No imaginário futebolístico, o jogo do time da corrupção contra o que une política e justiça

Por Naninho Françolin –

No país do futebol, a conquista do hexa veio em forma de frustração. Sim, seis copas sucessivas sem títulos. Hexa de “sem-título”. Nesta longa espera, a torcida foi se ajeitando e se ajustando para assistir a outros espetáculos, alguns em forma de horror ou terror, quando retirados de um gramado e lançados a um cenário de personagens de outros horizontes e que tanto impactam no cotidiano dos brasileiros, como a política, a justiça, a economia e a ética.

Eis que numa peleja imaginária já está em campo o time Tentação & Poder, profissionalíssimo e com tantas conquistas que algumas são guardadas em segredo absoluto. E entra escalado com a formação tradicional. Com Corruptio assumindo as balizas do gol, ao lado do Desperançoso, do Desigualdade, do Insegurança e do Desrespeito. No meio, Injusto Bigorna e o Ganâncio. No ataque, Luxúrio, Invejadinho, Soberbo e Indolêncio Tirano.

Timaço por demais temido, com inspiração secular e tendo expresso em seu distintivo peitoral o “cifrão”, realçando a tradição das derrotas que impõe pela combinação rica de jogadas. O técnico Chico Sepurtura tem o time “na mão” e apoio incondicional da sua seletiva e fanática torcida, que não desgruda das tetas. Opa. Não arreda o pé nem quando há tretas, melhor escrevendo.

Do outro lado, a agremiação Academia Themis Mor, montada mais por indicação do que critérios de qualidade técnica, de obediência tática, padrão de jogo e aos ditames éticos moldados à profissão. E o time já entra em campo desfalcado, pois um atleta ficou pelo caminho e ainda não teve reposição. Abandonou o time alegando desunião e incompatibilidades de gênio. Isto? Um misto de mercado carente de bons atletas com o jogo de interesses de cartolas querendo emplacar preferências para auferir dividendos futuros. Ainda mais que não se permite banco de reservas. Nem com escolhas a dedo. O Bessia foi barrado ainda no vestiário. A título de curiosidade, vale lembrar que antes da Copa de 1958 as trocas eram impedidas. Jogador machucado saía e não entrava ninguém.

E no jogo que abre o quadrangular – na outra chave estão o Lex e o Executus –, a crônica está impedida de nomear os representantes do Themis Mor que vão a campo, por força de decisão em liminar de última hora dada pelo Tribunal Esportivo. A narração sugerida é pelo número da camisa ou descrição física ou apelidos. Porém, um narrador esportivo começou falando de triangulação da pelota no aquecimento, citando Careca, Deocano e Taiá e fazendo referência ao preparo físico do Rocco e seu destaque na zaga. E já foi tirado do ar, acusado de injúria, ofensa à honra e risco à integridade moral dos afamados e inflamantes atletas.

Bola rolando em piso enlameado, demonstração evidente de desorganização técnica e tática do time dos acadêmicos. O capitão, falando baixinho na lateral, cobra lealdade do grupo aos valores esportivos e respeito aos torcedores. Desatentos aos sussurros do capitão, alguns atletas parecem confundir os lados do campo e disparam chutes contra o próprio gol. Talvez raios solares – ou lunares – possam estar ofuscando. Ou gente da (ou na) torcida mirando laser no céu das promessas ou reflexo do uniforme que enlameou. Ah! Mas pode ter gente fazendo corpo mole, mirando aposentaria ou seduzido pela promessa de algum contrato milionário. Afinal, no futebol é comum que jogadores talentosos ou com “boa presença na área” sejam procurados por cartolas de times endinheirados, sejam nacionais ou estrangeiros mesmo.

Mesmo para quem está só ouvindo no rádio, sem ver os lances, fica evidente que há panelinhas formadas. Assim fica mais difícil combater com mais rigor e eficácia o provocativo adversário. O técnico improvisado Gonewhite (de competência contestada) até recebe orientações de jogadores mais experientes e imponentes, mas mantém firme o desenho tático que até tem uma singularidade com o famoso “tiki-taka”, mas consagrado por aqui com o apelido de “embro-meichon”.

A crônica esportiva se divide entre críticas à confusão presente no platô e a elogios e bajulações, parecendo enxergar outro jogo. A arbitragem ora faz vistas grossas às jogadas mais violentas e ora dá cartão só para quem reclama dos pontapés e dos escorregões dos adversários e, ao que parece, até para torcedores. Azar do repórter de campo, ali, que opinou “ao vivo” de que o time da casa estava entregando o jogo. O burburinho à margem do gramado deu lugar ao sujeito sendo escoltado pela Polícia à área externa e tendo os equipamentos confiscados. Tudo dentro das regras.

A grande massa assiste a tudo expondo suas preferências. Faz lembrar os “bois” Garantido e Caprichoso no Bumbódromo de Parintins. Cores azul e vermelha dos “bois” à parte, as vaias se misturam aos aplausos, mesmo quando jogadas aparentemente faltosas sugerem que há, de fato, gente do Themis Mor querendo entregar o jogo para o adversário. E há os que não “se metem a besta” de exibir a camisa ou aplaudir o time preferido. Medo de levar porrada, de novo, do pessoal da segurança.

Jogo que segue, vida que segue. No tempo normal, na prorrogação ou nos pênaltis, alguém vai ter que sair vencedor rumo à final. Na outra semi, o jogo de ida será no dia 4 de outubro. Povão na expectativa, pois dali já sai favorito para, depois, moldar o time que vai encarar os desafios que vêm pela frente. E até com chance de neutralizar as grandes jogadas do Tentação, pois pode usar o regulamento para emprestar pelo menos quatro defensores ou atacantes para a “sele” Themis Mor, esta sob risco ainda de desfalques de última hora devido a esforços ou ações extracampo.

A exemplo do Mundial de Futebol, que só vai ocorrer daqui a quatro anos, o Brasil vive momento especial classificatório. Está nos preparativos do que vai enfrentar no quadriênio a seguir, pós rescaldo das urnas. Para quem cantou ou ouviu falar dos “noventa milhões em ação”, em 1970, no tri do México, agora tem na massa de 158 milhões de eleitores aptos a votar os desígnios da cúpula dirigente desse grande time a ser levado a campo e consagrado vencedor. A outra Copa está muito longe para se sonhar com novas promessas. A sociedade brasileira não quer mais derrotas.

(*) Naninho Françolin é  jornalista, cronista e ensaísta com alguma experiência de esquema tático para futebol de mesa (botão).

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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