Condição pode ser frequente em pessoas com insuficiência cardíaca e merece acompanhamento, mesmo quando os níveis de hemoglobina estão normais.
Quando se fala em deficiência de ferro, é comum associá-la imediatamente à anemia. As duas condições, porém, não são sinônimas. Uma pessoa pode apresentar redução nos estoques de ferro mesmo sem ter níveis baixos de hemoglobina.
A diferença ganha importância em determinadas condições clínicas, entre elas a insuficiência cardíaca. Nesses pacientes, a deficiência de ferro é relativamente frequente e pode ocorrer tanto em pessoas com anemia quanto naquelas que apresentam hemoglobina dentro dos valores considerados normais.
“O primeiro ponto é diferenciar deficiência de ferro de anemia. A deficiência de ferro pode estar presente sem que o paciente tenha anemia, e essa condição merece atenção especialmente quando existe uma doença cardiovascular já diagnosticada. Isso não significa, porém, que a deficiência de ferro seja responsável por provocar insuficiência cardíaca”, explica Carlos Alberto Reyes Medina, diretor médico da Carnot Laboratórios.
Por que o ferro é importante para pacientes com insuficiência cardíaca?
O ferro participa de processos relacionados ao metabolismo energético e ao funcionamento de diferentes tecidos do organismo. Por isso, sua deficiência pode ter repercussões que vão além da formação da hemoglobina.
De acordo com a European Society of Cardiology (ESC), a deficiência de ferro é comum em pacientes com insuficiência cardíaca crônica e pode estar presente em até 55% desses pacientes, inclusive na ausência de anemia. Nesse contexto, a condição está associada a menor capacidade funcional e pior qualidade de vida.
A relação, portanto, deve ser compreendida dentro do contexto da própria insuficiência cardíaca: não se trata de afirmar que a deficiência de ferro causa a doença, mas de reconhecer que alterações no metabolismo do ferro são frequentes entre pessoas que já apresentam essa condição e podem influenciar seu estado clínico.
Deficiência de ferro e anemia são a mesma coisa?
Não. A anemia é caracterizada pela redução da concentração de hemoglobina no sangue. Já a deficiência de ferro pode existir antes que essa redução aconteça.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a deficiência de ferro como uma condição que pode ocorrer com ou sem anemia. A avaliação dos estoques de ferro pode envolver exames como a ferritina e a saturação de transferrina, cuja interpretação deve considerar o contexto clínico de cada paciente.
“Ter hemoglobina normal não significa necessariamente que os estoques de ferro estejam adequados. Da mesma forma, identificar uma deficiência de ferro não significa que o paciente tenha ou vá desenvolver uma doença cardíaca. O significado dos resultados depende da avaliação clínica e das condições de saúde de cada pessoa”, afirma o médico Carlos Medina.
Quando essa avaliação é especialmente importante?
A investigação do ferro ganha relevância em pessoas com insuficiência cardíaca já diagnosticada. As diretrizes da ESC recomendam que esses pacientes sejam avaliados periodicamente quanto à presença de anemia e deficiência de ferro.
Nesses casos, a identificação da deficiência pode contribuir para uma abordagem mais completa do paciente. Estudos clínicos também avaliaram o uso de reposição de ferro em determinados pacientes com insuficiência cardíaca e deficiência de ferro, com resultados relacionados principalmente à capacidade funcional, sintomas e qualidade de vida.
Isso não significa, entretanto, que toda pessoa com deficiência de ferro precise receber suplementação ou que a reposição tenha o objetivo de prevenir insuficiência cardíaca. A indicação depende da avaliação médica, da causa da deficiência e do quadro clínico.
“Quando existe uma alteração nos níveis de ferro, é importante entender por que ela está acontecendo e em qual contexto clínico ela aparece. A reposição deve ser individualizada e não deve ser feita por conta própria”, orienta o médico.
A principal mensagem, portanto, é que deficiência de ferro e insuficiência cardíaca podem estar relacionadas, mas uma condição não deve ser apresentada como causa direta da outra. O acompanhamento adequado permite identificar alterações no metabolismo do ferro e avaliar sua relevância dentro do quadro de saúde de cada paciente.





