A crise existencial do Ocidente: momentos decisivos

Por Victor Missiato –

Em suas Lições sobre a Filosofia da História Universal, o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel atribuiu à Europa uma posição central no desenvolvimento histórico da ideia de civilização. Em sua interpretação, a história percorreria um longo processo dialético, partindo das antigas civilizações orientais, atravessando o mundo grego e romano, incorporando a tradição cristã e alcançando, finalmente, a modernidade europeia.

Essa leitura, elaborada no século XIX, encontrava correspondência nas transformações materiais e políticas de seu tempo. A expansão dos impérios europeus, a consolidação dos Estados nacionais e, posteriormente, a formação do Estado de bem-estar social no século XX contribuíram para fortalecer a percepção de que o Ocidente representava o principal eixo de desenvolvimento da civilização. Com a globalização capitalista liderada pelos Estados Unidos, essa perspectiva ganhou uma nova dimensão, associando modernidade, liberdade, prosperidade econômica e expansão dos valores ocidentais.

Entretanto, a transição do século XX para o XXI começou a colocar em xeque essa interpretação. Os atentados de 11 de setembro de 2001 representaram um marco simbólico da fragilização da ordem internacional construída após a Guerra Fria. A crise financeira de 2008, a ascensão econômica e tecnológica da China e, mais recentemente, os efeitos sociais da pandemia de Covid-19 aprofundaram as contradições de um modelo que parecia ter alcançado uma posição incontestável.

O Ocidente passou a conviver com uma combinação de crises demográficas, culturais, econômicas e políticas. Na Europa, os fluxos migratórios, os conflitos de integração cultural, as dificuldades dos sistemas educacionais, a precarização do trabalho e a redução das perspectivas de mobilidade social alimentam tensões que desafiam a coesão das sociedades. Nos Estados Unidos, a polarização política e as divisões culturais revelam dificuldades crescentes para construir consensos em torno de um projeto nacional. Na América Latina, o baixo crescimento econômico, a instabilidade política e o enfraquecimento relativo das classes médias convivem com a expansão de economias dependentes do Estado e de estruturas rentistas, em detrimento de uma base industrial mais dinâmica.

Nesse cenário, emerge uma questão provocativa: estaríamos diante de uma inversão da narrativa hegeliana da história universal? A modernidade, antes projetada pelo Ocidente como destino da civilização, parece encontrar novas referências no Oriente. A transformação urbana e tecnológica de cidades chinesas como Pequim, Xangai, Shenzhen, Hangzhou e Chongqing expressa uma capacidade de planejamento, investimento e desenvolvimento que desafia antigas hierarquias econômicas e culturais.

O mal-estar da civilização ocidental, antecipado por diferentes pensadores, ganha, portanto, contornos concretos. As tensões permanentes, a polarização e a ansiedade social podem produzir uma sociedade do caos, na qual o movimento político não necessariamente representa avanço ou transformação. Aproxima-se, nesse sentido, da provocação do filósofo Marcos Nobre em Imobilismo em movimento, expressão originalmente utilizada para interpretar a política brasileira, mas que também permite refletir sobre outras experiências contemporâneas.

O Ocidente, portanto, parece viver uma encruzilhada histórica. Enquanto procura preservar os fundamentos de sua identidade civilizacional, observa a emergência de novos centros de poder e desenvolvimento. A questão não é simplesmente saber se o Oriente ocupará o lugar do Ocidente, mas compreender se este último será capaz de reinventar seus próprios fundamentos. Caso contrário, poderá permanecer preso a um imobilismo em movimento: uma sociedade que se transforma continuamente, mas que encontra cada vez mais dificuldades para definir a direção de sua própria história. E, nesse horizonte de incertezas, novos conflitos sociais permanecem à espreita.

(*) Victor Missiato, professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré. Analista político e doutor em História.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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