Análise do Dieese-PR indica que família com quatro pessoas precisaria de R$ 7.687 para custear despesas básicas no mês.
O Paraná reúne alguns dos indicadores mais positivos do mercado de trabalho brasileiro. O Estado tem uma das menores taxas de desocupação da série histórica, segue entre os líderes na geração de empregos formais e mantém o maior piso salarial regional do país. Ainda assim, uma pergunta começa a ganhar espaço entre economistas e especialistas em relações do trabalho: ter emprego e carteira assinada ainda é suficiente para garantir poder de compra? Em 2026, o piso salarial regional varia entre R$ 2.105,34 e R$ 2.407,90, dependendo da categoria profissional, enquanto o salário mínimo nacional está fixado em R$ 1.621. Os valores colocam o Paraná no topo do ranking nacional, mas permanecem distantes do rendimento considerado necessário para sustentar uma família.
De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), uma família de quatro pessoas precisaria de R$ 7.687,01 por mês, em julho deste ano, para cobrir despesas básicas como alimentação, moradia, transporte, saúde, educação, vestuário, higiene, lazer e previdência. O valor equivale a mais de três vezes o maior piso regional paranaense e a 4,7 vezes o salário mínimo nacional. A diferença ajuda a explicar uma mudança importante no debate sobre emprego. Se há alguns anos a principal preocupação era criar vagas, hoje a discussão passa pela qualidade da remuneração e pela capacidade que ela tem de acompanhar o aumento do custo de vida.
Esse cenário aparece em um período de crescimento econômico. Entre 2021 e 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) do Paraná avançou 15,4%, enquanto a economia brasileira cresceu 17,8%. O Estado manteve ritmo elevado de contratações formais e consolidou um dos mercados de trabalho mais aquecidos do país. Mas, para o Dieese, olhar apenas para os indicadores de emprego já não é suficiente.
Segundo Sandro Silva, coordenador técnico do Dieese-PR, o mercado mudou e exige uma análise que vá além da taxa de desocupação. “É importante fazer uma análise qualitativa, pois, quando comparamos o mercado de trabalho de hoje com o de 2013 e 2014, percebemos que, apesar da menor taxa de desocupação, a qualidade das ocupações piorou. Houve aumento da informalidade, da precarização, do trabalho por conta própria, muitas vezes como estratégia de sobrevivência, e da terceirização. Esses fatores impactam diretamente a renda e a estabilidade do trabalhador.”
Na avaliação do economista, o piso salarial regional continua sendo um dos principais instrumentos para fortalecer a renda e estimular a economia estadual. “A experiência do Paraná mostrou justamente o contrário do que muitos defendiam. O Estado continuou gerando vagas com salários mais elevados, o que fortaleceu o consumo e dinamizou a economia. O piso regional desempenha um papel importante para o desenvolvimento econômico porque melhora a renda dos trabalhadores e movimenta o mercado interno.”
Apesar disso, Sandro chama atenção para uma mudança recente. Desde 2023, o piso regional continua registrando ganho real, mas passou a crescer em ritmo inferior ao salário mínimo nacional. Na prática, a diferença entre os dois valores vem diminuindo, reduzindo uma das vantagens históricas dos trabalhadores paranaenses.

Para Márcio Kieller, mestre em Ciência Política, a valorização do salário mínimo precisa ser tratada como uma política permanente, e não como uma medida pontual. “A valorização do salário mínimo precisa ser uma política constante, construída de forma tripartite e não adotada de maneira esporádica. Não basta promover ganhos em alguns momentos e depois deixar que o poder de compra volte a ser corroído pela inflação. É preciso manter uma política permanente de valorização, que considere a realidade econômica e permita que o trabalhador tenha aumento real de renda ao longo do tempo”.
Os números mostram que o mercado continua contratando, embora em ritmo mais moderado. O setor de serviços permanece como o maior gerador de empregos formais no Paraná, enquanto a indústria voltou a apresentar recuperação após um período de retração. Já a construção civil se destaca pelo crescimento das admissões, impulsionada pelo avanço de investimentos em infraestrutura e no mercado imobiliário.
O desafio, porém, mudou de natureza. Se antes a preocupação das empresas era encontrar mão de obra em um mercado com alto desemprego, agora cresce a pressão para oferecer remuneração competitiva, benefícios e perspectivas de desenvolvimento profissional em um cenário em que o custo de vida pesa cada vez mais sobre o orçamento das famílias.
Para Sandro Silva, manter o mercado aquecido dependerá menos da quantidade de vagas abertas e mais da qualidade dessas oportunidades. “A economia continua criando empregos, mas em um ritmo menor. As perspectivas dependerão da capacidade de manter investimentos, estimular a atividade produtiva e preservar um ambiente favorável ao crescimento. O desafio agora não é apenas continuar gerando vagas, mas garantir que elas ofereçam renda e estabilidade para os trabalhadores.”
Para Kieller, o mercado de trabalho entrou em uma nova etapa. Segundo ele, o debate já não pode se limitar à geração de empregos, mas precisa considerar o quanto esses salários conseguem acompanhar o custo de vida. “O principal indicador era a criação de empregos; hoje, isso já não basta. O debate passa pela qualidade da remuneração e pela capacidade que ela tem de garantir uma vida digna. Quando o trabalhador percebe que o salário perde força diante do custo de vida, cresce também a importância da negociação coletiva como instrumento para aproximar a renda da realidade econômica.”





