Por Victor Missiato –
Tradicionalmente, o mês de julho costuma representar um período de menor intensidade para as campanhas eleitorais. Em anos de eleição, fatores como as férias escolares, grandes eventos esportivos e a própria desaceleração do calendário político fazem com que as pesquisas de opinião apresentem menos oscilações do que nos meses anteriores e posteriores.
Na disputa pela Presidência da República em 2026, esse padrão voltou a se confirmar. Julho foi marcado por estabilidade nas intenções de voto, sem alterações significativas no cenário eleitoral. O principal beneficiado por essa estabilidade foi o presidente Lula, que manteve a liderança tanto nas simulações de primeiro quanto de segundo turno. As pesquisas indicam que seu eleitorado se encontra relativamente consolidado, situado entre 45% e 47% das intenções de voto no primeiro turno.
Nesse contexto, sua estratégia passa a depender da conquista de uma pequena parcela dos eleitores indecisos ou da atração de parte dos votos que hoje se concentram em outros candidatos de centro e de direita, como Romeu Zema, para garantir a vitória em um eventual segundo turno contra o principal nome da oposição. No campo oposicionista, Flávio Bolsonaro atravessou um mês politicamente mais turbulento.
As tensões envolvendo sua relação com Michelle Bolsonaro provocaram desgaste justamente em um momento em que sua candidatura já enfrentava dificuldades decorrentes dos efeitos políticos do escândalo envolvendo o Banco Master. As pesquisas passaram a registrar uma perda de aproximadamente quatro pontos percentuais, refletindo a migração de parte do eleitorado de classe média. Apesar dessas dificuldades, o saldo de julho termina sendo relativamente positivo para Flávio Bolsonaro.
O lançamento oficial de sua candidatura, realizado no último sábado, representou um importante gesto de reorganização política. A reaproximação com Michelle Bolsonaro, ainda que aparentemente superficial, foi simbolicamente relevante. A ex-primeira-dama gravou uma mensagem de apoio exibida durante o evento, sinalizando uma tentativa de recomposição da unidade do campo bolsonarista. Outro elemento importante foi a presença do presidente argentino Javier Milei, um dos principais expoentes da direita latino-americana. Em seu discurso, Milei fez críticas diretas ao presidente Lula em um tom que ultrapassou os padrões tradicionais da diplomacia regional, reforçando a dimensão internacional do ato de lançamento da candidatura. Flávio Bolsonaro inicia oficialmente sua campanha ainda sem a definição de seu candidato a vice-presidente, posto que deverá ser ocupado por uma mulher.
Entretanto, o apoio público de Michelle Bolsonaro fortalece sua posição como principal liderança da direita brasileira ao seu lado. Resta saber se essa aproximação permanecerá sólida até as eleições de outubro, considerando as instabilidades políticas observadas ao longo dos últimos meses.
O grande ponto de interrogação para o início de agosto encontra-se em Minas Gerais. A formação das chapas para o governo estadual poderá exercer influência decisiva sobre a disputa presidencial. A direita ainda não definiu se seu candidato será Cleitinho ou Marcelo Aro, enquanto o PT escolheu Patrus Ananias para disputar o governo estadual. Paralelamente, o ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, posiciona-se como uma candidatura de centro, com possibilidade de receber o apoio de Lula em um eventual segundo turno, aproximando-se, nesse cenário, do campo da centro-esquerda.
Essa indefinição pode favorecer ou dificultar o crescimento eleitoral de Flávio Bolsonaro em um dos estados mais estratégicos do país. Desde a redemocratização, em 1989, Minas Gerais consolidou-se como um dos principais termômetros das eleições presidenciais brasileiras, já que todos os candidatos eleitos presidente da República venceram também a disputa no estado. Ao mesmo tempo, São Paulo assume papel igualmente decisivo. Tarcísio de Freitas precisará ampliar sua vantagem eleitoral sobre Fernando Haddad, apesar dos desafios enfrentados por sua administração em áreas sensíveis, como transporte público e educação. Uma vitória expressiva da direita paulista poderá fortalecer nacionalmente a candidatura de Flávio Bolsonaro.
(*) Victor Missiato é professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré. Analista político e doutor em História.






