A direita leva dois tiros no pé no Paraná

No Paraná, a vereadora Thatiana Guzella fala demais e Sergio Moro fala de menos

Dois episódios sacudiram a direita mais radical no Paraná e entregaram, de bandeja, munição política aos adversários do centro e da esquerda. Em um deles, sobrou fala. No outro, faltou candidato. E, como costuma acontecer em campanha eleitoral, o estrago provocado pela própria tropa é sempre mais difícil de explicar.

O primeiro veio da Câmara Municipal de Curitiba. A vereadora Tathiana Guzella (PL), ao se dirigir à colega Vanda de Assis, mandou que ela “voltasse para sua terra, o Ceará, para não encher o saco aqui”. A frase atravessou rapidamente as paredes do Legislativo e caiu no colo do presidente estadual do PT e deputado Arilson Chiorato, que pediu a cassação da parlamentar, classificando a manifestação como xenófoba e discurso de ódio.


Combustível político


O episódio ganhou ainda mais combustível político pelo fato de Guzella ser esposa do deputado estadual Tito Barichello, também identificado com a ala mais à direita do PL. Chiorato sustenta seu pedido no Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara de Curitiba, que prevê punições para condutas incompatíveis com o exercício do mandato.


“A vereadora Tathiana Guzella se expressou de forma xenófoba, o que precisa ser coibido. Não podemos aceitar que um parlamentar normalize discurso de ódio. Isso não é opinião. É crime e precisa ser investigado e punido”, afirmou Arilson, que também é líder da Oposição na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep).
Voltar à sua terra ou ir a lugar nenhum.


Enquanto Guzella terá de explicar por que mandou uma colega parlamentar “voltar para sua terra”, Sergio Moro terá outro desafio: explicar por que não foi a lugar nenhum — pelo menos quando o destino era o estúdio da Band Curitiba.

Deputado Arilson Chiorato (Arquivo).


O candidato do PL ao Governo do Paraná desistiu, na última hora, de participar do debate com Sandro Alex, candidato apoiado pelo governador Ratinho Junior, e Requião Filho (PDT). A cadeira vazia acabou falando por ele.


E falou alto.


Sem Moro no estúdio, os adversários fizeram aquilo que qualquer adversário faria diante de um gol sem goleiro: chutaram. Requião Filho e Sandro Alex aproveitaram a ausência para questionar o conhecimento do senador sobre o Paraná e sua capacidade de apresentar um programa concreto de governo. Nas redes sociais, onde Moro construiu boa parte de sua força política, apareceu rapidamente um apelido nada agradável para um candidato que lidera pesquisas: “fujão”.

A ausência também produziu uma questão política que ultrapassa as fronteiras do Paraná. Ao decidir não participar de um debate eleitoral, Moro ajuda a alimentar o argumento de outros candidatos que eventualmente também decidam escolher a quais confrontos comparecerão. Inclusive o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, caso confirme sua ausência em debates futuros.

Pode ter sido cálculo de marketing. Moro lidera pesquisas e sua equipe pode ter concluído que entrar num estúdio para ser alvo preferencial de dois adversários representaria risco desnecessário. É uma estratégia conhecida: quem está na frente procura administrar vantagem.


Debate é para mostrar propostas


Mas eleição não é campeonato decidido por W.O.


Há também a possibilidade de a ausência ter sido um baita tiro no pé. Com parcela expressiva do eleitorado ainda indecisa, o debate é justamente uma das oportunidades para conquistar quem não veste camisa partidária, não participa de torcida organizada política e ainda quer saber quem tem propostas — e quem tem apenas discurso.


Moro perdeu essa oportunidade.


No mesmo momento em que seus adversários precisavam provar que poderiam enfrentá-lo, foi ele quem lhes entregou o melhor argumento da noite: uma cadeira vazia.


No Paraná, portanto, a semana produziu uma curiosa fotografia para o PL. De um lado, uma vereadora que falou o que não deveria. Do outro, um candidato ao governo que, quando deveria falar, preferiu não aparecer.
Na política, às vezes o adversário nem precisa apertar o gatilho.


Basta esperar o tiro no próprio pé.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

Outras publicações