Carlos Sperandio (*) – O que deixaremos para nossos filhos: uma nova cultura da velhice?

Pergunto-me há anos: por que ser velho virou defeito? Não é uma pergunta retórica. O envelhecimento é fato biológico, e a velhice, fase da vida. Mas o desprezo pela velhice não é fato biológico. É construção cultural. Tem data, endereço e método. Pergunto-me de novo: o que foi construído pode ser desmontado?

Este texto conta como a juventude virou valor no Brasil, e o que isso fez com quem envelhece. Para não ficar abstrato, escolhi contar intergeracionalmente. Nossa avó viu a virada acontecer. Nossa mãe aprendeu a se esconder. Nós crescemos dentro dela. Nossos filhos vão envelhecer na cultura que a gente deixar. Medo.

Uma advertência antes de começar. Este texto não é contra quem pinta o cabelo, faz botox ou usa filtro. É sobre a cultura que cobra tudo isso. A diferença importa, e vou voltar a ela.

A avó: quando o Brasil começou a cultuar a juventude

Em 1980, o Brasil era um país de crianças. Segundo o IBGE, 38,2% da população tinha até 14 anos, e apenas 6,1% tinha 60 anos ou mais. Se você era criança naquela década, como eu, éramos quatro em cada dez brasileiros. Ser jovem não era exceção. Era a regra estatística do país.

Mas a juventude como valor, e não só como fase, tem uma data de estreia registrada: 22 de agosto de 1965, num domingo à tarde, a TV Record colocou no ar um programa chamado Jovem Guarda. A emissora tinha perdido o direito de transmitir o futebol de domingo e precisava preencher a grade. Ninguém planejou uma revolução cultural. Era para ser uma tarde de domingo qualquer.

O que veio depois foi muito maior do que o programa. Em pouco tempo, a palavra “jovem” virou etiqueta. A música jovem movimentou o mercado de discos, filmes, revistas e até de artigos de consumo, como calças, botas, bonecos e lancheiras. Ser jovem passou a ter loja. E o que tem loja, tem propaganda. Muita propaganda nesse caso. Olha onde começou e veja onde foi parar…

Quando isso aconteceu, a sua avó provavelmente já era adulta. Ela viu a juventude virar vitrine do lado de fora. Envelheceu sem manual, sem aplauso e sem pedir licença. E é aqui que a primeira virada se completa: ser jovem deixou de ser uma fase da vida e virou um ideal. Não é  preciso dizer que ideal não envelhece.

O Brasil, no entanto, seguiu o caminho oposto. De 6,1% de pessoas com 60 anos ou mais em 1980, chegamos a 15,6% em 2022. O país mudou de idade. O problema enorme é que a pessoa referência ficou parada naquela criada em 1965.

A mãe: quando envelhecer virou algo a esconder

O Brasil é o país que mais faz cirurgia plástica no mundo. Segundo a pesquisa global da ISAPS, a sociedade internacional de cirurgia plástica estética, foram 2,3 milhões de procedimentos cirúrgicos em 2024, o que nos dá o primeiro lugar no planeta. A pergunta que interessa não é quem faz essa plástica toda. É por quê?

Pense na sua mãe. Lembra quando ela pintou o primeiro fio branco? Ela não estava sendo vaidosa. Simplesmente, ela estava lendo o país corretamente. A antropóloga Mirian Goldenberg, da UFRJ, descreve o corpo, na cultura brasileira, como uma forma de capital, talvez a mais desejada: capital no mercado de trabalho, no mercado de casamento e no mercado erótico. Um capital que perde valor com o tempo gera medo. E medo gera tinta, filtro e bisturi.

O efeito disso ficou assim: envelhecer bem virou mérito, e envelhecer “mal” virou culpa. Aqui está a segunda virada. Já não bastava viver bem. Era preciso não parecer velho. Loucura!

Hoje o filtro está no celular do seu filho, e a lógica é a mesma da tinta da sua mãe. O detalhe cruel dessa engrenagem é que cada ruga escondida confirma que ruga precisa ser escondida. Ninguém sai disso sozinho. Por isso, o texto não julga quem cede. Nossas mães, e nós, fizemos o que a cultura ensinou. Não é vaidade. É leitura correta de uma sociedade que vende estereótipos e cobra, como cobra!

Nós: o Brasil envelheceu, a cultura não!

A Marvel já dedicou um filme aos animais de laboratório. Outro trouxe o primeiro beijo entre dois homens da franquia. Tente lembrar do filme dela sobre envelhecer.

Escolhi a Marvel porque talvez seja o universo a que você, seus filhos e até seus netos assistem juntos. Em 2023, Guardiões da Galáxia Vol. 3 contou a origem do Rocket, um guaxinim torturado em laboratório, e a PETA premiou o diretor pela mensagem. Em 2021, Eternos apresentou o primeiro super-herói abertamente gay do universo Marvel no cinema, com marido, filho e beijo em cena. Ótimo que seja assim. Cinema que amplia quem cabe na história é cinema melhor.

Agora a pergunta que ninguém fez em voz alta: e o velho? Em Capitã Marvel, de 2019, Samuel L. Jackson, então com 70 anos, foi rejuvenescido digitalmente em 25 anos, durante o filme inteiro. Antes dele, Michael Douglas, Michelle Pfeiffer, Robert Downey Jr. e Kurt Russell passaram pelo mesmo processo em filmes da Marvel. O estúdio de efeitos que faz esse trabalho conta que, em Hollywood, o uso mais comum da técnica é o chamado trabalho de “beleza”: apagar ruga e olheira, protegido por contrato de sigilo.

E quando um herói finalmente envelhece em cena? No fim de Vingadores: Ultimato, Steve Rogers aparece velho num banco e entrega o escudo. No maior universo do cinema, envelhecer é a cena da despedida.

Ah, mas e o Logan, doc? Boa memória! Mas o filme é da Fox, não do universo Marvel dos cinemas. E repare no enredo: um herói envelhecido cuida do mentor de 90 anos, que tem demência. Até quando a velhice aparece, chega como doença.

Fora da tela, os números são outros. O Censo 2022 contou 32,1 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. Já são 80 idosos para cada 100 crianças de até 14 anos. E o Relatório Global sobre Idadismo, da OMS e da ONU, mostrou que uma em cada duas pessoas no mundo tem atitudes idadistas. Mais uma medida de loucura: temos cada vez mais gente velha vivendo numa cultura que ainda associa valor ao jovem. Quem te ensinou a ver o velho assim foi uma onda originada num programa de TV na tarde de um domingo qualquer em 1965…

O que deixaremos para nossos filhos: uma nova cultura da velhice?

O jeito como você pensa a velhice está associado a 7,5 anos de vida. Não é frase de autoajuda. É um estudo da Universidade Yale, publicado em 2002: 660 pessoas com 50 anos ou mais responderam o que pensavam do próprio envelhecimento e foram acompanhadas por até 23 anos. Quem via o envelhecimento de forma mais positiva viveu, em média, 7,5 anos a mais, mesmo descontando idade, sexo, nível socioeconômico, solidão e saúde funcional.

Honestidade de médico: é um estudo observacional. Mostra associação, não prova causa. Mas é sinal demais para ignorar. Os próprios pesquisadores acharam uma pista de por onde o efeito passa: pela vontade de viver. Ou seja, o que a cultura te ensina sobre a velhice pode não ficar só na cabeça. Ela metastatiza para o seu modus vivendi.

Pense no que ouvimos a vida inteira: “coisa de velho”, “já tá velho pra isso”, “na sua idade”. Aos 30, é piada sobre os outros. Aos 70, vira frase sobre você. E não é um estudo isolado. A OMS e a ONU chegaram lá em escala mundial: o idadismo está ligado a pior saúde, mais isolamento e morte mais cedo. O preconceito contra a velhice não é só injusto. Faz mal à saúde.

Por isso a saída não é só individual. Não adianta pensar profundo sozinho numa cultura que pensa superficial.

Sem romantizar: envelhecer tem perda, doença e luto. Mas também tem muita coisa boa. Na tempestade, ninguém nega o vento. Nós, geriatras, lançamos âncora no que é bom.

O problema, portanto, não é envelhecer. É envelhecer numa cultura que não sabe o que fazer com quem envelhece. Uma cultura que esconde, como na tinta da sua mãe. Que apaga, como no filme. Que aposenta, como no banco do Capitão América.

Então, o que colocar no lugar? Uma ideia de velhice associada também a autonomia, força e movimento, no corpo. A repertório e curiosidade, na mente. A vínculos, desejo e presença, nas conexões. A contribuição e projeto de vida, nos propósitos. Isso tem nome aqui na Clínica Gerus: Corpo, Mente, Conexões, Propósitos. É o mesmo mapa que uso com cada paciente, e é o mapa que proponho para a cultura.

Nossos filhos vão envelhecer na cultura que a gente deixar. A avó, a mãe, você e eu. A próxima geração começa a ser escrita agora.

Para terminar

O resumo desse texto cabe numa frase: transformamos juventude em valor, e agora precisamos construir valor para a velhice. Não para negar a perda, mas para que a perda não seja a história inteira. Aqui a velhice jamais será tratada como defeito. Geriatria sem rodeios.

Se este texto mudou um pouco o jeito como você olha a velhice, mande para alguém da sua família de outra geração.

(*) Dr. Carlos Sperandio é médico geriatra (CRM-PR 19.295 | RQE 22.549). Atua na Clínica Gerus, Envelhecimento & Qualidade de Vida.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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