Por Eduardo Regonha –
Em saúde, discutir custos ainda pode ser confundido com discutir cortes. Na prática, são questões bastante diferentes. Conhecer quanto custa prestar assistência é uma condição básica para decidir melhor onde e como utilizar recursos que são, por definição, limitados.
Essa discussão se torna ainda mais relevante na saúde pública. Hospitais e demais instituições precisam conciliar demanda assistencial, qualidade do atendimento, incorporação tecnológica, manutenção de estruturas complexas e restrições orçamentárias. Sem informações confiáveis sobre custos, decisões que deveriam ser técnicas passam a ser tomadas com uma visão incompleta da operação.
Saber quanto custa uma diária, um exame, uma cirurgia ou determinado procedimento é apenas uma parte desse processo. A apuração precisa considerar mão de obra, medicamentos, materiais, equipamentos, energia, água, depreciação e todos os demais recursos necessários para que aquele atendimento aconteça.
É esse conjunto de informações que permite compreender o custo real da assistência. E esse conhecimento importa não apenas para saber quanto foi gasto. Ele ajuda a identificar onde os recursos estão sendo consumidos, quais processos precisam ser revistos, onde existem desperdícios e quais decisões podem produzir maior eficiência sem comprometer a qualidade do cuidado.
Uma metodologia de custeio bem estruturada transforma, portanto, uma informação contábil em informação de gestão.
Quando os dados são analisados de forma sistemática, passam a apoiar decisões bastante concretas. É possível avaliar, por exemplo, se determinado serviço deve ser realizado internamente ou terceirizado, identificar perdas de estoque e consumo excessivo de materiais, comparar custos entre áreas ou acompanhar como mudanças nos processos impactam a operação.
Também se torna possível relacionar recursos utilizados aos resultados produzidos. Uma determinada intervenção pode representar um custo maior em uma etapa do cuidado e, ao mesmo tempo, contribuir para reduzir o tempo de internação, evitar complicações ou melhorar outros resultados assistenciais. Sem conhecer os dois lados dessa equação, a análise fica incompleta. Na saúde pública, essa capacidade é particularmente importante porque eficiência não significa simplesmente gastar menos. Significa utilizar melhor os recursos disponíveis.
Uma redução de despesa que comprometa a assistência não representa necessariamente eficiência. Da mesma forma, um investimento maior pode ser justificável quando produz ganhos assistenciais, operacionais ou financeiros capazes de compensá-lo. A gestão de custos fornece elementos para que essas escolhas sejam feitas com mais segurança.
Há ainda uma dimensão importante de planejamento e governança. Informações de custos podem subsidiar negociações, repasses de recursos, construção de indicadores, definição de prioridades e acompanhamento da evolução da instituição. Também contribuem para maior transparência na prestação de contas aos órgãos de controle e à sociedade.
Mas existe uma condição fundamental: a informação precisa chegar no momento em que ainda é possível agir sobre ela.
Um relatório produzido três ou quatro meses depois do fato pode ter utilidade histórica e contábil, mas perde grande parte de sua capacidade gerencial. Quanto menor o intervalo entre a ocorrência do custo, sua identificação e sua análise, maior a possibilidade de corrigir desvios, revisar processos e responder às mudanças da operação.
Por isso, a gestão de custos não deve ser entendida como responsabilidade exclusiva da área financeira. Para produzir resultados, precisa envolver gestores assistenciais, administrativos e lideranças responsáveis pelos diferentes processos da instituição. São essas áreas que conhecem a operação e podem transformar a informação em ação. Esse talvez seja um dos pontos mais importantes da discussão. A apuração do custo não é o objetivo final.
Uma instituição pode conhecer detalhadamente quanto custa cada procedimento e, ainda assim, continuar tomando decisões pouco eficientes se essas informações não forem incorporadas à gestão. O valor dos dados está na capacidade de utilizá-los para comparar, questionar, planejar e corrigir.
Em um ambiente no qual as instituições de saúde precisam responder a demandas crescentes com recursos limitados, administrar sem conhecer os custos reais da assistência representa um risco cada vez maior.
Gestão de custos não resolve, isoladamente, todos os desafios da saúde pública. Mas fornece uma base objetiva para uma pergunta que precisa orientar permanentemente a gestão: diante dos recursos disponíveis, como gerar a melhor assistência possível?
Responder a essa pergunta exige conhecer não apenas quanto se gasta, mas onde, como e com que resultado cada recurso é utilizado.
(*) Eduardo Regonha é consultor associado da 2iM, diretor executivo da XHL Consultoria e doutor em Ciências – Custos em Saúde, Pós-graduado em Administração Hospitalar pela FGV-SP e professor de Gestão de Custos em Saúde da Fundação Dom Cabral.





