O trem movimenta a economia. Mas, dentro de uma cidade cada vez mais adensada, seus trilhos também não podem se transformar em barreiras entre as pessoas e a própria cidade.
A retirada dos trens de carga do Ramal Ferroviário Norte ganhou um novo capítulo na Justiça Federal. Nesta segunda-feira (24), Curitiba, Almirante Tamandaré, Itaperuçu e Rio Branco do Sul, além do Ministério Público Federal (MPF), foram incluídos como interessados na ação movida pelo Governo do Paraná para desativar o trecho ferroviário de aproximadamente 45 quilômetros.

Mais do que uma discussão sobre trilhos, concessões e transporte de cargas, a ação envolve um problema urbano e social. O ramal atravessa regiões densamente povoadas, interfere diariamente no trânsito, interrompe a circulação de ônibus e veículos e expõe moradores e pedestres ao risco de acidentes.
Segundo dados apresentados pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE), Curitiba registrou 437 ocorrências envolvendo trens entre 2004 e 2025, o equivalente a 3% dos acidentes ferroviários registrados no País nas últimas duas décadas.
Na capital, os trilhos atravessam áreas de bairros como Centro, Cabral, Alto da XV, Cristo Rei, Cajuru e Uberaba. A passagem das composições obriga a interrupção do tráfego e afeta inclusive linhas do transporte coletivo. Há ainda o impacto do barulho provocado pelas locomotivas e pelo uso de apitos, inclusive à noite.
A poluição sonora também é apontada pelo Estado como problema de saúde e qualidade de vida, especialmente para crianças, idosos, pessoas acamadas e pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A ação foi proposta pela PGE contra a União, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a Rumo Malha Sul S.A. O Estado sustenta ainda que o ramal apresenta baixa viabilidade econômica e que as cargas atualmente transportadas pela ferrovia poderiam utilizar alternativas logísticas.

“Será uma grande conquista, especialmente para Curitiba e os municípios da Região Metropolitana que são alcançados por esse ramal”, afirmou a procuradora responsável pela ação, Carolina Kummer Trevisan.
A discussão ocorre às vésperas da nova concessão ferroviária da Malha Sul, prevista para 2027 e com duração de 30 anos. Governo do Estado e Prefeitura de Curitiba defendem que o novo modelo contemple a retirada dos trens de carga das áreas urbanas.
Para milhares de moradores, porém, a questão é mais simples e cotidiana: como conciliar uma ferrovia criada para transportar cargas com cidades que cresceram, ocuparam seu entorno e hoje precisam garantir mobilidade, segurança e qualidade de vida?





