Cenário econômico, exposto com Casas Bahia e Correios, tende a respingar no governo Lula

Fechamento de mais 300 lojas e demissão de 3 mil funcionários do Grupo Bahia refletem inadimplência, retração no varejo e pressão dos juros.

O cenário econômico brasileiro, tal qual a preocupação com indicadores de criminalidade, tendem a oferecer reflexos nas campanhas eleitorais, em especial na corrida ao Palácio do Planalto. A medida do Grupo Casas Bahia e Ponto Frio, de fechar 300 lojas físicas e demitir mais de 3 mil funcionários somente no mês de agosto, num processo de recuperação judicial que acaba de ser deflagrado, expõe de forma muito clara o grau de dificuldade do varejo brasileiro, fruto da inadimplência, queda do consumo de bens duráveis e pressão dos juros no endividamento.

A má notícia tem repercussão ainda mais determinante porque a aflição vai além do panorama empresarial privado. As estatais continuam não mais experimentando, mas convivendo com o impacto de déficits bilionários. Que o digam os Correios. O balancete contábil prévio registra prejuízo de R$ 5,4 bilhões no primeiro semestre de 2026. Apesar de redução de despesas no segundo trimestre, houve queda nas receitas internacionais, com presença aí do programa Remessa Conforme, medida conhecida como “taxa das blusinhas” e que passou a cobrar imposto de importação de 20% sobre compras até US$ 50.

No caso das Casas Bahia, o problema é sistêmico na cadeia varejista. O grupo viu derreter suas ações na Bolsa nos últimos cinco anos. Os papéis da varejista acumularam forte desvalorização desde o pico em 2020, quando estavam cotadas em R$ 400. Agora, antes do anúncio do pedido de recuperação judicial, viraram centavos. Estavam sendo vendidas a R$ 0,66, para ser mais exato.

As medidas adotadas agora fazem parte de estratégia da companhia adotada ainda em 2023 para reduzir custos e enfrentar a pior crise financeira de sua história. Na primeira leva, teve o fechamento de 55 lojas consideradas deficitárias e redução de aproximadamente 8,6 mil postos de trabalho. Agora, são 300 lojas e 3 mil funcionários demitidos, número de grande impacto considerando o que representam na cadeia produtiva.

A empresa ainda mantém mais de 20 mil empregados e uma rede com mais de 700 lojas físicas em funcionamento, cuja subsistência depende dos desdobramentos da recuperação judicial anunciada na noite de domingo (16). A medida inclui a própria companhia e outras nove empresas do grupo e tem como objetivo reorganizar as finanças e renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas, além de garantir a continuidade das operações. Como indicado pelo próprio grupo, as ações tidas como saneadoras encontraram sérios entraves, em especial pela pressão dos juros. Saiu de um prejuízo de R$ 555 milhões no primeiro semestre do ano passado para R$ 10,1 bilhões.

Na lista de cortes para Paraná e Santa Catarina, integrados à Regional 410, nove pontos comerciais fariam parte do conjunto de lojas a serem fechadas, das bandeiras da Casa Bahia e Ponto Frio. Em documento do grupo, não está especificada a data do fechamento ou o total de funcionários que serão demitidos. Uma das filiais já fechada, na sexta-feira (14), foi a da Avenida Vicente Machado, no centro de Ponta Grossa, nos Campos Gerais. Da lista, constam três lojas em shopping centers de Curitiba e mais uma do bairro Novo Mundo.

A crise econômica é uma das principais preocupações do brasileiro, ao lado da violência e saúde, como demonstrado nas sucessivas pesquisas de opinião. A sensação de perda de poder de compra, somada ao aumento de endividamento das famílias e retração do PIB, com impacto nas empresas, produção e empregabilidade, traz para o debate político as perspectivas para os próximos quatro anos. A menos de mês e meio da eleição do primeiro turno para presidência da República e para os governos estaduais, gestores investidos de cargos no momento serão avaliados criticamente por parte do eleitorado. As campanhas iniciadas no domingo (16) tendem a cooptar muitos dos indecisos, que ainda representam mais da metade dos votantes, pelo menos no âmbito de Presidente de Governo do Paraná.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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