Nikolas: muito barulho, pouco conteúdo e um Janones no calcanhar

Um recado a Nikolas Ferreira: Na política, quem fala pelos cotovelos corre o risco de acabar tropeçando na própria boca.

Na política, há personagens que confundem popularidade com liderança, provocação com inteligência e milhões de seguidores com votos nas urnas. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) parece ter se especializado nessa modalidade de espetáculo. Fala muito, provoca ainda mais e, quando precisa apresentar conteúdo, o silêncio costuma ser seu argumento mais eloquente.

Depois que seu conterrâneo André Janones ganhou protagonismo nas redes sociais, mobilizando um verdadeiro exército digital de aproximadamente 10 milhões de seguidores em torno da campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Nikolas parece ter entrado em estado de inquietação permanente. Acostumado aos holofotes, o jovem parlamentar mineiro agora precisa disputar o palco com alguém que conhece tão bem quanto ele os atalhos, as armadilhas e os truques da comunicação digital.

O problema do Nikolas é o próprio Nikolas

E, nessa guerra de vaidades, o problema de Nikolas não é apenas Janones. É o próprio Nikolas.

O deputado, que já foi tratado como uma das grandes estrelas da constelação bolsonarista, parece enfrentar turbulências dentro do próprio PL. Há sinais de desgaste e críticas ao seu comportamento, embora isso não signifique, necessariamente, perda de sua influência política. O antigo vendedor de terrenos na Lua, expressão que cabe como uma luva aos mercadores de ilusões eleitorais, agora parece ter dificuldades para vender até suas próprias convicções.

Na noite de domingo, Nikolas resolveu apostar novamente na velha receita da contestação eleitoral. Questionou o resultado do pleito, falou em golpe e acenou com a possibilidade de pedir sua anulação. Uma acusação gravíssima, que exige provas igualmente robustas, não apenas indignação diante das câmeras de um celular.

Mas bastaram algumas horas para o valentão digital recolher as armas. Nesta segunda-feira (26), o deputado já admitia as dificuldades de levar adiante a empreitada. O leão das redes sociais parecia ter descoberto que a Justiça Eleitoral não funciona como uma seção de comentários do Instagram.

Um debochado no circo

Nikolas construiu boa parte de sua notoriedade política com provocações, confrontos e performances que frequentemente transformam o Parlamento em palco de entretenimento. É uma fórmula que produz visualizações, aplausos de militantes e manchetes. Mas governar um país, ou ajudar alguém a governá-lo, exige muito mais do que frases de efeito e vídeos cuidadosamente preparados para viralizar.

Durante o primeiro turno, por exemplo, vídeos mostraram o deputado passando próximo a Fernando Haddad e Simone Tebet e disparando, em tom de deboche: “Mais dois desempregados”.

A frase pode ter arrancado gargalhadas de seus seguidores mais fiéis. Mas também ilustra uma dificuldade recorrente de parte da militância bolsonarista: compreender que a política não é uma competição permanente de humilhações públicas.

Seu problema agora chama-se Janones

Não seria exagero considerar que esse comportamento possa ter afastado eleitores de Flávio Bolsonaro, especialmente aqueles que esperavam de sua campanha uma postura mais institucional, moderada e comprometida com propostas. Não há, porém, elementos suficientes para medir quantos votos, se algum, foram perdidos por causa dessas provocações.

O eleitor pode até gostar de espetáculo. Mas chega um momento em que deseja saber quem tem condições de administrar o país, e não apenas quem consegue produzir o meme mais venenoso da semana.

Agora, Nikolas tem um problema adicional. Chama-se André Janones. É mineiro, deputado federal e conhece os mecanismos da comunicação política nas redes sociais. A diferença é que Janones passou a disputar o mesmo território digital que Nikolas parecia considerar propriedade particular.

A disputa entre os dois promete novos capítulos, com uma diferença fundamental: seguidores não são soldados, curtidas não são votos e engajamento não é sinônimo de liderança.

Nikolas confunde Congresso com programa de auditório

Nikolas talvez precise aprender uma lição elementar da política: quem vive exclusivamente dos holofotes corre o risco de desaparecer quando outra estrela ilumina o palco.

E, se continuar confundindo o Congresso Nacional com um programa de auditório e a democracia com uma arena de provocações, poderá descobrir que seu maior adversário não é André Janones, muito menos Lula.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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