Lei Maria da Penha faz 20 anos: desafio é garantir a rapidez das medidas protetivas para salvar vidas

Especialista avalia que o Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo, mas precisa investir na fiscalização das medidas protetivas e na integração entre os órgãos públicos.

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) completa 20 anos nesta semana consolidada como um marco no combate à violência doméstica no Brasil. Apesar dos avanços promovidos pela legislação, o principal desafio agora é transformar a proteção prevista em lei em uma resposta efetiva para as vítimas. O aumento dos casos de feminicídio e dos registros de descumprimento de medidas protetivas demonstra que a próxima etapa depende do fortalecimento e da eficiência da rede de proteção.

Essa é a avaliação do advogado criminalista, sócio da Advocacia Pimentel, André Fini Terçarolli, que destaca que além de mudar a maneira de como o Estado enfrenta a violência doméstica e familiar, a norma consolidou instrumentos de proteção, fortaleceu a atuação do sistema de Justiça e contribuiu para romper a ideia de que a violência dentro de casa deveria permanecer restrita ao ambiente privado.

Para criminalista, no entanto, os 20 anos da lei representam mais do que uma oportunidade para celebrar avanços: é um momento para avaliar por que a violência de gênero continua produzindo números alarmantes, mesmo diante de uma legislação considerada referência internacional.  “O Brasil possui hoje um sistema jurídico muito mais preparado para enfrentar a violência doméstica do que há duas décadas. O problema é que a efetividade da lei ainda depende da capacidade do Estado de agir rapidamente e de maneira integrada para impedir que a violência evolua até o feminicídio”, afirma.

Os dados do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, divulgado em julho, reforçam esse desafio. O país registrou 1.571 feminicídios em 2025, um aumento de 4% em relação ao ano anterior. Também foram contabilizados mais de 132 mil casos de descumprimento de medidas protetivas, além do crescimento das tentativas de feminicídio e dos registros de violência psicológica e perseguição.

Na avaliação do especialista, esses indicadores demonstram que o maior obstáculo atualmente não é a ausência de mecanismos legais, mas a dificuldade em garantir que eles sejam cumpridos com rapidez e eficiência. “A medida protetiva salva vidas quando é fiscalizada. Se o agressor descumpre a ordem judicial e o Estado não consegue responder de maneira imediata, a proteção prevista na lei perde grande parte da sua eficácia”, explica.

Desde sua criação, a Lei Maria da Penha passou por diversas atualizações para ampliar a proteção às vítimas. Nos últimos anos, mudanças legislativas fortaleceram as medidas protetivas, ampliaram o monitoramento eletrônico de agressores, endureceram a punição para o feminicídio e reduziram obstáculos processuais enfrentados pelas mulheres durante a investigação e o julgamento dos casos.

Segundo Terçarolli, esse aperfeiçoamento demonstra que o ordenamento jurídico evoluiu, mas a prioridade da próxima década deve estar na execução das políticas públicas. “É necessário que as estruturas existentes funcionem. Isso significa integrar polícia, Ministério Público, Judiciário, assistência social e saúde, garantir fiscalização permanente das medidas protetivas e oferecer condições para que a vítima consiga romper o ciclo de violência com segurança e autonomia”.

Para o criminalista, os 20 anos da Lei Maria da Penha consolidam uma conquista histórica para o país, mas também deixam um recado claro: a próxima etapa do combate à violência doméstica será medida menos pela criação de novas normas e mais pela capacidade de transformar os direitos previstos na legislação em proteção concreta para todas as mulheres brasileiras.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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