Quero ver se isso funciona no Bar da Dona Inês, na rua São Francisco, porque no Bek’s, não funcionou…
Enquanto o candidato derrotado, Flávio Bolsonaro, posta, dos Estados Unidos, onde buscou refúgio para não enfrentar a justiça brasileira e responder por acusações que, supostamente, pesam sobre seus ombros, como faz qualquer brasileiro decente, seus apoiadores buscam novo território para suas batalhas ideológicas: o balcão dos bares e restaurantes.
Agora, antes de pedir uma cerveja gelada, uma porção de batatas fritas ou um simples cafezinho, talvez o consumidor precise apresentar não apenas o cartão de crédito, mas também seu histórico eleitoral.
A onda de listas de boicote que circulam nas redes sociais, atribuídas a apoiadores do candidato derrotado Flávio Bolsonaro, contra estabelecimentos identificados com eleitores do presidente Lula, é mais um capítulo dessa interminável novela brasileira em que a política invade até o cardápio.
Pode procurar outro bar
Em Curitiba, o conhecido Bek’s já havia antecipado, há muitos anos, essa mistura de política com gastronomia. O estabelecimento ficou conhecido por ostentar uma faixa de posicionamento favorável a Lula, deixando clara sua preferência política. Segundo o relato de seus frequentadores, nem por isso deixou de receber clientes ou de manter suas atividades.
Afinal, ninguém precisa concordar com o proprietário de um bar para reconhecer se a cerveja está gelada, se o garçom atende bem ou se a comida merece uma segunda rodada.
O curioso dessa nova modalidade de militância gastronômica é imaginar que a preferência eleitoral de um comerciante possa determinar a qualidade do seu pastel. Seria o nascimento de uma nova ciência? A ideologia aplicada à temperatura da cerveja? A filiação partidária como ingrediente secreto da feijoada?
Hostilidade, ameaças e constrangimentos
O direito de escolher onde gastar o próprio dinheiro é legítimo. Assim como é legítimo ao comerciante manifestar suas convicções políticas, respeitados os direitos de seus clientes. O problema começa quando listas transformam estabelecimentos em alvos de hostilidade, ameaças ou constrangimentos.
O Brasil já tem problemas suficientes para resolver sem precisar perguntar ao dono da padaria em quem ele votou antes de comprar seis pãezinhos.
Como brindar a democracia?
Talvez esteja chegando o dia em que os restaurantes precisarão oferecer dois cardápios: um para a esquerda, outro para a direita. No centro, naturalmente, ficaria a conta — porque essa, independentemente de quem ganhou ou perdeu a eleição, continua sendo paga pelo consumidor.
E fica uma pergunta: quando até a cerveja precisa escolher um lado, quem é que ainda consegue brindar à democracia?





