Curitiba em obras. Construção se faz com organização e responsabilidade

Nenhuma obra de engenharia consegue resolver aquilo que começa na falta de respeito ao espaço coletivo. Curitiba procura o melhor

Ao circular pelas ruas de Curitiba, seja no centro ou nos bairros, é praticamente impossível não se deparar com alguma obra. São cerca de uma centena de intervenções de infraestrutura em andamento pela Prefeitura, que começam a desenhar uma nova cidade, preparada para o futuro e voltada à melhoria da qualidade de vida da população, especialmente no campo da mobilidade urbana.

Nesse mesmo território, onde máquinas e trabalhadores atuam em ritmo acelerado para transformar a infraestrutura da capital, existe também uma preocupação permanente: fazer com que as obras interfiram o mínimo possível na circulação de veículos e pedestres.

“Este é um cuidado que temos no dia a dia para não causar transtornos, mas, mesmo assim, é impossível evitá-los”, observa o secretário municipal de Obras Públicas, Luiz Fernando Jamur.

Revitalização da região do Mercado Municipal. Foto: Daniel Castellano / SMCS

São intervenções de diferentes portes: viadutos, trincheiras, recuperação do asfalto, novas pavimentações, sinalização viária e construção de bacias de contenção para enfrentar enxurradas provocadas por chuvas intensas. A lista inclui ainda o alargamento de rios que cortam a cidade, parques lineares, áreas de lazer e projetos de paisagismo.

É evidente que tudo isso cobra um preço temporário. Obras provocam desvios, estreitam pistas, alteram trajetos e exigem paciência dos motoristas. É o transtorno inevitável de uma cidade que precisa melhorar sua infraestrutura sem poder parar para ser reconstruída.

O problema é que nem todo transtorno encontrado nas ruas de Curitiba nasce das obras públicas.

Em muitos canteiros da construção civil, por exemplo, falta o mesmo cuidado com a mobilidade. Caminhões e máquinas ocupam pistas, muitas vezes em fila dupla, sem horários adequadamente planejados para carga e descarga. Cones são espalhados ao redor das obras e, não raramente, quem passa pelo local é obrigado a se virar para encontrar espaço em uma rua que é de todos.

Há ainda comportamentos que ajudam a transformar o trânsito cotidiano em um exercício de paciência. Motoristas de aplicativos param para embarcar e desembarcar passageiros em locais inadequados, interrompendo o fluxo sem avaliar o impacto provocado atrás deles.

Na mesma equação estão alguns motociclistas e entregadores que transformam os corredores entre veículos em pistas de ultrapassagem. Há situações em que retrovisores e laterais de automóveis são atingidos e, em vez de parar, o motociclista simplesmente acelera e desaparece no trânsito.

São problemas que fazem parte do ônus de uma grande cidade. Curitiba tem hoje uma população próxima de 1,8 milhão de habitantes e uma frota superior a 1,3 milhão de veículos. A pressão sobre o sistema viário torna-se ainda maior quando entram nessa conta os moradores e os automóveis dos municípios da Região Metropolitana que diariamente circulam pela capital.

Por isso, melhorar a mobilidade urbana não depende apenas de viadutos, trincheiras, asfalto ou grandes investimentos públicos. Uma cidade melhor também se constrói com organização, fiscalização e responsabilidade de quem ocupa as ruas. Afinal, nenhuma obra de engenharia consegue resolver aquilo que começa na falta de respeito ao espaço coletivo.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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