Greca: “Não tem música de direita nem de esquerda, porque o gaiteiro, pra tocar, precisa das duas mãos.”
Depois de assistir ao vídeo do ex-prefeito Rafael Greca, em conversa com produtores musicais, onde ele, nas entrelinhas de sua fala, deixa claro sua intenção de voto no candidato Luiz Inácio Lula da Silva e observar reações contrárias do bolsonarismo, consultei amigos sobre a intenção e a advogada e colaboradora deste jornal, Rafaella Munhoz da Rocha, fez uma análise sobre o conteúdo do vídeo e a mensagem de Greca.

Ao lado da vida, da ciência e da arte
Ao declarar voto em Lula, Rafael Greca não mudou de lado. Continuou onde sempre esteve: ao lado da vida, da ciência e da arte.
Desde segunda-feira circula um vídeo do Rafael Greca. Não tem palanque, jingle nem marqueteiro. É ele, de microfone na mão, diante de uma plateia de músicos, dizendo o que pensa sobre o domingo que vem. E dizendo do jeito dele, com uma imagem que só quem passou a vida entre livros, praças e partituras encontraria:
“Não tem música de direita nem de esquerda, porque o gaiteiro, pra tocar, precisa das duas mãos.”
Lembrando que a eleição de Greca acabou
Vale lembrar o óbvio: a eleição do Greca acabou. A chapa em que ele concorreu não chegou ao segundo turno. Ele não tem cargo a disputar, voto a pedir nem aliança a costurar. Por isso a fala pesa. Quando um homem público não tem mais nada a ganhar e mesmo assim se expõe, não está fazendo cálculo. Está fazendo escolha.
E a escolha dele não é de sigla. O que ele defendeu ali foi o SUS, a universidade, a escola pública, o museu e o financiamento da cultura. “Eles não querem museus, eles não querem universidades, eles não querem escolas públicas”, disse. Traduzindo, defendeu a vida, a ciência e a arte. Nenhuma das três tem dono ideológico, e nenhuma sobrevive sem Estado.
Greca não chegou a essa conclusão agora. Ele mesmo disse de onde vem: “O doutor Leonel Brizola me ensinou política.” E citou Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, gente que entendeu que um país se mede pelo que oferece a quem não pode pagar. Curitiba conhece essa linhagem na prática: os Faróis do Saber estão aí, espalhados pelos bairros, iluminando criança que talvez não tivesse outra biblioteca na vida.
Pensamento de estadista
Também não fingiu que o governo é perfeito. Fez ressalvas e reconheceu insatisfações. Mas separou o que é defeito de gestão do que é projeto de país. E fez a pergunta que deveria incomodar qualquer eleitor, de qualquer lado: “Pensem qual ideologia vale o direito de calar o Brasil.” Falou de soberania, de terras raras, de um país que não pode existir só para servir aos interesses de outro. Isso é pensamento de estadista, não de militância.
Haverá quem fale em incoerência. Afinal, o partido dele tomou outro rumo nacionalmente, e muitos aliados de longa data no Paraná também. Mas coerência não é obedecer à sigla da vez. Coerência é não trair o que se construiu. Quem ergueu bibliotecas, defendeu a cultura e governou pensando em quem mais precisa da cidade não poderia ficar calado na hora da decisão. Ele mesmo disse: se calasse, até as pedras falariam. A frase vem de Lucas. Quando pediram a Jesus que silenciasse os discípulos, ele respondeu que, se eles se calassem, as próprias pedras clamariam.
Acumulando tesouros que o verme devora
No vídeo, Greca disse ainda que há quem queira “acumular tesouros que o verme devora”. A imagem vem de Mateus, e o versículo seguinte termina a frase por ele: “onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração”. O tesouro do Greca nunca esteve no bolso. Esteve nas bibliotecas de bairro, nas escolas, nos museus, na música. E foi ali que ele pôs o coração, e o próprio nome, sabendo do custo.
Um gestor e estadista como ele não poderia se pronunciar de outra forma. A política precisa de mais gente assim, que lembra que o Brasil é grande quando toca com as duas mãos.





