitos anatômicos complexos para uma linguagem compreensível tanto para pacientes quanto para profissionais da saúde. Segundo Dr. Igor, o objetivo é facilitar o entendimento da doença e melhorar o reconhecimento dos sintomas ainda nas consultas iniciais.

“Quando a mulher entende onde está a origem da dor, ela consegue descrever melhor seus sintomas. Isso ajuda no raciocínio clínico e pode contribuir para um diagnóstico mais precoce.”

O impacto no diagnóstico

Estima-se que mulheres com endometriose convivam entre oito e dez anos até receberem o diagnóstico correto. Nesse período, é comum passarem por diversos especialistas, realizarem inúmeros exames e ouvirem que a dor faz parte do ciclo menstrual.

Para o médico, com atuação no Paraná, São Paulo e Distrito Federal, parte desse atraso acontece porque a doença ainda é frequentemente associada apenas às lesões visíveis, quando, na realidade, o comprometimento dos tecidos profundos pode explicar sintomas muito mais amplos. “Nem toda dor causada pela endometriose aparece exatamente onde está a lesão. A inflamação e a fibrose podem comprometer estruturas importantes da pelve e provocar sintomas à distância.”

Além de facilitar a comunicação com pacientes, a Teoria do Polvo também vem sendo utilizada em apresentações científicas e aulas para profissionais da saúde. A proposta busca reforçar a importância de compreender toda a anatomia da pelve durante a investigação da doença, e não apenas identificar focos superficiais de endometriose.

“Quando entendemos como essas estruturas funcionam em conjunto, conseguimos interpretar melhor os sintomas e individualizar o tratamento de cada paciente.”

A mulher deve procurar avaliação médica sempre que apresentar sintomas que vão além das cólicas menstruais consideradas leves. Cólicas intensas ou incapacitantes, dor durante as relações sexuais, dor para evacuar ou urinar, principalmente no período menstrual, dor na lombar, virilha, quadril ou pernas relacionada ao ciclo, dor pélvica persistente e dificuldade para engravidar são sinais de alerta que podem indicar endometriose. Quanto mais cedo esses sintomas forem investigados, maiores são as chances de diagnóstico precoce, tratamento adequado e preservação da qualidade de vida e da fertilidade.

O artigo apresentado pelo médico no Congresso Global AAGL 2025 em Vancouver pode ser conferido AQUI.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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