Além da restrição do celular: o que a escola fará com o silêncio recuperado?

Por Ivan Pereira –

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) traz um dado que deveria recolocar o desenvolvimento socioemocional no centro do debate educacional brasileiro: 49,7% dos estudantes de 13 a 17 anos relatam sentir-se muito preocupados ou ansiosos com as coisas comuns do dia a dia. Não se trata da realidade de uma escola específica ou de uma região em crise, mas de uma média nacional.

O dado ganha ainda mais relevância quando observado em conjunto com outros indicadores. A educação brasileira costuma ser analisada pela régua da renda — e com razão. No PISA, o quarto socioeconômico mais alto dos estudantes brasileiros ficou 96 pontos à frente do quarto mais baixo em ciências, ante uma diferença de 85 pontos na média da OCDE. A condição socioeconômica ajuda a explicar diferenças de desempenho, mas não explica, sozinha, o sofrimento emocional dos estudantes. Na PeNSE, a ansiedade alcança 47,4% dos alunos da rede pública e 61,9% dos alunos da rede privada. A insatisfação com o próprio corpo segue uma tendência semelhante: 26,0% na rede pública e 33,6% na privada.

O quadro também é nacionalmente abrangente. Enquanto o desempenho acadêmico apresenta diferenças expressivas entre as regiões, os indicadores relacionados à ansiedade permanecem em patamares próximos: o índice varia entre 47% e 51% do Norte ao Sul do país. O problema, portanto, não se restringe a uma rede de ensino, a uma faixa de renda ou a um estado. Ele atravessa a experiência escolar de uma parcela significativa de uma geração.

Dentro desse cenário, o recorte de gênero chama atenção. Entre as meninas, 61% relatam ansiedade, contra 38,3% dos meninos; 41% declaram sentir-se tristes na maioria dos dias, ante 16,7%; e 36,1% estão insatisfeitas com o próprio corpo, contra 18,2% dos meninos.

Esses números não são apenas um diagnóstico. Eles dimensionam um desafio que precisa ser incorporado à agenda educacional.

Se o sofrimento é transversal, as condições de acolhimento ainda não são. Enquanto 74,9% dos alunos da rede privada afirmam ser bem tratados pelos colegas na maioria das vezes, essa proporção cai para 59,3% na rede pública. Mais preocupante, 9,4% dos estudantes da rede pública dizem nunca ser bem tratados pelos colegas, ante 2,5% na rede privada. A experiência do sofrimento atravessa diferentes contextos escolares; as estruturas de cuidado, porém, permanecem desiguais.

A resposta institucional também revela essa assimetria. Apenas 47,7% dos adolescentes estudam em escolas que contam com algum suporte psicológico para situações de bullying e violência — 45,8% na rede pública e 58,2% na privada —, enquanto somente 38% estão em instituições com comitês dedicados à saúde mental. Ao mesmo tempo, 27,2% dos alunos relatam ter sido humilhados por colegas duas ou mais vezes em um único mês. A demanda é ampla, mas as estruturas permanentes de apoio ainda não acompanham essa realidade.

Uma das respostas públicas mais visíveis a esse cenário nos últimos anos foi a restrição do uso de celulares nas escolas. O Brasil avançou rapidamente nessa direção: 81,4% dos estudantes estão em escolas onde o aparelho é proibido nas dependências, ante 49,5% na média da OCDE. Dados do PISA também indicam menor distração digital em contextos nos quais existem regras de proibição, mesmo quando se considera o perfil socioeconômico dos estudantes. A medida enfrenta um problema concreto da rotina escolar.

Mas retirar o celular não basta para reconstruir a atenção, o vínculo e a qualidade das relações. A questão decisiva é o que a escola fará com o tempo, a atenção e as oportunidades de interação que essa mudança pode recuperar.

Isso não se resolve com semanas temáticas pontuais, nem significa transformar a escola em um posto de atendimento em saúde mental. Há, entre esses dois extremos, um campo genuinamente pedagógico que precisa ser ocupado: o clima escolar, as relações interpessoais e o desenvolvimento de competências socioemocionais. Aprender a reconhecer e nomear emoções, lidar com conflitos, pedir ajuda, sustentar a atenção e conviver com as diferenças não é tempo retirado da aprendizagem. É parte das condições que favorecem a própria aprendizagem.

Essa é uma rede de proteção que o professor pode construir e fortalecer diariamente, desde que conte com formação continuada, intencionalidade pedagógica e métodos adequados.

O novo Plano Nacional de Educação (PNE) coloca o desenvolvimento socioemocional entre os eixos estratégicos para a próxima década. A PeNSE ajuda a dimensionar o ponto de partida dessa trajetória. Se o Brasil aprendeu a medir com rigor o que os estudantes sabem, precisa também levar a sério as condições emocionais e relacionais em que eles aprendem.

A angústia não escolhe escola. O acolhimento também não pode escolher.

(*) Por Ivan Pereira é especialista de educação e CEO da Mind Lab.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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