Artigo integra obra literária “Vozes que inspiração ação”, volume 3 e em capítulo que tem Marcus Vinicius Iasherski como coautor.
Durante muitos anos, vivi como se precisasse pedir licença para ocupar o meu lugar no mundo. Não dizia isso com palavras, mas demonstrava em atitudes. Eu acreditava que precisava compensar minha deficiência sendo perfeito, discreto e tentando não incomodar ninguém. Sem perceber, passei a carregar um peso que nunca foi meu: a ideia de que minhas limitações definiam quem eu era.
Hoje entendo que o momento mais importante da minha vida não foi quando conquistei um diploma, subi a um palco ou realizei um sonho. O verdadeiro ponto de virada aconteceu quando parei de pedir desculpas por existir. Quando compreendi que minha identidade era muito maior do que qualquer limitação física e que meu valor nunca esteve condicionado ao olhar das outras pessoas.
Nasci com uma deficiência e, desde cedo, aprendi que o mundo nem sempre está preparado para lidar com aquilo que foge do padrão. Muitas vezes, as barreiras mais difíceis não eram arquitetônicas, mas emocionais. Eram os olhares de dúvida, as expectativas reduzidas e as opiniões de quem acreditava saber até onde eu poderia chegar.
Por muito tempo, deixei que essas vozes falassem mais alto do que a minha. Passei a acreditar que precisava provar constantemente que era capaz. Buscava aprovação, reconhecimento e aceitação, como se meu valor dependesse da validação dos outros. O problema é que ninguém consegue viver plenamente quando passa a vida tentando corresponder às expectativas alheias.
A transformação começou quando decidi olhar para mim de uma forma diferente. A fé teve um papel essencial nesse processo. Ela me ensinou que Deus não comete erros e que minha identidade não foi construída pelas minhas limitações, mas pelo propósito que Ele depositou em minha vida. Aos poucos, compreendi que eu não precisava deixar de ter dificuldades para viver uma vida significativa. Precisava apenas deixar de permitir que elas determinassem o tamanho dos meus sonhos.
Também encontrei no conhecimento uma ferramenta poderosa de transformação. Formei-me em Administração pela FAE e, mais tarde, tornei-me Master Coach pela FEBRACIS. Cada aprendizado ampliava minha visão sobre comportamento humano, liderança e desenvolvimento pessoal, mas, acima de tudo, ajudava-me a reconstruir a maneira como eu enxergava a mim mesmo.
Descobri que o maior limite nem sempre está no corpo. Muitas vezes, ele está nas crenças que aceitamos como verdade. Quando acreditamos que não somos suficientes, passamos a viver muito abaixo do potencial que possuímos. Por outro lado, quando reconhecemos nosso valor, desenvolvemos coragem para construir uma história completamente diferente.
Um dos momentos mais marcantes da minha caminhada foi conquistar minha carteira de motorista. Para muitas pessoas, pode parecer apenas um documento. Para mim, representou muito mais. Em alguns momentos, ouvi de autoridades que talvez aquilo não fosse possível. Poderia ter aceitado aquele diagnóstico como definitivo, mas escolhi continuar. Quando finalmente consegui dirigir, não conquistei apenas um direito; provei para mim mesmo que nenhuma opinião pode determinar o futuro de quem decide perseverar.
Essa experiência reforçou uma verdade que levo para a vida: não são as nossas condições que determinam quem somos; somos nós que escolhemos como responder às condições que enfrentamos.
Com o tempo, percebi que minha história não fazia sentido se permanecesse apenas comigo. Passei a compartilhar minhas experiências em palestras, treinamentos e eventos. Já tive a oportunidade de falar para centenas de pessoas e, em cada encontro, descubro que todos carregam batalhas invisíveis. Algumas são físicas, outras emocionais, financeiras ou familiares. Independentemente da forma como se apresentam, todas merecem respeito, acolhimento e esperança.
Foi nesse caminho que compreendi que liderança não significa ocupar uma posição de destaque. Liderar é servir, ouvir e inspirar pelo exemplo. Quanto mais conheço pessoas, mais percebo que ninguém precisa de alguém que aponte seus defeitos. Todos precisam de alguém que lhes recorde o valor que possuem.
Essa compreensão também me levou ao trabalho voluntário. Tive a oportunidade de atuar na Espanha ensinando inglês para adolescentes de escolas públicas, uma experiência que ampliou ainda mais minha visão sobre empatia e serviço. Descobri que, independentemente do país ou da cultura, existe algo que une todas as pessoas: o desejo de serem vistas, respeitadas e acreditarem que podem construir um futuro melhor.
Foi essa mesma convicção que me aproximou do projeto Sensibiliza. Quando conheci a proposta de transformar histórias em esperança e, ao mesmo tempo, contribuir para crianças em situação de vulnerabilidade em Angola, compreendi que estava diante de algo muito maior do que um livro. Era a oportunidade de fazer com que minha trajetória produzisse impacto na vida de outras pessoas.
Acredito profundamente que nossas experiências ganham um novo significado quando deixam de ser apenas lembranças e passam a servir como pontes para quem ainda está enfrentando dificuldades semelhantes. Talvez a maior utilidade da dor seja justamente essa: transformar-se em esperança para alguém.
Se existe um conselho que gostaria de deixar ao leitor, é simples: pare de se definir apenas pelas suas limitações. Identifique uma qualidade, um talento ou um propósito que já existe dentro de você e dê o primeiro passo. Não espere sentir-se totalmente preparado. A coragem quase nunca aparece antes da decisão; ela cresce enquanto caminhamos.
Aprendi que a vida muda quando deixamos de perguntar “por que isso aconteceu comigo?” e começamos a perguntar “o que posso fazer com essa história?”. Foi essa mudança de perspectiva que transformou minha caminhada. Minhas limitações continuaram existindo, mas deixaram de ocupar o lugar principal da minha identidade.
Hoje vivo com a convicção de que nenhuma deficiência, dificuldade ou circunstância é capaz de diminuir o valor de uma pessoa. Todos fomos criados com um propósito, e cada desafio pode se tornar uma ferramenta de crescimento quando decidimos enfrentá-lo com fé, coragem e perseverança.
Costumo repetir uma frase que resume aquilo em que acredito: “Eu não precisei deixar de ter limitações para começar a viver com propósito; precisei apenas parar de permitir que elas definissem o tamanho da minha vida.“
Se este capítulo puder despertar uma única pessoa para enxergar seu próprio valor, então minha história já terá cumprido sua missão. Porque, no final das contas, não são nossas limitações que escrevem o nosso destino. Somos nós que decidimos, todos os dias, quem queremos ser.
E foi exatamente no dia em que parei de pedir desculpas por existir que comecei, de fato, a viver.
(*) O artigo integra a obra literária Vozes que inspiração Ação (Volume 3), organizada por Edimilson Silva e publicada pela Sensibiliza Editora Social, reunindo vários coautores, dentre eles Marcus Vinicius Iasherski (#marcus100limites), que conduz o capítulo “O dia em que parei de pedir desculpas por existir”.
(**) Marcus Vinicius é palestrante, mentor e propagador de conteúdo motivacional. Para lançamento do livro e sob inspiração no capítulo do qual é coautor, ele vai proferir a palestra “Sem desculpas, sem limites” neste 24 de setembro, a partir de 19h30, no auditório do prédio da Av. República Argentina, 1336, Vila Isabel. Para participar ou saber mais, clique AQUI.





