Antes da palavra, a imagem

Por Sandoval Tibúrcio – Como artes visuais e literatura se complementam a partir da memória.

Durante muitos anos, desenhei e pintei casas. Algumas inteiras, outras fragmentadas, soterradas, queimadas, reconstruídas. A casa foi permanecendo no meu trabalho e mudando comigo. Só mais tarde compreendi que talvez eu nunca estivesse falando apenas de casas. Falava de memória, de pertencimento, de ausência, das marcas que carregamos e das muitas maneiras que encontramos para continuar habitando a nós mesmos. 

Talvez seja aí que, para mim, artes visuais e literatura mais se aproximem. Não porque uma precise explicar a outra, mas porque ambas podem nascer do mesmo lugar e encontrar caminhos completamente diferentes para expressá-lo. 

Na pintura, muitas vezes chego a uma ideia antes de encontrar palavras para ela. A matéria, a cor, uma superfície desgastada ou uma imagem repetida conseguem dizer algo que eu ainda não saberia escrever. A literatura faz o movimento contrário. Ela me obriga a permanecer mais tempo dentro de uma experiência, dar voz a um conflito, acompanhar um personagem, perceber detalhes que talvez uma imagem deixasse em silêncio. 

Quando escrevo, também vejo. Imagino espaços, movimentos, luz, rostos. Quando trabalho visualmente, frequentemente existe uma história acontecendo, mesmo que ela jamais seja contada por inteiro. Não vejo nisso uma mistura de linguagens, mas duas possibilidades de aproximação da mesma experiência. 

Minha relação com a memória talvez seja um bom exemplo. Não acredito na memória como arquivo intacto. O acontecimento pode permanecer o mesmo, mas nós mudamos, e aquilo que lembramos passa a ocupar outros lugares dentro de nós. Posso transformar uma lembrança em texto e descobrir nela uma coisa. Posso levá-la para uma obra e encontrar outra. Nenhuma das duas precisa ser a versão definitiva. 

Durante muito tempo fomos ensinados a organizar a criação em territórios muito definidos: pintura de um lado, literatura de outro. Essas divisões são úteis para compreender técnicas e histórias, mas a experiência humana não acontece dessa maneira. Uma perda não chega até nós como literatura. Um desejo não nasce pintura. Uma lembrança não escolhe previamente a linguagem em que será transformada. 

Talvez criar seja justamente encontrar uma forma possível para aquilo que ainda não tem forma. 

Por isso, não penso que seja necessário escolher entre imagem e palavra. Algumas experiências pedem matéria; outras, narrativa. E existem aquelas que voltam muitas vezes, mudando de linguagem porque nós também já não somos os mesmos. 

Continuo pintando casas. Continuo escrevendo histórias. Hoje entendo melhor que, apesar das ferramentas diferentes, procuro nas duas coisas algo muito parecido: dar forma ao que vivi, ao que observei e ao que ainda tento compreender. 


(*) Sandoval Tibúrcio é artista visual, escritor e autor do romance “Magnitude. Nas artes, sua pesquisa tem as casas como elemento central e já alcançou exposições no Brasil e no exterior. Participou de mostras em Paris, incluindo o Carrousel du Louvre, Dubai, Buenos Aires, China e Noruega. 

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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