Detalhando a segurança das urnas eletrônicas após conteúdos sobre fraudes viralizarem

Engenheiro Elemar Jr. destrincha o funcionamento do sistema e explica por que a tecnologia brasileira é blindada contra ataques.

A segurança do sistema eleitoral brasileiro é um tema que frequentemente domina as discussões públicas e após o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026, alguns conteúdos sobre supostas fraudes nas urnas eletrônicas viralizaram. Quando a política é deixada de lado e a análise se volta estritamente para a engenharia de software, a conclusão técnica é direta. As urnas eletrônicas, que completam 30 anos de operação, baseiam-se em uma arquitetura de múltiplas camadas projetada especificamente para impedir invasões e garantir a integridade do voto.

O engenheiro especialista em tecnologia e inteligência artificial e CEO da eximia.co, Elemar Jr., destrincha o funcionamento do sistema e explica por que a tecnologia brasileira é blindada contra ataques. “A confiabilidade não é uma feature que você adiciona no final. Sistema crítico não pede confiança, produz evidência”, inicia, ao explicar em detalhes.

A urna pode ser hackeada?

O sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) trabalha com a redução máxima da “superfície de ataque” e a separação de responsabilidades. Segundo o especialista, a arquitetura de segurança se apoia em três pilares fundamentais:

1. Desconexão total da internet: A urna eletrônica não possui qualquer tipo de conexão com a rede mundial de computadores, seja para registrar ou para apurar os votos. “Um hacker não consegue acessar as urnas remotamente”, crava Elemar. Para alterar o software de uma máquina, seria necessário acesso físico.

2. Apuração descentralizada: O processamento não ocorre em um servidor central, mas na própria seção eleitoral. Assim que a votação é encerrada, a própria urna calcula os votos e emite o Boletim de Urna (BU), um documento impresso e assinado digitalmente que impossibilita alterações posteriores.

3. Bloqueio contra softwares maliciosos: Antes da eleição, o software oficial é inspecionado por universidades, OAB, partidos políticos e entidades fiscalizadoras. Após a validação, ele recebe uma assinatura digital (um “carimbo”). “Se alguém quisesse modificar o software, a versão nova não bateria com esse carimbo. A urna acabaria invalidada. O processo não inicia”, explica o engenheiro.

Teste de Integridade e auditoria

Para provar que a máquina está computando exatamente o que o eleitor digita, a Justiça Eleitoral realiza o Teste de Integridade durante o próprio dia da eleição. Urnas são sorteadas e votos previamente registrados em papel são digitados no equipamento na frente de auditores. No final do dia, o resultado eletrônico é cruzado com os votos de papel.

Em 2022, o Tribunal de Contas da União (TCU) acompanhou os testes em 25 estados. Nenhuma divergência foi encontrada. Trata-se de inferência estatística básica: ao testar uma amostragem rigorosa sem identificar falhas, a probabilidade de uma fraude massiva passar despercebida torna-se nula.

Da seção eleitoral até o TSE

Outro questionamento comum diz respeito ao trajeto dos dados até o painel de contagem do TSE. Elemar Jr. detalha a “cadeia de custódia” da informação:

A zerésima: Antes do primeiro voto, imprime-se um comprovante de que não há dados na máquina.

O Boletim de Urna (BU): Ao final do dia, a urna imprime o resultado local. “Digamos que o BU mostre 120 votos para um candidato. Uma cópia é fixada na porta da seção. Ou seja, o resultado existe, é impresso e público antes de qualquer transmissão”, ressalta Elemar.

Transmissão: Apenas após a impressão pública, os mesários retiram a mídia de gravação (semelhante a um pendrive) da urna. Essa mídia é conectada a outro computador, homologado pela Justiça Eleitoral, que finalmente transmite os dados criptografados e com assinatura digital para o TSE.

Auditoria cidadã: Qualquer pessoa pode usar o aplicativo do TSE para escanear o QR Code impresso no BU fixado na porta da seção e comparar se os números que chegaram ao tribunal (os mesmos 120 votos do exemplo) são idênticos aos que saíram da máquina.

Apagão de 50 minutos no primeiro turno

O especialista também esclareceu o episódio em que a totalização dos votos para presidente ficou travada por quase 50 minutos durante as eleições. Enquanto o painel nacional parou em 64,81%, os painéis estaduais continuavam atualizando normalmente.

Segundo Elemar Jr., isso ocorreu porque a eleição acontece em camadas. A apuração já havia ocorrido nas urnas locais. O que falhou foi apenas o sistema visual de consolidação nacional do TSE, devido a um gargalo no volume de dados. “Nada que gente que trabalha com fila em TI já não tenha visto várias vezes. As urnas contaram, os boletins continuaram chegando. Quem travou foi a divulgação do consolidado nacional”, explica. Quando o sistema voltou, os números batiam perfeitamente com os dados estaduais que não haviam saído do ar.

Quanto à possibilidade de implementar o voto impresso, o especialista pondera que seria uma camada adicional, mas que traria altos custos logísticos e novos riscos. “A segurança é sempre um trade-off. Teria que adicionar impressora a cada urna, papel, armazenamento, cadeia de custódia e procedimentos para tratar divergências. Eu acho necessário um voto impresso para tornar a urna brasileira ainda mais confiável? Não.”

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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