Pertencer é fácil. E para muita gente pertencer é mais importante do que pensar

Camila Camaratta (*) –


Às vésperas de um segundo turno eleitoral, os ânimos se acirram e as redes se enchem de
denúncias, previsões catastróficas, verdades, meias-verdades e mentiras. Tudo parece urgente.
Tudo precisa ser compartilhado.

Pertencer oferece alguma coisa preciosa: um lugar. Há um “nós”, há um “eles”, uma linguagem
compartilhada e a sensação reconfortante de não estar sozinho diante de uma realidade complexa.
Pensar é mais trabalhoso. Exige dúvida, contradição, ambivalência e, às vezes, o risco de
descobrir que aqueles com quem concordamos podem estar errados – e aqueles de quem
discordamos podem ter uma parcela de razão.

Freud percebeu, ao escrever sobre a psicologia das massas, que o indivíduo não permanece
exatamente o mesmo quando tomado pelos fenômenos de grupo. A identificação produz laços e
coesão, mas pode também modificar nossa relação com aquilo que pensaríamos ou faríamos
individualmente.

Mas todo pertencimento pode cobrar seu preço. E duas das primeiras candidatas ao sacrifício
são justamente a verdade e a dúvida.

Talvez o mais inquietante seja isto: em nome do pertencimento, torna-se desnecessário
pensar.

A intensidade da identificação pode ocupar quase todo o espaço. Já se sabe quem são os nossos e
quem são os outros, de quem desconfiar, o que deve indignar e o que pode ser relativizado. É nesse
terreno que uma mentira encontra condições extraordinariamente favoráveis para circular.

Costumamos imaginar que alguém compartilha uma informação falsa porque foi enganado por ela.
Mas há algo mais perturbador: quando saber se uma informação é verdadeira já não importa
tanto.

Ela confirma aquilo em que queremos acreditar? Prejudica o adversário? Reforça os nossos?
Assusta o outro o suficiente?

Então ela circula.

Há ainda uma fantasia em jogo: a de que o medo possa convencer o outro. Que, diante de uma
ameaça suficientemente aterradora, ele reveja suas convicções, mude o voto, praticamente,
mude de lado. Como se fosse possível produzir pelo terror aquilo que já não se consegue
produzir pelo argumento.

A pergunta “isso é verdade?” é silenciosamente substituída por outra: “isso serve aos nossos?”

O medo faz o resto. Quanto mais aterradora a mensagem, menor o espaço entre recebê-la e
repassá-la. “Veja antes que apaguem.” “Espalhe.” “Depois será tarde.” Toca-se o terror. A
urgência exige movimento; pensar exige intervalo.

E pensar pode custar caro. Em grupos tomados por identificações muito intensas, uma pergunta
pode soar como provocação; uma dúvida, como fraqueza; reconhecer alguma razão no argumento
do outro, como concessão; discordar dos próprios, como traição.

Não é algo que aconteça apenas com os outros. Nenhum grupo possui o monopólio da
cegueira. Às vezes, encontramos justificativas mais sofisticadas para continuar acreditando naquilo
em que desejamos acreditar.

Pensar não é não ter lado, nem abandonar convicções. É conseguir conservar, dentro delas,
alguma capacidade de interrogação.

Pensar ainda não é ilegal.

(*) Camila Camaratta é psicanalista.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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