Formações em metabolismo e fisiologia humana ganham espaço à medida que cresce a necessidade de compreender a origem de doenças crônicas cada vez mais complexas.
As doenças crônicas respondem por cerca de 75% das mortes no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Ao mesmo tempo, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que a multimorbidade, quando um mesmo paciente convive com duas ou mais doenças crônicas, tornou-se um dos principais desafios dos sistemas de saúde.
Essa combinação tem provocado uma mudança na forma como parte da classe médica busca atualização profissional. Em vez de concentrar os estudos apenas em protocolos e tratamentos específicos, médicos de diferentes especialidades passaram a aprofundar o conhecimento em fisiologia humana, metabolismo e regulação hormonal para compreender doenças que, muitas vezes, não encontram respostas satisfatórias apenas nas abordagens tradicionais.
Para o médico, professor e pesquisador Alexandre Duarte, referência em fisiologia metabólica e hormonal e fundador do Instituto Avantgarde, centro especializado em medicina metabólica e hormonal voltado à prevenção, investigação das causas de doenças crônicas e cuidado personalizado, esse movimento reflete uma necessidade percebida na prática clínica. Segundo ele, profissionais experientes têm buscado ampliar o raciocínio fisiológico diante de pacientes que apresentam obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, alterações hormonais e outros problemas que costumam coexistir. “O paciente de hoje raramente apresenta apenas uma doença. Quando entendemos como os sistemas do organismo se relacionam, conseguimos interpretar melhor os sinais clínicos e construir tratamentos mais individualizados, em vez de apenas controlar manifestações isoladas”, afirma.
Esse movimento acompanha uma transformação epidemiológica, já que o envelhecimento da população, o crescimento da obesidade e da resistência à insulina fizeram aumentar o número de pessoas que chegam ao consultório com diferentes diagnósticos ao mesmo tempo. Nessas situações, analisar cada doença separadamente pode limitar a compreensão do quadro clínico. A OCDE destaca que esse perfil de paciente exige abordagens integradas e profissionais preparados para conectar informações que envolvem metabolismo, inflamação, hormônios, alimentação, sono e estilo de vida.
Na avaliação do especialista, essa realidade explica por que cursos de aperfeiçoamento em fisiologia metabólica vêm atraindo médicos de diferentes especialidades, inclusive profissionais com décadas de experiência clínica. O objetivo não é substituir protocolos ou abandonar diretrizes consolidadas, mas ampliar a capacidade de compreender os mecanismos biológicos que antecedem o desenvolvimento das doenças. “A medicina evoluiu muito no diagnóstico e no tratamento. Agora cresce o interesse em entender por que determinados processos fisiológicos deixam de funcionar corretamente. É esse raciocínio que ajuda o médico a conectar informações que antes pareciam não ter relação”, diz.
A educação médica continuada também ganhou peso diante da velocidade com que novas evidências científicas são publicadas. Estudo da Associação Médica Americana (AMA) mostra que a atualização permanente passou a ser considerada um dos principais fatores para melhoria da prática clínica, especialmente em áreas relacionadas às doenças crônicas e ao envelhecimento populacional.
Para quem está do outro lado do consultório, essa mudança também produz efeitos práticos. Um médico que amplia sua formação em fisiologia tende a investigar aspectos que muitas vezes passam despercebidos em consultas focadas apenas no diagnóstico da doença, como padrões de sono, composição corporal, hábitos alimentares, saúde metabólica, inflamação e funcionamento hormonal.
“Cada vez mais pacientes procuram compreender a causa dos problemas de saúde e não apenas aliviar sintomas. Esse movimento também desafia os médicos a aprofundarem seu conhecimento sobre o funcionamento do organismo. Quanto maior esse entendimento, maiores são as possibilidades de oferecer um cuidado individualizado e duradouro”, conclui Alexandre Duarte.





