O acolhimento também cura: por que a oncologia precisa ser humana

Por Silvio Silva Fernandes –

Depois de mais de oito décadas tratando câncer pelo SUS na Zona Norte do Rio, aprendemos que tecnologia e escuta se completam. É essa combinação, sustentada por uma equipe multidisciplinar, que decide o resultado de um tratamento oncológico.


Comecei a praticar medicina há trinta e cinco anos. Cedo aprendi uma lição que não está nos livros: o diagnóstico de câncer nunca chega sozinho. Vêm junto o medo, as perguntas sobre o futuro, a sensação de que a vida inteira ficou em suspenso. Como diretor clínico do Hospital Mário Kroeff, na Penha, vejo essa cena todos os dias. E sigo convencido de uma coisa: a forma como recebemos o paciente no primeiro minuto pesa no resultado tanto quanto o protocolo que vem depois

Isso não é discurso institucional. É o que a gente pratica no dia a dia. O Mário Kroeff foi fundado em 1944 por Mário Kroeff, idealizador e fundador do Serviço Nacional de Câncer e do primeiro centro oficial de combate ao câncer do país, que deu origem ao INCA. Nasceu para tratar quem tem câncer e não tem para onde ir. Hoje somos a maior prestadora privada e filantrópica de serviços oncológicos ao SUS no estado do Rio, com 100% dos atendimentos feitos pelo sistema público. Só em 2025 foram mais de 70 mil procedimentos, entre cirurgias, radioterapias, sessões de quimioterapia e exames.

Um número desses costuma ser lido como capacidade instalada. E é. Mas, para quem está na linha de frente, ele quer dizer outra coisa: 70 mil vezes em que dá para decidir se o paciente vai se sentir um número num sistema lotado ou uma pessoa dentro de um cuidado. Por isso insisto que acolher não é gentileza a mais. É parte do tratamento e pesa tanto quanto o equipamento mais moderno da sala de radioterapia.

Na prática, isso quer dizer parar de tratar a oncologia como assunto só do oncologista. Quem chega ao Mário Kroeff para cuidar de um tumor de mama, de cabeça e pescoço ou do aparelho urológico encontra uma rede em volta: mastologia, ginecologia, urologia, cirurgia geral e plástica ao lado de psicologia, nutrição, fisioterapia, fonoaudiologia e serviço social. Cada uma cuida de uma parte que o bisturi não alcança. O corpo que muda. A voz que se transforma. A renda que some no meio do tratamento. O medo que não passa. Tratar o câncer sem olhar para tudo isso é tratar metade do problema.

Guardo até hoje a lembrança de uma técnica de enfermagem que trabalhava conosco havia anos, discreta, dedicada aos pacientes da ginecologia, até o dia em que recebeu o diagnóstico que tantas vezes ajudou outras a enfrentar: câncer de mama. De quem vestia o jaleco, passou a ocupar a cadeira do outro lado. Os próprios colegas a envolveram como se fosse da família, e o vínculo de anos de convivência virou parte do tratamento. Ela venceu a doença e, na alta, escolheu voltar a trabalhar ali mesmo, no salão de quimioterapia, ao lado de pacientes que hoje enfrentam o que ela um dia enfrentou. Não conheço prova melhor da força do acolhimento do que ver, numa mesma pessoa, quem foi cuidada se tornar quem cuida.

Esse jeito de trabalhar aparece nos números dos últimos dois anos. Entre 2024 e 2025, as primeiras consultas oncológicas cresceram 165,69% e o total de consultas, 72,22%. As cirurgias pelo SUS subiram 27,66%, a quimioterapia 40,88% e a radioterapia 32,63%. Parte disso é recuperação: o hospital passou por uma reestruturação sob gestão da Fundação Severino Sombra e voltou a ampliar sua capacidade de atender. Mas o que esses números dizem de mais importante é simples: mais gente diagnosticada e tratada a tempo. E, na oncologia, tempo costuma ser a distância entre a cura e o cuidado paliativo.

Mário Kroeff morreu em 1983. O hospital que ele fundou chega aos 82 anos de portas abertas, tratando quem mais precisa. Como médico e como gestor, meu trabalho é manter essas portas abertas, com a mesma qualidade técnica e o mesmo cuidado de sempre. Para 2026, a meta é atender ainda mais gente no Rio, sem que ninguém, em nenhum momento, deixe de ser tratado como pessoa. A medicina resolve muita coisa. Mas o rumo de um tratamento oncológico quase sempre depende, também, da maneira como ela chega até o paciente.

(*) Dr. Silvio Silva Fernandes, diretor clínico do Hospital Mário Kroeff (RJ).

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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