Curitiba corre contra dois relógios: o trânsito e o clima

Secretário de Obras de Curitiba, Luiz Fernando Jamur

São 100 obras de mobilidade urbana em Curitiba e com os olhos voltados para as alterações climáticas

Com uma das maiores frotas de veículos por habitante do Brasil e diante de um cenário de eventos climáticos cada vez mais severos, Curitiba vive um dos maiores ciclos de obras de infraestrutura de sua história. São cerca de 100 obras em andamento, com investimentos de R$ 4,1 bilhões em intervenções que envolvem mobilidade urbana, grandes corredores viários, pavimentação e drenagem.

“Nós estamos preparando Curitiba não apenas para os congestionamentos de hoje, mas para os desafios das próximas décadas”, afirma o secretário municipal de Obras Públicas, engenheiro Luiz Fernando Jamur.

Um desafio duplo

Com população próxima de 2 milhões de habitantes e uma frota que já supera 1,5 milhão de veículos, Curitiba enfrenta um desafio duplo. “A cidade precisa encontrar espaço para fazer o trânsito fluir e, ao mesmo tempo, adaptar sua infraestrutura aos efeitos das mudanças climáticas”, observa o secretário.

Hoje, quem circula pela capital pode visualizar grandes obras de mobilidade dividindo espaço com projetos de macrodrenagem, contenção de cheias e novas soluções urbanas destinadas a reduzir os impactos de chuvas intensas e de fenômenos climáticos extremos.

Curitiba criou, em junho, um comitê específico para enfrentar crises climáticas e trabalha, inclusive, com parques-esponja, bacias de detenção e outras estruturas capazes de absorver e controlar o excesso de água provocado pelas chuvas, destaca Jamur.

Recursos internacionais

Segundo o secretário, três programas contam com financiamento de organismos internacionais. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) participa com R$ 850 milhões no Programa Inter 2; a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), com R$ 400 milhões; e o New Development Bank (NDB), com outros R$ 450 milhões.

As operações contam com aval da União e autorização do Senado Federal e, segundo Jamur, oferecem condições mais flexíveis de prazo e carência para pagamento.

Os investimentos em mobilidade tornam-se ainda mais necessários diante do tamanho da frota. Segundo o secretário, Curitiba está entre as cidades brasileiras com maior relação entre número de veículos e habitantes.

“Estamos com obras em 70 quilômetros dentro do Programa Inter 2, que alcança praticamente toda a região da cidade. Se somarmos os habitantes dos municípios da Região Metropolitana que fazem divisa com a capital, são 2,5 milhões de pessoas e 2,3 milhões de veículos. Por isso, temos que investir no transporte coletivo”, pontua.

Obras agora, trânsito melhor depois

Jamur reconhece que o grande número de intervenções simultâneas provoca desconforto aos motoristas, mas argumenta que o transtorno de agora faz parte da solução para melhorar o fluxo do trânsito nos próximos anos.

Entre 2020 e 2024, foram implantados 42 binários que ampliaram a mobilidade. Atualmente, estão sendo construídos viadutos e trincheiras em diferentes regiões da cidade, incluindo intervenções na divisa com Pinhais e na Vila São Pedro, além de obras destinadas a melhorar o trânsito no Capão Raso e no Xaxim.

Também está programado o início de uma trincheira na região do Jardim Botânico, que deverá beneficiar mais de 200 mil pessoas que vivem na região e ao longo da BR-277.

De acordo com Jamur, o Viaduto da Marechal Floriano, sobre a Linha Verde, passará por remodelação. No entorno, serão construídos outros dois viadutos, nas ruas Anne Frank e Anízio Fizzetto, para desafogar o trânsito da região e melhorar também o fluxo de veículos na Linha Verde.

No Xaxim, será implantado um novo binário envolvendo a Avenida Brasília e a Rua Francisco Derosso. Segundo a previsão do secretário, essas obras começam ainda neste ano e deverão ser concluídas até 2028.

A cidade se prepara para as águas

Outra grande intervenção ocorre no Bairro Novo da Caximba. “Estamos fazendo 1.290 casas populares para atender 1.700 famílias. Nessa região também há uma intervenção no encontro dos rios Barigui e Iguaçu para conter enchentes”, explica Jamur.

Os rios Belém e Ivo, que atravessam a região central de Curitiba, também recebem obras de alargamento e contenção para melhorar o escoamento das águas em períodos de chuvas mais severas.

Segundo Jamur, as intervenções envolvendo rios, canais e sistemas de drenagem fazem parte da estratégia da cidade para prevenir e amenizar os impactos de eventos climáticos extremos.

“Curitiba faz parte do corpo diretivo do C40 e trabalha dentro do PlanClima, que prevê ações até 2050”, afirma.

A capital também desenvolve um novo Plano Diretor de Drenagem e projeta novas bacias de contenção para reduzir o risco de cheias. Atualmente, já existem estruturas desse tipo em regiões como Mercês, Mossunguê e Atuba, na divisa com Colombo, onde está prevista a implantação do Parque Santa Cândida.

Uma cidade pensada para as pessoas

Jamur destaca ainda intervenções urbanísticas em áreas emblemáticas da capital, entre elas o entorno do Teatro Guaíra, obras na Rua Ermelino de Leão e a retirada da fiação aérea em trechos da Avenida Visconde de Guarapuava, com a implantação de redes subterrâneas.

Para o secretário, essas mudanças representam também uma nova maneira de pensar Curitiba.

“Entendemos que o espaço público é, em primeiro lugar, das pessoas; em segundo, dos ciclistas; e, em terceiro, dos veículos”, afirma.

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O Pró-Curitiba prevê investimentos de aproximadamente R$ 6 bilhões até 2028, dos quais cerca de R$ 4,1 bilhões estão destinados à mobilidade e à infraestrutura urbana.

No fundo, Curitiba trava uma corrida contra dois relógios. Um é conhecido há décadas e pode ser visto diariamente nas ruas: o crescimento da frota e a pressão sobre o trânsito. O outro vem do céu, dos rios e das mudanças do clima. A diferença é que, desta vez, a cidade tenta chegar antes dos dois.

Imagem (Isabella Mayer)

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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