Flávio Dino estaria pavimentando o caminho para suceder Lula?

Neste vazio deixado pelo PT, que não construiu um sucessor de Lula, é que começa a surgir um personagem curioso: Flávio Dino.

O ministro não diz. Talvez nem possa dizer. Mas seus movimentos começam a alimentar em Brasília uma pergunta que parecia improvável até pouco tempo atrás: Flávio Dino estaria olhando para 2030?

O PT tem um problema que Luiz Inácio Lula da Silva nunca conseguiu — ou nunca quis — resolver: encontrar um sucessor à altura de sua liderança. Até agora, Lula não construiu dentro do partido um herdeiro político capaz de assumir naturalmente o comando da esquerda brasileira quando ele deixar o palco.

Foto?18horas.com.br

Ministro do Supremo Tribunal Federal desde fevereiro de 2024, Dino teria, em condições normais, uma longa carreira pela frente na mais alta Corte do país. Mas seu comportamento público e o protagonismo crescente no tribunal começam a alimentar especulações sobre a possibilidade de abandonar a toga, no futuro, para disputar a herança política de Lula em 2030.

É uma conversa que começa a circular em Brasília.

Basta observar o espaço ocupado por Dino nas sessões do Supremo. Ele fala muito, confronta, argumenta, ocupa o palco e entra em temas de grande repercussão nacional com uma desenvoltura pouco comum para quem trocou a arena política pela magistratura.

Em episódio recente envolvendo Nossa Senhora Aparecida, Dino voltou a entrar no centro da controvérsia política. Para seus críticos, chegou a deixar aparecer a “camisa vermelha” por baixo da toga. Seus defensores certamente dirão o contrário: que apenas exerceu as prerrogativas de ministro do Supremo.

Histórico político

Talvez Flávio Dino nunca tenha deixado completamente de ser político. Apenas mudou de endereço. Dino entrou no Supremo pela porta da magistratura, mas trouxe consigo uma bagagem que dificilmente caberia no armário de qualquer gabinete. Foi governador do Maranhão, senador, ministro da Justiça, deputado federal e dirigente político. A toga cobriu o político — mas aparentemente não o matou.

Existe ainda uma ironia nessa história. Em 2023, quando seu nome já aparecia em especulações sobre uma eventual candidatura presidencial, Dino afirmou que quem estivesse fazendo planos para 2030 precisava de “tratamento médico”.

Lula ainda não tem um herdeiro

O calendário andou. E agora são aliados, integrantes do governo e dirigentes políticos que começam a olhar justamente para 2030.

Lula continua sem um herdeiro incontestável. Fernando Haddad permanece no tabuleiro. João Campos cresce politicamente. Camilo Santana, Rui Costa, Guilherme Boulos e outros nomes aparecem nas conversas sobre o futuro da esquerda. Nenhum deles, porém, reúne exatamente a mesma combinação encontrada em Dino: experiência administrativa, trânsito político, conhecimento jurídico, exposição nacional e uma impressionante capacidade de ocupar o centro do palco.

Há, entretanto, uma enorme pedra nesse caminho. E ela se chama Supremo Tribunal Federal.

Se Flávio Dino realmente alimentar algum projeto presidencial para 2030, chegará inevitavelmente o momento em que o Brasil terá o direito de fazer uma pergunta incômoda: onde termina o ministro e onde começa o candidato?

Porque uma coisa é um ministro do Supremo tomar decisões duras, enfrentar interesses poderosos e defender aquilo que entende ser a Constituição. Outra, completamente diferente, seria permitir que decisões judiciais fossem interpretadas como degraus de uma futura escada eleitoral.

Até agora, não há prova de que Dino esteja fazendo isso. Mas política raramente começa com uma confissão de candidatura. Começa com gestos, movimentos, ocupação de espaços, construção de imagem e sinais lançados ao ambiente político.

Um personagem de toga

E Brasília, especialista em farejar candidaturas antes mesmo dos candidatos, parece ter começado a sentir alguma coisa no ar.

Talvez a sucessão de Lula em 2030 não esteja sendo preparada apenas nos ministérios, nos palácios dos governadores ou nas executivas partidárias. Talvez um dos personagens dessa disputa esteja exatamente onde poucos imaginavam procurá-lo:

debaixo de uma toga.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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