Gaudêncio Penaforte, analista internacional –
Já se sabia. Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, e desde que Marco Rubio assumiu o comando da diplomacia norte-americana como secretário de Estado, com atenção redobrada à América Latina, o roteiro estava escrito: tarifaço, contrapropaganda, conluio com as big techs e uso ostensivo do aparato de segurança e inteligência americano para pressionar o Brasil.
O governo Trump não esconde que vê Lula como o último obstáculo relevante ao projeto consolidado na chamada Doutrina Donroe, que preconiza a subordinação dos governos da região aos ditames de Washington. Que essa subordinação pode ser buscada pela força, o mundo já viu: em janeiro, tropas americanas invadiram Caracas e capturaram Nicolás Maduro, entregando o poder a uma aliada do próprio regime deposto sob tutela de Washington.
O que talvez os mais ingênuos não esperassem é o grau de desfaçatez com que essa tentativa de ingerência se revelaria. Na sexta-feira (24), o Washington Post publicou reportagem mostrando que o Departamento de Estado americano se preparava para enviar a Brasília dois nomeados políticos — Riley M. Barnes e Samuel Samson — para tratar, direta ou indiretamente, da segurança das urnas eletrônicas brasileiras às vésperas da eleição presidencial de outubro.
O governo brasileiro não esperou a reportagem sair do forno: o Itamaraty já havia negado os vistos na quinta-feira, antes mesmo da publicação.
Não é pouca coisa. Trata-se do Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho, chefiado por Barnes, articulado com Samuel Samson — que, segundo a Reuters, já havia liderado, em 2025, uma delegação americana disposta a discutir apoio político dos Estados Unidos à Reunião Nacional de Marine Le Pen, na França, e que uma autoridade da comissão francesa de direitos humanos acusou de buscar munição para uma narrativa de perseguição política.
É essa dupla — um construtor de teses de lawfare ao lado de uma autoridade capaz de emprestar peso institucional à empreitada — que o governo Trump escalou para o Brasil, sob o pretexto de tratar de liberdade de expressão eleitoral.
Diplomatas brasileiros ouvidos sob anonimato classificaram a iniciativa como um estratagema incompatível com a democracia do país. Nos bastidores de Brasília, a reação foi na mesma linha: a tentativa de missão foi tratada como escandalosa.
E não é difícil entender por quê. A visita seria articulada exatamente no momento em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, ressuscitava perante embaixadores estrangeiros a mesma fake news de sempre: a de que as urnas eletrônicas brasileiras teriam origem comum com os equipamentos da venezuelana Smartmatic, supostamente usados em fraude eleitoral na Venezuela em 2012. O TSE já desmentiu essa história incontáveis vezes. Não importa: repetida em Brasília para uma plateia de representantes de quarenta embaixadas, ela virou, convenientemente, o pretexto perfeito para o desembarque de “observadores” americanos.
O governo brasileiro não caiu na armadilha. Vetou o ingresso dos dois enviados antes que a reportagem do Washington Post fosse ao ar — um gesto raro de antecipação, e bem-vindo.
A repercussão obrigou o Departamento de Estado a se manifestar. Em nota divulgada na noite de sábado (25), o órgão negou qualquer intenção de “minar” a eleição brasileira, classificou as acusações de ingerência como infundadas e alegou que a viagem, marcada para os dias 27 a 30 de julho, buscava apenas discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão com autoridades, líderes religiosos e a sociedade civil.
É a explicação de praxe — chega depois do fato consumado, depois que o visto já havia sido negado, e não dá conta de por que dois quadros do Bureau de Democracia, Direitos Humanos e Trabalho precisariam vir tratar de “liberdade de expressão eleitoral” a poucos meses de um pleito, em vez de aguardar o canal já aberto pelo próprio TSE, que recebeu embaixadores em junho e tem nova reunião marcada para agosto.
Enquanto isso, neste sábado (25), na convenção do PL que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, o presidente argentino Javier Milei — vassalo local do projeto de hegemonia americana na região — fez o que sabe fazer: o papel de provocador.
Chamou o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca” depois que o STF negou seu pedido de visita a Jair Bolsonaro — condenado pela própria Corte por liderar trama golpista contra a democracia brasileira, hoje cumprindo pena ainda que em regime domiciliar. O insulto a Moraes, porém, foi apenas um lance de uma extensa catilinária que Milei dedicou a Lula e ao Brasil, num discurso recheado de ataques ao presidente brasileiro e à esquerda em geral, com a promessa de que a onda de direita latino-americana ainda vai “chegar” ao Brasil.
Vale reparar também a companhia. Milei e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu — que carrega nas costas mais de 73 mil mortos no genocídio que promove sob seu comando na Faixa de Gaza — foram os dois únicos chefes de Estado a empenhar apoio público explícito à candidatura de Flávio Bolsonaro: um, presencialmente, no palanque paulistano; o outro, por vídeo, chamando o senador de amigo e prometendo aproximar o Brasil de Israel. O Tribunal Penal Internacional emitiu, em 21 de novembro de 2024, mandado de prisão contra Netanyahu e o ex-ministro da Defesa israelense Yoav Gallant, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade em Gaza, incluindo o uso da fome como método de guerra. Diz muito sobre a natureza dessa candidatura reunir, como parceiros internacionais, um histrião provocador e um chefe de governo procurado pela Justiça internacional por crimes dessa gravidade.
Chama a atenção que tenha sido justamente o governador Tarcísio de Freitas quem lhe abriu as portas do Palácio dos Bandeirantes e lhe conferiu a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria do estado de São Paulo — um gesto que trata como estadista quem, na prática, atua como líder de torcida da extrema-direita latino-americana, mais preocupado em agradar Trump e recolher aplausos bolsonaristas do que em zelar pela relação institucional entre países.
Não há comparação possível entre os dois lados dessa cena. De um lado, Lula, com décadas de trajetória, reconhecido e respeitado nos principais fóruns internacionais, com status de um dos principais líderes democráticos do mundo. Do outro, Milei, que segue apostando em diatribes e rabugices para chamar atenção — um recurso de quem tem pouco a mostrar além do palanque.
Ainda assim, seria erro tratar o episódio como mera bravata pessoal sem consequência institucional. O ataque a Moraes é sintoma; o problema de fundo é outro: um chefe de Estado estrangeiro usando o palco de uma convenção partidária brasileira para questionar a legitimidade do processo eleitoral do país é ingerência externa, pura e simples.
Uma eventual manifestação do Palácio do Planalto ou do Ministério das Relações Exteriores teria como propósito, mais do que defender a honra de um ministro, repudiar essa ingerência clara no processo eleitoral brasileiro. Que ela seja protagonizada pelo chefe de um Estado formalmente amigo — sócio do Mercosul, vizinho, parceiro comercial — torna o episódio ainda mais grave, não menos.
A resposta institucional, ao menos por parte do Judiciário, não tardou: a Presidência do Supremo Tribunal Federal divulgou nota assinada pelo ministro Luiz Edson Fachin repudiando a fala de Milei sobre Moraes como referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do país, e reafirmando a plena autonomia do Judiciário brasileiro diante de manifestações incompatíveis com a civilidade que deve reger as relações entre Estados.
Tardou pouco mais de 24 horas, mas o Palácio do Planalto e o Itamaraty acabaram por adotar medida proporcional ao agravo: o chanceler Mauro Vieira, após consultar Lula, determinou neste domingo (26) a convocação do embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas em Brasília — o gesto diplomático mais duro possível aquém do rompimento de relações, reservado a momentos de real deterioração bilateral. A resposta tardou o suficiente para alimentar a leitura de que o Executivo hesitava, mas veio: encerrado o cálculo inicial de não dar palco ao histrionismo de Milei, prevaleceu o entendimento de que o ataque simultâneo a dois Poderes da República não podia ficar sem resposta formal do Estado brasileiro.
No campo partidário, o PT reagiu por nota assinada por Edinho Silva, classificando como inadmissível que um chefe de Estado estrangeiro desrespeite os Poderes constituídos do país em um evento político — mas nota de partido não substitui manifestação do governo.
A repercussão negativa não ficou restrita ao Brasil. Do outro lado da fronteira, o jornal argentino Página/12 enquadrou o episódio como mais uma operação eleitoral trumpista na região, na mesma chave da tentativa de ingerência sobre as urnas.
Por aqui, colunistas classificaram o discurso de Milei como grosseiro e sem respeito ao protocolo — a ponto de o presidente argentino sequer ter cumprimentado Lula, ausente do evento, mas destinatário de boa parte dos ataques.
Convém repetir, com todas as letras, o que deveria ser óbvio: o Brasil está a caminho da décima eleição presidencial desde a redemocratização, com um sistema eletrônico de votação auditado, testado publicamente e validado por sucessivas missões internacionais desde 2018. Entre as grandes democracias do planeta, o país está longe de ser aluno — é professor.
Quem tenta desacreditar as urnas não é força política organizada em torno de um projeto de país: é o bolsonarismo, isolado, tentando reciclar em 2026 o mesmo roteiro fracassado de 2022, agora com verniz internacional emprestado por Washington. Tão isolado que nem reúne consenso no campo à direita: o governador Ronaldo Caiado (PSD-GO), pré-candidato à Presidência, publicou nas redes que confia nas urnas brasileiras, aceita observadores internacionais de qualquer país que queira acompanhar o processo, mas considera inadmissível que qualquer país, incluindo os Estados Unidos, tente colocar em dúvida a lisura e os resultados das eleições no Brasil — divergência pública e direta da estratégia combinada entre o entorno de Bolsonaro e Washington.
Não é auditoria técnica o que está em jogo. É a construção deliberada de uma narrativa política — censura, perseguição, “falta de integridade eleitoral” — destinada a alimentar relatórios, pronunciamentos e novas medidas de pressão contra o Brasil, na mesma lógica do tarifaço recente. A oferta de vistos a dois quadros do Departamento de Estado para “conversar” sobre urnas não era diplomacia de rotina: era munição sendo preparada.
O episódio termina bem para a diplomacia — visto negado, missão frustrada, ataque a Moraes repudiado pela Presidência do STF, embaixador convocado de Buenos Aires —, mas seria ingenuidade tratá-lo como encerrado. No Congresso, ainda não há alarme visível entre parlamentares diante do que se tentou fazer. Isso é preocupante, e pede aproximação discreta e suprapartidária das presidências da Câmara e do Senado antes que a disputa eleitoral capture o tema.
Vale lembrar o que aconteceu em 2022: minutos depois da proclamação do resultado pelo TSE, o próprio presidente Joe Biden e os principais líderes europeus — o francês Emmanuel Macron à frente, seguido por Bruxelas e outras capitais — reconheceram de imediato a vitória de Lula, fechando de saída qualquer espaço internacional para uma eventual contestação do resultado por Bolsonaro. Essa mesma convergência — agora entre Justiça Eleitoral, diplomacia e Congresso falando com uma só voz — será necessária de novo.
O TSE segue credenciando observadores nacionais e internacionais — OEA, Uniore, CPLP, além de sete entidades nacionais autorizadas pela Portaria nº 453/2026 — exatamente o oposto do fechamento que os enviados de Trump vieram, mal disfarçadamente, insinuar que faltava. Um país que abre suas urnas à observação do mundo inteiro não é o mesmo país que a caricatura americana tenta vender. E quem tentar vender essa caricatura vai continuar recebendo a mesma resposta que recebeu na última quinta-feira: a porta fechada.
Mas é preciso dizer com todas as letras o que realmente está em jogo neste episódio, e nos que virão até outubro. Não se trata apenas de reafirmar a soberania brasileira, nem de o país confirmar seu papel de liderança regional — embora ambas as coisas importem, e muito. Está em jogo a própria democracia na América Latina.
Se um sistema eleitoral tão auditado, tão transparente e tão validado internacionalmente quanto o brasileiro pode ser alvo de uma operação de descrédito arquitetada a partir de Washington, nenhuma democracia da região está a salvo do mesmo roteiro. Defender as urnas brasileiras, hoje, é defender a possibilidade de eleições livres em todo o continente.





