Em ano eleitoral, o Espírito Santo desce sobre os candidatos

Passadas as eleições, resta uma dúvida: será que esses novos devotos, candidatos, continuarão frequentando os templos?

Não posso afirmar que se trata de apenas uma peregrinação religiosa ou, quem sabe, um calvário. Só sei que existe algo curioso no ar que a ciência política ainda não conseguiu explicar. Ou não estudou.

Em ano eleitoral, como o que estamos passando, com eleições em outubro, ocorre uma espécie de iluminação coletiva. Políticos que passaram meses ou anos sem aparecer em um culto, uma missa ou uma festa de padroeiro, de repente, descobrem uma vocação quase sacerdotal.

Um pedido silencioso: “Senhor, multiplicai os votos”.

É uma agenda de dar inveja a qualquer líder religioso. Pela manhã, participam de uma missa; à tarde, de um culto evangélico; à noite, prestigiam uma quermesse. Entre um “amém” e outro, uma selfie. Entre uma oração e outra, um vídeo para as redes sociais. E, claro, um pedido silencioso: “Senhor, multiplicai os votos”.

Rafael Greca com o Papa, Sandro Alex em Aparecida e assim por diante. Ainda não fiquei sabendo se Sergio Moro e Requião Filho também estão dando uma passadinha rápida nas igrejas. Será que esses candidatos acreditam, efetivamente, que Deus também acompanha as pesquisas eleitorais.

Se os números sobem, é bênção. Se caem, a culpa é do instituto de pesquisa.

Os templos, pelo jeito, estão se transformando em pontos obrigatórios da rota eleitoral. Há candidatos que decoram versículos na mesma velocidade com que mudam de partido. Outros aprendem a fazer o sinal da cruz poucos minutos antes de entrar na igreja, sempre atentos ao melhor ângulo da fotografia.

Mas o eleitor religioso costuma enxergar além das lentes das câmeras. Sabe distinguir quem vive a fé como princípio de vida de quem a utiliza como estratégia de campanha. Afinal, a devoção verdadeira não começa no registro da candidatura nem termina na diplomação.

Será que os novos devotos continuar a frequentar templos?

Passadas as eleições, resta uma dúvida quase existencial: será que esses novos devotos continuarão frequentando os templos ou voltarão a praticar apenas a religião mais comum da política brasileira — a fé inabalável de que, daqui a quatro anos, tudo poderá ser repetido outra vez?

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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