Pela primeira vez, sucessão supera concorrência como principal desafio dos escritórios de advocacia

Pesquisa realizada com CEOs, sócios e líderes de RH de 32 escritórios revela que a falta de lideranças preparadas se tornou o principal entrave ao crescimento.

O principal desafio dos escritórios de advocacia brasileiros deixou de estar na disputa por mercado e passou a estar dentro das próprias organizações. Pela primeira vez desde o lançamento da pesquisa Impactos e Tendências BOLD HRO, em 2023, liderança e sucessão aparecem como a principal preocupação dos escritórios de advocacia, superando a competitividade de mercado. O levantamento foi realizado em abril deste ano com 32 escritórios de diferentes portes, entre boutiques especializadas e grandes bancas, e ouviu sócios fundadores, sócios de gestão, líderes de RH, COOs e diretores executivos.

Entre os entrevistados, 31,3% apontaram liderança e sucessão como o maior desafio enfrentado atualmente pelos escritórios, enquanto 25% citaram a competitividade de mercado. Na sequência aparecem cultura e engajamento (15,6%), geração de novos negócios (12,5%), atração e retenção de talentos (9,4%) e gestão de pessoas (6,3%).

Para Maria Eduarda Silveira (foto), sócia-fundadora da BOLD HRO e responsável pela pesquisa, a mudança revela uma nova etapa de maturidade da advocacia empresarial. “Os escritórios já compreenderam quais são os pilares do crescimento. O desafio agora é transformar essa estratégia em gestão. Quando liderança e sucessão passam a ocupar o primeiro lugar da agenda, fica evidente que o crescimento depende menos das condições do mercado e mais da capacidade de desenvolver pessoas e preparar a próxima geração.”

Os resultados mostram, porém, que essa preparação ainda está longe de ser uma realidade. Apenas 43,7% dos entrevistados acreditam que suas lideranças estão prontas para elevar o desempenho das organizações, enquanto 34,4% discordam dessa avaliação e 21,9% afirmam não ter uma posição definida. As principais lacunas identificadas são o desenvolvimento de novos líderes (21,9%), a formação de sucessores (21,9%), comunicação e feedback estruturado (15,6%), gestão de pessoas (15,6%) e visão de negócios (15,6%).

Na prática, a sucessão continua sendo conduzida de forma pouco estruturada. Predominam iniciativas como mentoria direta com sócios, exposição gradual à gestão de clientes e avaliações de prontidão para a sociedade. Em contrapartida, programas formais de desenvolvimento, trilhas de carreira com critérios claros, formação deliberada de competências comerciais e investimentos sistemáticos em habilidades de liderança ainda são pouco frequentes.

Embora 90,7% dos escritórios considerem a capacidade de gerar novos negócios um requisito essencial para a sociedade, apenas 21,9% utilizam perfil comercial como critério de contratação. A seleção continua priorizando capacidade técnica (62,5%), alinhamento cultural (46,9%) e pensamento crítico (43,8%). Além disso, quando questionados sobre os principais desafios para o crescimento das bancas, os participantes apontaram a precificação e a rentabilidade dos serviços como uma preocupação mais relevante do que a conquista de novos clientes.

Essa mudança ocorre em um momento de profunda transformação tecnológica. Para 68,8% dos respondentes, a inteligência artificial será a principal força capaz de remodelar o mercado jurídico nos próximos cinco anos, muito à frente da consolidação do setor por meio de fusões e aquisições (18,8%) e do avanço de legal operations (6,3%). Hoje, 43,8% dos escritórios já utilizam IA de forma estruturada e recorrente e outros 43,8% fazem uso pontual da tecnologia. Pesquisa jurídica lidera as aplicações (93,8%), seguida por revisão e análise de contratos (62,5%), due diligence e redação inicial de documentos (50%), análise de dados processuais (46,9%) e automação de documentos e gestão do conhecimento (43,8%). Além disso, 97% pretendem ampliar os investimentos em inteligência artificial e tecnologia digital nos próximos dois anos.

Para Maria Eduarda, a expansão da IA torna ainda mais urgente o desenvolvimento de competências que não podem ser substituídas pela tecnologia. “A inteligência artificial aumenta a eficiência do trabalho jurídico, mas também muda o perfil do advogado que o mercado passa a valorizar. Competências como julgamento, visão de negócios, relacionamento com clientes, liderança e desenvolvimento de equipes tornam-se cada vez mais estratégicas.”

Outro aspecto apontado pela pesquisa é o desafio de transformar cultura organizacional em experiência prática. Embora 65% dos escritórios afirmem possuir uma cultura sólida e bem definida, todos registram algum nível de turnover e 43,7% apresentam rotatividade superior a 20%. Entre as principais demandas atribuídas às novas gerações estão o feedback contínuo e reconhecimento (46,9%), preferência por modelos híbridos ou remotos (46,9%), oportunidades claras de crescimento (43,8%) e maior flexibilidade de horário (43,8%). Atualmente, 90,6% dos escritórios já adotam algum modelo híbrido de trabalho e 53,1% operam com três dias presenciais por semana.

Na avaliação da BOLD HRO, os resultados apontam que o principal diferencial competitivo dos escritórios nos próximos anos deixará de ser apenas a excelência técnica ou a capacidade de conquistar mercado. Em um cenário em que a inteligência artificial assume atividades cada vez mais operacionais, a sustentabilidade do crescimento dependerá da formação de líderes, da preparação de sucessores e da capacidade de desenvolver profissionais que combinem conhecimento jurídico, visão estratégica, relacionamento com clientes e competência para conduzir pessoas de forma estruturada.

Para ter acesso à pesquisa completa: https://mailchi.mp/7b68d0c1217d/m05i6ge81x

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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