A ressaca da Faria Lima e a corrida por 2030

Por Pedro Santafé –

A primeira semana de trabalho pós-eleitoral termina com uma ressaca monumental na Faria Lima. O real sofreu uma desvalorização próxima de dois dígitos, a Bolsa acumulou perdas de quase 18% e os fundos especulativos conheceram dias de glória às avessas. No calor da campanha, confundiram torcida com análise de risco e descobriram, da maneira mais cara, que o mercado também pode errar por excesso de convicção. Para o investidor comum, fica a conta; para os analistas, a oportunidade de rever as próprias previsões. Felizmente, os fundamentos da economia brasileira continuam sólidos, e a correção dos excessos não deverá tardar.

No front político, o paradeiro de Flávio Bolsonaro começa a perder o apelo de novidade. Nem mesmo uma live transmitida de seu refúgio em Miami conseguiu devolver-lhe o protagonismo. O senador parece ainda desfrutar o fim da temporada de praia, enquanto a política brasileira, sempre impaciente, já procura novos personagens.

Por aqui, a imprensa resolveu antecipar a disputa de 2030, como se os brasileiros não estivessem mais interessados em conhecer a composição do próximo governo e os planos para o quadriênio que começa. É verdade que algum descanso é devido ao nosso presidente octogenário, depois da maratona eleitoral. O feriadão veio em boa hora — inclusive para quem já está tentando organizar a sucessão.

A máxima “rei morto, rei posto” nunca pareceu tão apropriada. Tarcísio de Freitas mal viu a cadeira de Flávio Bolsonaro desocupada e já se apresentou como candidato à Presidência em 2030. Na crônica política de Brasília, conta-se que, muitos anos atrás, um então ilustre desconhecido consultor legislativo da Câmara dos Deputados provocou gargalhadas numa mesa de bar ao revelar que sonhara estar predestinado a ser presidente da República. Ninguém levou a sério. O tempo passou, o burocrata tornou-se ministro da Infraestrutura no governo Bolsonaro e, num salto olímpico, chegou ao Palácio dos Bandeirantes. Hoje, quando fala candidamente de suas ambições presidenciais — como fez na longa entrevista ao Estadão —, todos prestam atenção. O sonho de mesa de bar ganhou assessoria de imprensa.

Mas há quem considere que o governador queimou a largada. Nem deixou esfriar a cadeira liberada pelo fujão de Miami. Talvez ainda não tenha aprendido que, na política, sentar antes da hora pode dar azar — sobretudo quando há outros pretendentes à mesma cadeira.

Outra disputa que promete movimentar os bastidores é a pelo posto de principal interlocutor do Centrão na recomposição da base governista. Depois de ver seu capital político arranhado pela aposta em Ronaldo Caiado, Gilberto Kassab farejou uma nova oportunidade de negócio: oferecer a bancada do PSD como a noiva que o Planalto procura. O partido perdeu força no Congresso, especialmente no Senado, mas conquistou governos estaduais e continua dono da maior família de prefeitos do país. Kassab, portanto, volta ao mercado com um portfólio renovado e a velha habilidade de negociar.

A ironia é que seu candidato preferido em 2026 era justamente Tarcísio, e tudo indica que continuará sendo em 2030. Desta vez, porém, sem deixá-lo tempo demais ao relento, sujeito a uma insolação política. Resta saber se o governo Lula cairá novamente no conto do vigário do apoio do PSD e de outras siglas desse amálgama ideológico chamado Centrão — União Brasil, PP, MDB e companhia. Em Brasília, a noiva muda de vestido, mas o dote continua sendo negociado.

A democracia brasileira mostrou-se, mais uma vez, vibrante e resiliente, merecendo reconhecimento internacional. Essa conquista, porém, não pode obscurecer os episódios que ameaçam a convivência democrática: extremistas de direita inconformados com a derrota de Flávio Bolsonaro, o fujão, têm protagonizado atos de violência e retaliação, inclusive demissões de trabalhadores por suas escolhas políticas. Diante dessa intolerável tentativa de intimidação, cabe à Justiça agir prontamente para conter essa irrupção de macarthismo e punir exemplarmente seus perpetradores.

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(*) Pedro Santafé é cronista e analista político. Atualmente, encontra-se em busca de inspiração nas plagas de Dom Quixote de la Mancha.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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