Do surto nos EUA ao risco brasileiro: o desafio da segurança dos alimentos

Por Willian Barbosa Sales

O surto de ciclosporíase que já ultrapassa 2,8 mil casos nos Estados Unidos, associado preliminarmente ao consumo de alface e outras folhas consumidas cruas, deve servir de alerta para o Brasil. A doença é causada pelo protozoário Cyclospora cayetanensis, um parasito transmitido por água e alimentos contaminados por fezes humanas. Em um país que possui sistemas avançados de vigilância sanitária e epidemiológica, a dificuldade para identificar rapidamente a origem do surto demonstra que a segurança dos alimentos continua sendo um desafio global de Saúde Única.

A ciclosporíase pode provocar diarreia aquosa intensa, cólicas abdominais, náuseas, vômitos, fadiga, perda de peso e sintomas que persistem por semanas ou até meses sem tratamento adequado. O parasito infecta o intestino delgado e compromete a absorção de nutrientes e líquidos, sendo particularmente preocupante em crianças, idosos e pessoas imunocomprometidas. Embora raramente seja fatal, a doença pode causar importante impacto clínico e econômico, especialmente durante surtos de grande magnitude.

Ao olharmos para o cenário brasileiro, a preocupação aumenta. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2014 e 2023, o país registrou 6.874 surtos de Doenças de Transmissão Hídrica e Alimentar (DTHA), envolvendo 573.969 pessoas expostas, 110.614 doentes, 12.346 hospitalizações e 121 óbitos. Apenas em 2023 foram notificados 1.162 surtos, com 19.671 adoecimentos e 31 mortes, o maior número de óbitos da série histórica recente. Esses números evidenciam que os surtos alimentares continuam sendo um problema relevante e persistente da saúde única a nível nacional.

Mais preocupante do que os números registrados é a possibilidade de subnotificação. Muitos casos de diarreia relacionados ao consumo de alimentos não são investigados laboratorialmente, e agentes menos conhecidos, como Cyclospora cayetanensis, podem passar despercebidos. A limitação da capacidade diagnóstica em parte dos serviços de saúde dificulta a detecção precoce de surtos e reduz nossa compreensão real da dimensão das doenças transmitidas por alimentos no país.

O episódio norte-americano mostra que a segurança alimentar começa muito antes do alimento chegar ao prato do consumidor. Ela depende de saneamento básico, qualidade da água de irrigação, boas práticas agrícolas, rastreabilidade dos alimentos e vigilância sanitária eficiente. Enquanto o Brasil continuar registrando milhares de surtos de DTHA e dezenas de mortes todos os anos, o grande desafio não será apenas responder a eventos semelhantes ao dos Estados Unidos, mas fortalecer a prevenção para que eles não aconteçam com olhares direcionados e fortalecedores da Saúde Única no país.

(*) Willian Barbosa Sales é Biólogo, Doutor em Saúde e Meio Ambiente, Coordenador dos cursos de Pós-graduação área da saúde do Centro Universitário Internacional UNINTER.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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