Nenhuma obra de engenharia consegue resolver aquilo que começa na falta de respeito ao espaço coletivo. Curitiba procura o melhor
Ao circular pelas ruas de Curitiba, seja no centro ou nos bairros, é praticamente impossível não se deparar com alguma obra. São cerca de uma centena de intervenções de infraestrutura em andamento pela Prefeitura, que começam a desenhar uma nova cidade, preparada para o futuro e voltada à melhoria da qualidade de vida da população, especialmente no campo da mobilidade urbana.
Nesse mesmo território, onde máquinas e trabalhadores atuam em ritmo acelerado para transformar a infraestrutura da capital, existe também uma preocupação permanente: fazer com que as obras interfiram o mínimo possível na circulação de veículos e pedestres.
“Este é um cuidado que temos no dia a dia para não causar transtornos, mas, mesmo assim, é impossível evitá-los”, observa o secretário municipal de Obras Públicas, Luiz Fernando Jamur.

São intervenções de diferentes portes: viadutos, trincheiras, recuperação do asfalto, novas pavimentações, sinalização viária e construção de bacias de contenção para enfrentar enxurradas provocadas por chuvas intensas. A lista inclui ainda o alargamento de rios que cortam a cidade, parques lineares, áreas de lazer e projetos de paisagismo.

É evidente que tudo isso cobra um preço temporário. Obras provocam desvios, estreitam pistas, alteram trajetos e exigem paciência dos motoristas. É o transtorno inevitável de uma cidade que precisa melhorar sua infraestrutura sem poder parar para ser reconstruída.
O problema é que nem todo transtorno encontrado nas ruas de Curitiba nasce das obras públicas.
Em muitos canteiros da construção civil, por exemplo, falta o mesmo cuidado com a mobilidade. Caminhões e máquinas ocupam pistas, muitas vezes em fila dupla, sem horários adequadamente planejados para carga e descarga. Cones são espalhados ao redor das obras e, não raramente, quem passa pelo local é obrigado a se virar para encontrar espaço em uma rua que é de todos.

Há ainda comportamentos que ajudam a transformar o trânsito cotidiano em um exercício de paciência. Motoristas de aplicativos param para embarcar e desembarcar passageiros em locais inadequados, interrompendo o fluxo sem avaliar o impacto provocado atrás deles.
Na mesma equação estão alguns motociclistas e entregadores que transformam os corredores entre veículos em pistas de ultrapassagem. Há situações em que retrovisores e laterais de automóveis são atingidos e, em vez de parar, o motociclista simplesmente acelera e desaparece no trânsito.
São problemas que fazem parte do ônus de uma grande cidade. Curitiba tem hoje uma população próxima de 1,8 milhão de habitantes e uma frota superior a 1,3 milhão de veículos. A pressão sobre o sistema viário torna-se ainda maior quando entram nessa conta os moradores e os automóveis dos municípios da Região Metropolitana que diariamente circulam pela capital.

Por isso, melhorar a mobilidade urbana não depende apenas de viadutos, trincheiras, asfalto ou grandes investimentos públicos. Uma cidade melhor também se constrói com organização, fiscalização e responsabilidade de quem ocupa as ruas. Afinal, nenhuma obra de engenharia consegue resolver aquilo que começa na falta de respeito ao espaço coletivo.





