Palpitação, falta de ar, aperto no peito e taquicardia podem aparecer tanto em quadros de ansiedade quanto em alterações cardiovasculares; para a cardiologista do Hospital Sírio Libanês de Brasília, Fernanda Weiler, reconhecer os sinais e saber quando investigar é fundamental.
Coração acelerado, falta de ar, tremor, suor frio, sensação de aperto no peito. Quem já passou por uma crise de ansiedade provavelmente reconhece alguns desses sintomas. O problema é que eles também podem aparecer em diferentes condições cardiovasculares e concluir sozinho que “é apenas ansiedade” pode fazer com que um problema que merece investigação seja ignorado.
“A ansiedade pode provocar sintomas físicos muito intensos, mas isso não significa que todo sintoma físico seja causado por ela. O contexto em que ele aparece, a duração, a intensidade e os fatores associados são informações importantes para entender o que está acontecendo”, explica a cardiologista Dra. Fernanda Weiler, diretora do Colégio Brasileiro de Medicina do Estilo de Vida (CBMEV) e médica do Hospital Sírio-Libanês de Brasília.
A confusão acontece porque a ansiedade provoca, de fato, uma resposta física no organismo. Diante de uma situação percebida como ameaça, o corpo entra em estado de alerta e libera hormônios como a adrenalina, aumentando a frequência cardíaca e preparando o organismo para reagir. É possível sentir o coração bater mais forte ou mais rápido, respirar de maneira diferente, apresentar tremores, suor e tensão muscular. Mas nem todo coração acelerado é ansiedade.
Uma palpitação que surge durante uma situação claramente estressante e desaparece à medida que a pessoa se acalma pode estar relacionada à resposta natural do organismo. Já sintomas novos, intensos, recorrentes ou que aparecem sem um gatilho emocional evidente merecem uma avaliação mais cuidadosa. “Não existe uma regra simples que permita separar ansiedade e doença cardiovascular apenas pelo sintoma. Por isso, principalmente quando uma manifestação é nova ou diferente do padrão daquela pessoa, é importante investigar”, afirma Fernanda.
Dor ou pressão no peito, falta de ar importante, desmaio ou sensação de desmaio, palpitações acompanhadas de tontura e sintomas que aparecem durante o esforço, por exemplo, não devem ser automaticamente atribuídos à ansiedade. A avaliação também considera o histórico de cada paciente. Idade, pressão arterial, colesterol, diabetes, tabagismo, sedentarismo, histórico familiar, uso de medicamentos e outras condições de saúde ajudam o médico a entender o contexto. O momento em que o sintoma surgiu e o que a pessoa estava fazendo também são informações relevantes.
Existe, porém, um outro extremo. Nem toda palpitação ou alteração momentânea da frequência cardíaca significa que existe uma doença no coração. O organismo acelera os batimentos durante o exercício, diante de um susto, em situações de ansiedade, durante uma febre e em diferentes circunstâncias do cotidiano. “Também não é saudável interpretar qualquer alteração dos batimentos como sinal de um problema cardíaco. O coração não bate exatamente no mesmo ritmo o tempo inteiro. O importante é entender o contexto, e não viver em estado permanente de vigilância”, explica a cardiologista.
Essa preocupação pode ganhar outra dimensão com a popularização dos relógios e dispositivos que monitoram a frequência cardíaca. Embora possam ser ferramentas úteis, uma variação pontual nos batimentos não deve ser interpretada isoladamente como diagnóstico de uma doença. “O dado pode ser um sinal para conversar com um médico, mas não substitui uma avaliação clínica”, pondera Fernanda.
A discussão ganha ainda mais relevância em setembro, quando a saúde mental ganha espaço por conta do Setembro Amarelo. A relação entre corpo e mente, porém, não deveria ser lembrada apenas durante uma campanha. “Quando alguém está sofrendo emocionalmente, isso também pode se manifestar fisicamente. E, da mesma forma, quando uma pessoa enfrenta uma doença cardiovascular, o impacto emocional dessa condição também precisa ser considerado. O paciente não é dividido em partes”, afirma Fernanda.
Para a médica, reconhecer essa conexão não significa transformar sintomas físicos em sintomas psicológicos, nem fazer o caminho contrário e interpretar toda manifestação de ansiedade como um problema cardíaco. Significa olhar para os sinais com atenção antes de chegar a uma conclusão.
“Nem tudo é ansiedade. Mas ansiedade também não é ‘coisa da cabeça’. Os sintomas são reais e merecem ser ouvidos. O papel do médico é entender o que existe por trás deles e, quando necessário, investigar antes de concluir”, finaliza a cardiologista.
Quando procurar avaliação médica?
Alguns sinais merecem atenção e não devem ser automaticamente atribuídos à ansiedade:
- dor, pressão ou aperto no peito, especialmente quando novos ou intensos;
- falta de ar importante ou diferente do habitual;
- desmaio ou sensação de desmaio;
- palpitações persistentes ou recorrentes;
- palpitação acompanhada de dor no peito, falta de ar, tontura ou mal-estar;
- sintomas que aparecem durante ou após esforço físico;
- alteração súbita dos batimentos sem causa aparente;
- sintomas novos em pessoas com fatores de risco cardiovascular ou histórico familiar relevante.
(*) Fernanda Weiler é formada em medicina pela Universidade de Brasília (UNB) com residência em cardiologia pela mesma Universidade. É membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia e certificada internacionalmente em Medicina do Estilo de Vida. Entre 2014 e 2015 foi professora da UNB.






