Quando a juventude acorda, o poder começa a tremer

ato em defesa de Lula Curitiba

Democracia não tem idade e a juventude curitibana volta a erguer a voz

Há um vento novo soprando pelas ruas do Brasil. E ele não nasce nos gabinetes refrigerados de Brasília, tampouco nos conchavos da velha política. Nasce nas universidades, nos corredores da UFPR, nas praças e na inquietação de uma juventude que parece disposta a mandar um recado aos vendedores de ódio e aos falsos profetas da democracia: o Brasil não é propriedade de quem grita mais alto, muito menos daqueles que confundem patriotismo com intolerância.

Curitiba, que já testemunhou tantas batalhas políticas, pode voltar a ser palco dessa efervescência. A geração que não viveu os anos de chumbo começa a descobrir que a democracia não é uma herança garantida, mas uma conquista que precisa ser defendida todos os dias. E, se os novos movimentos estudantis ganharem musculatura, os velhos caciques terão motivos para perder o sono.

Os caras-pintadas de ontem podem encontrar seus herdeiros nos jovens de hoje. Mudam os rostos, as bandeiras e os instrumentos de mobilização, mas permanece uma verdade incômoda para os donos do poder: quando a juventude resolve sair das

Em 1983, quando o Brasil ainda vivia sob regime da ditadura militar, estávamos presentes na Boca Maldita, com caneta e bloquinho nas mãos, sem saber, ainda, qual seria a abertura da matéria, tão forte era a emoção. Éramos jovens e vencemos a primeira batalha com a Tancredo Neves na Presidência da República.

Em 1992, ainda jovens, também estivemos na mesma Boca Maldita acompanhando o movimento dos caras-pintadas que derrubou Fernando Collor de Mello.

Em 2026, já, no meu caso, com cabelos brancos, meus colegas, também, mas com o mesmo vigor na luta pela democracia.

A democracia não se aposenta. E nós também não

A ditadura tentou calar vozes. Collor tentou desafiar a indignação das ruas. E, agora, em 2026, há quem ainda não tenha aprendido que a democracia brasileira não é propriedade de generais, de políticos de ocasião ou de aventureiros que confundem o poder com escritura de cartório.

Em 1983, quando o Brasil ainda respirava o ar pesado da ditadura militar, estávamos na Boca Maldita, em Curitiba, com caneta e bloquinho nas mãos, testemunhando uma história que não cabia nas páginas dos jornais. Éramos jovens jornalistas, com o coração disparado e uma dificuldade danada para encontrar o lead da matéria. Não por falta de palavras, mas pelo excesso de emoção.

Vieram as Diretas Já, a esperança de Tancredo Neves e a redemocratização. Tancredo foi eleito indiretamente em 1985, mas não chegou a tomar posse. Ainda assim, aquela geração ajudou a arrancar o país das sombras do autoritarismo.

Em 1992, voltamos à mesma Boca Maldita. Os caras-pintadas tomaram as ruas, sacudiram Brasília e ajudaram a empurrar Fernando Collor de Mello para fora da Presidência. Mais uma vez, a juventude mostrou que a indignação popular é mais poderosa do que a arrogância de quem se imagina intocável.

Defesa da democracia continua

Agora, em 2026, retornamos ao mesmo cenário. Os cabelos embranqueceram, os bloquinhos deram lugar aos celulares, as máquinas de escrever viraram peças de museu. Mas a disposição de defender a democracia continua intacta.

Mudaram os rostos, as bandeiras e os protagonistas. Não mudou a convicção de que nenhum governante, seja de direita ou de esquerda, está acima da Constituição e da vontade soberana do povo.

E há uma ironia deliciosa nessa história: aqueles jovens que um dia enfrentaram a ditadura e acompanharam os caras-pintadas hoje são veteranos do jornalismo, mas continuam reconhecendo de longe o cheiro do autoritarismo.

Podem ter envelhecido nossos cabelos. Nossa consciência democrática, jamais.

Porque a democracia não tem prazo de validade. E quem passou a vida inteira defendendo a liberdade não vai entregar, justamente agora, a caneta, a memória e a coragem aos inimigos da história.

Pedro Ribeiro, jornalista

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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