Esquecimento ou sinal de alerta? Saiba quando falhas de memória merecem investigação

Perda de autonomia, repetição de perguntas e dificuldade em tarefas antes habituais estão entre os sinais que pedem avaliação médica.

Esquecer onde colocou as chaves, demorar para lembrar um nome ou perder ocasionalmente um compromisso pode acontecer em diferentes momentos da vida e, isoladamente, não significa a presença de uma doença. O sinal de alerta aparece quando as falhas de memória se tornam frequentes, progressivas ou começam a interferir em atividades que antes faziam parte da rotina.

A diferença é importante porque alterações cognitivas não devem ser tratadas automaticamente como uma consequência natural do envelhecimento. O Ministério da Saúde destaca que a demência não faz parte do envelhecimento normal e que quadros de esquecimento progressivo ou capazes de comprometer atividades da vida diária demandam avaliação médica ou multiprofissional.

“É comum que as pessoas associem qualquer esquecimento ao Alzheimer, mas um episódio isolado não é suficiente para indicar uma doença. O que chama atenção é a mudança em relação ao padrão habitual daquela pessoa, principalmente quando os esquecimentos se tornam mais frequentes, pioram ao longo do tempo ou começam a afetar sua autonomia”, explica Maria Gabriela de Lucca, patologista clínica e assessora médica do Grupo DB.

Entre os sinais que merecem atenção estão esquecer repetidamente acontecimentos recentes, fazer a mesma pergunta diversas vezes, ter dificuldade para realizar tarefas antes familiares, perder compromissos com frequência, se confundir em locais conhecidos ou começar a apresentar problemas para organizar atividades rotineiras, como pagar contas e preparar refeições. Alterações de linguagem, orientação, julgamento, humor e comportamento também podem acompanhar os quadros de comprometimento cognitivo.

Um ponto especialmente relevante é observar o impacto sobre a vida cotidiana. Segundo as linhas de cuidado do Ministério da Saúde, a avaliação de uma possível demência deve considerar não apenas a presença de alterações cognitivas, mas a repercussão delas nas atividades diárias. A dificuldade para administrar finanças, organizar medicamentos, cozinhar, dirigir ou se localizar em trajetos conhecidos pode indicar a necessidade de aprofundar a investigação.

“Mais importante do que perguntar apenas se a pessoa está esquecendo é entender o que mudou na vida dela por causa desses esquecimentos. Quando alguém que sempre cuidou das próprias contas começa a se perder em pagamentos, por exemplo, ou passa a ter dificuldade em executar tarefas que dominava, esse impacto funcional precisa ser valorizado”, afirma a médica.

Embora a doença de Alzheimer seja uma das causas mais conhecidas de perda progressiva de memória, ela não é a única explicação possível. Alterações cognitivas também podem estar relacionadas a depressão, efeitos de medicamentos, consumo excessivo de álcool, deficiência de vitamina B12, distúrbios da tireóide, infecções e outras condições clínicas. Algumas dessas causas podem ser tratáveis ou até reversíveis quando identificadas corretamente.

Por isso, a investigação não se resume a um único exame. A avaliação costuma começar pela história clínica, exame físico e análise das alterações relatadas pelo paciente e pela família. Testes cognitivos podem ser utilizados para avaliar memória, linguagem, orientação e outras funções, enquanto exames laboratoriais ajudam a pesquisar condições que podem produzir sintomas semelhantes aos observados nas demências.

No caso da investigação inicial de Alzheimer, o Ministério da Saúde cita de forma específica a avaliação de depressão e exames laboratoriais com atenção à função da tireoide e aos níveis de vitamina B12. O diagnóstico é clínico e envolve também a exclusão de outras causas capazes de explicar as alterações cognitivas.

“Os exames laboratoriais não diagnosticam sozinhos a doença de Alzheimer. Eles fazem parte de uma investigação mais ampla e têm um papel importante principalmente na identificação de condições que podem provocar ou agravar alterações de memória. Encontrar uma deficiência de vitamina, uma alteração da tireóide ou outra causa tratável pode mudar completamente a condução daquele paciente”, destaca Maria Gabriela.

A observação de familiares e pessoas próximas também pode ajudar. Uma nota técnica publicada pelo Ministério da Saúde orienta que relatos de terceiros sobre piora do esquecimento devem ser valorizados, especialmente quando há fala repetitiva, desorientação, alterações de humor ou comprometimento das atividades cotidianas.

O diagnóstico oportuno ganha importância justamente porque permite compreender a causa dos sintomas e definir o cuidado adequado. Mesmo nos quadros neurodegenerativos, em que não há reversão da doença, identificar precocemente o problema permite planejar tratamentos, organizar a rotina, discutir questões de segurança e oferecer suporte ao paciente e à família.

“Memória não deve ser analisada apenas pela idade. Quando há uma mudança perceptível, progressiva e com impacto no cotidiano, vale procurar avaliação. Investigar cedo não significa necessariamente encontrar uma demência. Significa entender o que está provocando aquele sintoma e agir de acordo com a causa”, conclui a médica.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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