Biópsia transperineal guiada por micro-ultrassom permite investigar lesões suspeitas com alta precisão e pode contribuir para a preservação das funções urinárias e sexuais.
O diagnóstico precoce do câncer de próstata pode fazer diferença não apenas nas chances de controle da doença, mas também nas possibilidades de tratamento e na qualidade de vida dos pacientes. Com o avanço das tecnologias de imagem, identificar tumores em estágios iniciais e localizar com maior precisão as áreas suspeitas tornou-se uma etapa importante para definir condutas mais individualizadas, incluindo, em casos selecionados, tratamentos que preservam a próstata.
Entre os recursos disponíveis está a biópsia transperineal guiada por micro-ultrassom, procedimento que utiliza imagens de alta resolução para orientar a coleta de fragmentos da próstata destinados à análise laboratorial. A tecnologia permite visualizar detalhes da estrutura prostática e direcionar a investigação para regiões com características suspeitas de malignidade, aumentando a precisão da amostragem.
Diferentemente do ultrassom convencional, o micro-ultrassom utiliza frequência de 29 MHz, proporcionando imagens com resolução espacial superior. Esse nível de detalhamento auxilia o urologista na identificação de alterações suspeitas, inclusive em lesões pequenas, que podem exigir uma investigação mais direcionada.
O urologista Alberto Tomé foi o quarto médico do Brasil a incorporar a tecnologia à sua prática clínica e o primeiro a disponibilizá-la no interior do Paraná, ampliando o acesso a um recurso avançado para a investigação do câncer de próstata fora dos grandes centros. O especialista também planeja levar, em breve, o micro-ultrassom ao Mato Grosso do Sul, expandindo a disponibilidade do exame na região Centro-Oeste.
De acordo com o médico, a precisão na identificação das lesões pode fazer diferença não apenas na investigação da doença, mas também na escolha do tratamento.
“Quanto mais cedo conseguimos identificar um tumor e compreender sua localização e extensão, maiores podem ser as possibilidades de oferecer um tratamento individualizado. Em determinados casos, conseguimos tratar apenas a região comprometida, preservando o restante da próstata e estruturas importantes para a qualidade de vida do paciente”, explica.
Diagnóstico pode evitar tratamentos mais extensos
Uma das possibilidades para pacientes com tumores localizados é a terapia focal, modalidade de tratamento que busca destruir exclusivamente a região da próstata onde está a lesão cancerígena, preservando o tecido saudável ao redor.
A técnica pode ser considerada para pacientes cuidadosamente selecionados, após avaliação das características do tumor, dos resultados da biópsia e dos demais exames. Seu objetivo é controlar a doença com menor impacto sobre estruturas relacionadas à continência urinária e à função sexual.
Em situações nas quais o câncer exige a retirada completa da próstata, a chamada prostatectomia radical, a incontinência urinária e a disfunção erétil estão entre as possíveis consequências, mesmo com os avanços das técnicas cirúrgicas. Por isso, identificar a doença enquanto ainda existem alternativas terapêuticas pode representar uma diferença importante para o paciente.
“A grande vantagem do diagnóstico precoce é ampliar as possibilidades de tratamento. Quando identificamos um tumor ainda localizado e com características favoráveis, podemos avaliar alternativas como a terapia focal, que trata apenas a área comprometida, sem a necessidade de retirar toda a próstata. Isso pode reduzir os riscos de alterações urinárias e sexuais, que estão entre as maiores preocupações dos homens”, destaca o urologista.
O especialista ressalta, entretanto, que nem todo câncer de próstata identificado precocemente exige tratamento imediato ou permite terapia focal. Dependendo do grau de agressividade, da extensão da doença e das condições clínicas do paciente, a vigilância ativa, a cirurgia e a radioterapia também podem ser indicadas. A terapia focal ainda apresenta limitações nas evidências de longo prazo e exige seleção criteriosa e acompanhamento.
Como funciona a biópsia transperineal
Na biópsia transperineal, a coleta dos fragmentos da próstata é realizada por meio do períneo, região localizada entre o escroto e o ânus, em vez de atravessar a parede do reto.
Essa via de acesso apresenta menor risco de complicações infecciosas quando comparada à biópsia transretal. Com a orientação do micro-ultrassom, o médico acompanha as imagens em tempo real e consegue direcionar a coleta para áreas suspeitas, além de realizar a amostragem sistemática quando necessária.
O procedimento pode ser indicado na investigação de pacientes com alterações do PSA, achados suspeitos no exame clínico ou em exames de imagem, além de situações em que a suspeita de câncer permanece mesmo após avaliações anteriores.
Apesar da elevada resolução das imagens, o micro-ultrassom não confirma isoladamente a presença de câncer. O diagnóstico definitivo depende da análise anatomopatológica dos fragmentos coletados durante a biópsia.
Atenção aos fatores de risco
O câncer de próstata pode se desenvolver silenciosamente, sem provocar sintomas nas fases iniciais. Alterações urinárias, como dificuldade para urinar, redução da força do jato e aumento da frequência das micções, também podem estar associadas a condições benignas, como o crescimento da próstata.
Por isso, a avaliação individualizada é fundamental, especialmente para homens com histórico familiar da doença e outros fatores de risco. A decisão sobre exames de rastreamento deve considerar idade, condições de saúde, histórico pessoal e familiar, além dos possíveis benefícios e riscos da investigação.
Para Alberto Tomé, o avanço das tecnologias diagnósticas representa uma oportunidade de tornar o cuidado mais preciso, sem perder de vista as particularidades de cada paciente.
“O objetivo não é apenas encontrar um tumor, mas entender suas características para escolher o tratamento mais adequado. Quando conseguimos fazer isso precocemente, podemos ampliar as possibilidades de controlar a doença e, ao mesmo tempo, preservar a qualidade de vida do paciente”, conclui.


