Homens jovens concentram atendimentos por acidentes de bicicleta em PS de Curitiba

Homens representam cerca de 80% dos ciclistas atendidos pelo Hospital Universitário Cajuru; ocorrências se concentram entre 17h e 21h, principalmente às sextas-feiras e nos fins de semana.

Curitiba registrou 259 acidentes envolvendo ciclistas entre janeiro e junho de 2026, número próximo ao observado no mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 261 ocorrências, segundo o Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran). No Hospital Universitário Cajuru, referência em trauma em Curitiba e região metropolitana e com atendimento 100% pelo Sistema Único de Saúde (SUS), foram atendidos 180 ciclistas vítimas de acidentes no primeiro semestre deste ano, ante 214 no mesmo período de 2025. Os dados do hospital apontam ainda que homens e jovens de 15 a 24 anos predominam entre os pacientes. 

Entre os pacientes atendidos pelo hospital, os homens representam cerca de oito em cada dez casos. No primeiro semestre de 2025, foram 172 homens, equivalentes a 80,4% dos atendimentos, e 42 mulheres. Já em 2026, foram 142 homens (78,9%) e 38 mulheres. A faixa etária de 15 a 24 anos concentrou o maior número de atendimento nos dois períodos: 55 em 2025 e 50 em 2026. As ocorrências registradas pelo BPTran em Curitiba envolveram 627 pessoas no primeiro semestre de 2026, deixaram 111 feridos e resultaram em uma morte. No mesmo período de 2025, foram 634 pessoas envolvidas, 125 feridos e um óbito. 

Um levantamento complementar do BPTran, com dados de janeiro a agosto de 2025 e 2026, aponta a colisão transversal como um dos tipos de acidentes que mais se destacam nas ocorrências envolvendo ciclistas e outros veículos. Esse tipo de sinistro ocorre quando as trajetórias dos veículos se cruzam, provocando um impacto lateral, situação comum em cruzamentos e acessos. Somadas às categorias apresentadas pelo órgão, foram 109 registros desse tipo em 2025 e 84 em 2026. A maior concentração ocorreu entre bicicletas e automóveis, com 65 casos em 2025 e 58 em 2026. 

A vulnerabilidade do ciclista ajuda a explicar a diversidade e a gravidade das lesões que chegam à emergência. O médico emergencista do Hospital Universitário Cajuru, Guido Bergamin, aponta o traumatismo craniano como uma das principais preocupações, principalmente quando o ciclista não utiliza capacete. Fraturas de mão, antebraço e cotovelo também são frequentes, muitas vezes associadas ao reflexo de apoiar as mãos e os braços durante a queda.

“Há traumas característicos do mecanismo do acidente. O impacto contra o guidão ou o quadro da bicicleta pode atingir as regiões pélvica e púbica, além das regiões genital e perineal. Por isso, entender como o acidente ocorreu é fundamental para identificar possíveis lesões que não são evidentes na avaliação inicial”, explica Bergamin.

Além dos traumas identificados na emergência, o impacto da queda pode provocar diferentes lesões ortopédicas.  Segundo o ortopedista dos hospitais Universitário Cajuru e São Marcelino Champagnat, Eduardo Novak, punho, cotovelo, ombro e clavícula estão entre as áreas mais afetadas. “Ao cair, a pessoa tende a colocar as mãos à frente do corpo para se proteger. Nesse movimento, a força do impacto pode provocar lesões no punho, no cotovelo, no ombro e na clavícula”, pontua.

Quando o impacto é mais intenso, as consequências podem exigir cirurgia e uma recuperação mais longa. Fraturas desviadas no punho e lesões no cotovelo, no ombro e na clavícula estão entre os quadros de maior gravidade. “Nos acidentes com veículos de duas rodas, o joelho é o para-choque, que acaba recebendo parte importante do impacto. Dependendo da gravidade, o paciente pode precisar de internação prolongada”, alerta Novak.

Lesões podem passar despercebidas

Nem sempre a gravidade de uma queda é percebida imediatamente. Algumas fraturas no punho, por exemplo, podem provocar dor nos primeiros dias e depois apresentar melhora, dando a impressão de que o problema passou. Nesses casos, o diagnóstico  pode ocorrer apenas meses depois. Situação semelhante pode acontecer em traumas no joelho, especialmente quando não há uma avaliação médica adequada. “O paciente pode sentir dor por um ou dois dias, que depois diminui. Com isso, uma fratura pode passar despercebida ou ser diagnosticada apenas um, dois, três ou até seis meses depois”, explica Novak.

O diagnóstico tardio pode trazer consequências de longo prazo, como limitação dos movimentos, dor crônica, desgaste das articulações e consolidação inadequada dos ossos. “Quando uma fratura no punho não recebe o tratamento adequado, pode haver limitação dos movimentos e dor crônica. O mesmo pode ocorrer em lesões no ombro, no joelho e no quadril”, reforça o ortopedista.

Os dados dos atendimentos no Hospital Universitário Cajuru também revelam uma concentração dos casos em determinados dias e horários. Os registros são mais frequentes  às sextas-feiras e nos fins de semana, enquanto o maior volume ocorre entre 17h e 21h. Para Bergamin, essa concentração está relacionada a diferentes fatores. “Esse é o horário de saída do trabalho, quando aumenta a circulação de pessoas e veículos nas ruas. Também é um período de maior movimento dos serviços de entrega por aplicativo, principalmente de comida.”

Nos fins de semana, o emergencista observa ainda que mais pessoas utilizam a bicicleta. “Tem mais gente saindo de casa, seja para se exercitar ou andar de bicicleta por lazer. E, muitas vezes, são pessoas que não têm o hábito de pedalar com frequência ou que não estão tão acostumadas a dividir esse espaço com os outros veículos.”

Proteção e respeito no trânsito

Para os especialistas dos hospitais Universitário Cajuru e São Marcelino Champagnat, reduzir o número de acidentes e, principalmente, evitar casos graves exige uma combinação de atenção, equipamentos de proteção e respeito entre os diferentes usuários das vias. “O capacete é fundamental, tanto para motociclistas quanto para ciclistas, além de outros equipamentos, como joelheiras e cotoveleiras, principalmente para quem anda de bicicleta”, salienta Guido.

Novak também chama a atenção para a importância da condução defensiva. Segundo o ortopedista, o ciclista deve estar atento ao comportamento dos demais veículos e antecipar possíveis situações de risco, sem presumir que foi visto pelo motorista. “O principal é não presumir que os motoristas estão vendo o ciclista”, destaca. 

A prevenção, porém, não depende apenas de quem está sobre a bicicleta. Para Bergamin, a segurança dos ciclistas também depende da infraestrutura viária e da conscientização de todos que compartilham as vias. “Motoristas devem respeitar o ciclista, assim como os ciclistas devem respeitar os pedestres. Todos precisam entender que as vias são espaços compartilhados.”

Além do respeito entre os diferentes usuários, Bergamin ressalta medidas que podem reduzir os riscos para quem pedala. “É importante utilizar as vias destinadas às bicicletas, usar os equipamentos de proteção, respeitar a sinalização e evitar comportamentos de risco. A combinação de infraestrutura adequada, proteção e respeito entre todos pode ajudar a reduzir os acidentes e, principalmente, evitar que sejam graves ou fatais”, conclui Guido. 

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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