Por Pedro Santafé –
Poucas datas carregam o peso histórico de 1964 na vida republicana brasileira. A referência abreviada àquele ano evoca o golpe de Estado que instaurou uma brutal ditadura militar, sob a qual o país viveu por mais de duas décadas.
No último domingo, os brasileiros deram outro significado a esse número.
Luiz Inácio Lula da Silva — o torneiro mecânico do ABC paulista que se tornou uma das principais lideranças sindicais durante a ditadura, organizou as greves históricas que contribuíram para precipitar o fim do regime, foi preso e perseguido, mas nunca abandonou a luta pela democracia — foi reeleito presidente da República com mais de 64 milhões de votos, a maior votação já recebida por um candidato na história eleitoral brasileira.
A coincidência numérica não é um detalhe a ser ignorado. É um acontecimento carregado de significado histórico.
O número que evoca o golpe passa a simbolizar a escolha democrática. À memória do silêncio imposto contrapõe-se a voz soberana do eleitorado; à ruptura institucional, a reafirmação da democracia pelo voto.
Jânio Quadros foi eleito presidente em outubro de 1960. Os brasileiros só voltariam a escolher diretamente o chefe de Estado em outubro de 1989, 29 anos depois. Uma geração inteira nasceu, cresceu e chegou à vida adulta sem exercer esse direito elementar. Restaurada a democracia, o país passou a construir, eleição após eleição, uma cultura democrática cuja solidez o resultado deste domingo tornou evidente — talvez mais do que muitos imaginassem.
O segundo turno desta eleição ocorreu no dia 25 de outubro — uma data que, para quem conhece a história do Brasil, carrega um peso particular. Em 25 de outubro de 1975, Vladimir Herzog, o Vlado, foi assassinado sob tortura nas dependências do DOI-CODI do II Exército, em São Paulo. Jornalista, diretor de jornalismo da TV Cultura, tinha 38 anos. Apresentara-se voluntariamente no dia anterior para prestar depoimento. O Exército divulgou a versão falsa de suicídio por enforcamento. Apenas em 2013 a certidão de óbito foi retificada para registrar a causa real: “lesões e maus-tratos sofridos durante interrogatório”. Cinquenta e um anos depois de sua morte, os brasileiros compareceram às urnas carregando, mesmo que inconscientemente, o peso dessa responsabilidade histórica: honrar a memória dos que não sobreviveram para ver a democracia que ajudaram a construir.
Faço parte dessa geração. Em março de 1985, ingressei na Faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná, no momento em que o Brasil inaugurava a Nova República: o primeiro governo civil desde o golpe, embora escolhido indiretamente e marcado pela frustração da campanha das Diretas Já, derrotada no Congresso. Tínhamos vinte anos e a sensação de participar de um momento fundador. Ainda não sabíamos quanto tempo exigiria a consolidação da democracia, nem quantas vezes ela seria posta à prova.
Quatro décadas depois, há algo especialmente significativo em ver os jovens de hoje ocuparem ruas e praças para defendê-la. Se estudantes e trabalhadores estiveram na linha de frente da mobilização que impulsionou a abertura política, as novas gerações voltaram a demonstrar seu protagonismo na campanha eleitoral e na mobilização que levou Lula à vitória no segundo turno. A juventude não é apenas herdeira de uma conquista histórica: é também responsável por mantê-la viva. Nisso reside uma passagem de bastão que renova a esperança no futuro e nos lembra que nenhuma democracia se perpetua por inércia.
Esta foi a décima eleição presidencial da era democrática. Lula disputou sete delas: perdeu em 1989, 1994 e 1998; venceu em 2002, 2006, 2022 e agora em 2026. Também foi uma liderança decisiva nas duas vitórias de Dilma Rousseff, em 2010 e 2014. Em 2018, impedido de concorrer após sua prisão, conduzida pelo então juiz Sérgio Moro, ficou fora de uma disputa que alteraria os rumos do país. Moro, mais tarde convertido em militante bolsonarista, foi eleito governador do Paraná em 4 de outubro. O episódio permanece entre as páginas mais sombrias da história política recente do Brasil.
Agora, a vitória de Lula adquire uma dimensão simbólica particular. Mais de 64 milhões de brasileiras e brasileiros depositaram nas urnas seus votos e, com eles, reafirmaram a escolha de um país que não aceita renunciar à democracia.
O calendário reserva outra coincidência histórica. Em 2028, o Brasil celebrará os quarenta anos da Constituição Cidadã, que sepultou juridicamente a ordem autoritária e estabeleceu os fundamentos do Estado Democrático de Direito. No mesmo ano, serão lembrados os 64 anos do golpe de 1964. A proximidade entre essas duas efemérides oferece uma oportunidade singular de confrontar a ruptura que os golpistas impuseram ao país com a ordem democrática que a sociedade brasileira, a duras penas, ajudou a reconstruir.
Será também uma ocasião para honrar a memória daqueles que resistiram: operários e camponeses, sindicalistas e estudantes, advogados e padres; as mães e professoras que enfrentaram o medo; os que partiram para o exílio levando consigo um país interrompido; os que permaneceram e suportaram o peso da repressão. E aqueles que não puderam voltar.
A trajetória de Lula atravessa esses dois tempos. O jovem operário que viveu sob a ditadura tornou-se, décadas depois, presidente eleito pela quarta vez. Sua história não se confunde com a de todo um país, mas carrega marcas de uma experiência coletiva: a de um Brasil que resistiu ao autoritarismo, persistiu na luta por direitos e recuperou a possibilidade de decidir seu próprio destino.
No último domingo, o número 64 deixou de ser apenas uma cifra associada à ruptura de 1964. Sem apagar a violência que representa, ganhou um novo sentido na crônica política brasileira: o de uma vitória eleitoral que reafirma a democracia e a soberania popular.
Que essa ressignificação permaneça não como absolvição do passado, mas como afirmação de uma conquista: a de um povo que voltou às ruas e às urnas para defender o direito de escolher o próprio futuro.
(*) Pedro Santafé é cronista e ensaísta. Escreve de Madrid, Espanha, em 28 de outubro de 2026.






