Os desafios econômicos de Lula no 4º mandato

Avaliação da Times Brasil sobre os desafios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para seu quarto mandato: A dívida bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, ou R$ 11,1 trilhões, o maior patamar desde 2021.

Levantamentos estimam entre R$ 290 bilhões e R$ 405 bilhões o volume de medidas anunciadas pelo governo em 2026, incluindo crédito e renúncias de impostos.

O Orçamento de 2027 vai precisar de um ajuste de até R$ 39,9 bilhões. O Copom decide os juros em 4 de novembro, com a Selic em 13,75%.

Reeleito dois dias antes de completar 81anos, Lula começa o quarto mandato com a dívida em alta e pouca folga no Orçamento. Parte da pressão vem de medidas que o próprio governo adotou em 2026 e que pesam nas contas a partir de janeiro.

O primeiro sinal vem antes da posse, em 5 de janeiro. No dia 4 de novembro, o Copom decide os juros, hoje em 13,75% ao ano, e o mercado vai observar como o governo pretende conduzir as contas.

As medidas anunciadas em 2026

Cada levantamento usa um critério diferente. A Folha de São Paulo chegou a R$ 290 bilhões, a Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado, a R$ 298,4 bilhões, e o Gastômetro, do Estadão, a R$ 405 bilhões. Nem tudo é despesa: parte é crédito, parte é imposto que deixa de ser cobrado. Pelos cálculos preliminares da IFI, o conjunto pode elevar a dívida em 1,2 ponto percentual do PIB até o fim de 2027.

As de maior peso são o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, que custa cerca de R$ 23,4 bilhões por ano segundo a IFI, e a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil, com renúncia de R$ 28 bilhões em 2026. O governo também zerou tributos federais sobre a gasolina, anunciou o perdão de R$ 12,9 bilhões em dívidas de MEIs e prometeu estender o Pé-de-Meia a universitários em 2027.

Os ministérios da Fazenda e do Planejamento afirmam que os valores não são, na totalidade, despesa nova, e que eventuais ajustes vão respeitar as metas fiscais.

Déficit e dívida

De janeiro a agosto, o governo central teve déficit primário de R$ 94,9 bilhões. A projeção oficial para o ano é de déficit de R$ 80,9 bilhões. Pelas contas do governo, a meta é cumprida porque despesas como os precatórios ficam fora do cálculo.

O peso maior está nos juros. Nos 12 meses até agosto, o setor público gastou R$ 1,182 trilhão com juros, o equivalente a 8,86% do PIB. A dívida bruta, que era de 71,7% do PIB no fim de 2022, chegou a 82,9% em agosto. O governo projeta algo perto de 90% entre 2029 e 2030. No boletim Focus, o mercado prevê 95,1% em 2030.

Pouco espaço no Orçamento

O orçamento de 2027 precisará de ajuste de até R$ 39,9 bilhões para acomodar as novas medidas. A margem é estreita: cerca de 90% das despesas primárias da União são obrigatórias, e o Executivo controla só R$ 222,1 bilhões, que incluem o custeio da máquina e os investimentos. Aumentar a arrecadação também é difícil: a carga tributária bateu recorde em 2025, com 32,4% do PIB.

Juros e Congresso

O Brasil tem reservas internacionais elevadas e dívida externa pequena, o que reduz o risco de uma crise de financiamento e dá algum tempo ao governo. Mas juros altos encarecem a dívida e freiam o investimento privado, e a projeção de crescimento para 2027 é de 1,32%.

As medidas que mais seguram o gasto, como desvincular e desindexar despesas, dependem do Congresso. Lula terá de negociar com uma Câmara em que o PL, de Flávio Bolsonaro, terá a maior bancada a partir de fevereiro, com 121 deputados.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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