Das mulheres ouvidas, 79% têm filhos; 52% dizem que a maternidade motiva a empreender; 42% chefiam a família; e 60% apontam a gestão do tempo como principal desafio.
Uma pesquisa realizada pelo Sebrae/PR com 650 mulheres empreendedoras de todas as regiões do Paraná revela que a maternidade tem papel central na forma como elas organizam e conduzem seus negócios. Realizado entre março e abril deste ano, o levantamento mostra uma rotina marcada pela conciliação entre gestão da empresa, cuidados com os filhos, responsabilidades domésticas e geração de renda, além de apontar os principais desafios enfrentados por mães que empreendem no Estado.
A consultora do Sebrae/PR Letícia Monteiro Pimentel, avalia que os dados evidenciam um desafio estrutural na conciliação entre maternidade e empreendedorismo. Na pesquisa, 60% das mães empreendedoras apontam a gestão do tempo como principal desafio, enquanto 42% se declaram as principais responsáveis pelos cuidados com os filhos.
Segundo Letícia, essa concentração de responsabilidades reduz o tempo disponível para atividades essenciais da gestão, como planejamento, capacitação, inovação e prospecção de clientes. “Isso não acontece por falta de capacidade ou competência, mas pela dificuldade de conciliar tantas responsabilidades. E esse cenário pode refletir até mesmo no faturamento dos negócios”, afirma.
Para a consultora, avançar em políticas públicas, ampliar o acesso à educação empreendedora e fortalecer redes de apoio são medidas importantes para que essas mulheres tenham mais condições de desenvolver seus negócios. A pesquisa também mostra que 13% das mães empreendedoras têm filhos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou outras necessidades específicas de cuidado, o que torna a rotina ainda mais desafiadora e exige maior planejamento no dia a dia.
Empreendedorismo materno
Na avaliação da consultora do Sebrae/PR, Fernanda Robes, os dados mostram como maternidade, autonomia e responsabilidade financeira se conectam na trajetória das mães empreendedoras. Segundo a pesquisa, 52% afirmam que a maternidade motiva a empreender, enquanto 71% já eram mães antes de abrir a empresa.
Para Fernanda, esses números indicam que o negócio passa a fazer parte da organização da vida familiar e da busca por renda, flexibilidade e independência.
“A maternidade aparece tanto como motivação para empreender quanto como parte da realidade que essas mulheres precisam conciliar todos os dias. Para muitas, o negócio representa autonomia, mas também uma forma de sustentar a família e organizar a rotina em torno dos filhos”, afirma.
As histórias de empreendedoras paranaenses ajudam a mostrar, na prática, como maternidade, trabalho, renda, cuidado e autonomia se cruzam na rotina de mulheres que empreendem.
Carreira redesenhada após a maternidade
Em Cascavel, no oeste do Paraná, a arquiteta Aline Rodrigues Silveira também repensou a trajetória profissional a partir da maternidade. Antes da chegada dos filhos, a rotina era intensa. Ela dividia os dias entre o trabalho em um escritório de arquitetura, aulas em uma universidade e viagens aos fins de semana para ministrar cursos de pós-graduação em diferentes capitais do Brasil.
Com o nascimento da filha Maria, Aline deixou as viagens e reduziu a carga de trabalho para acompanhar os primeiros anos da menina. Pouco tempo depois, com a chegada de João, percebeu que precisava de um modelo profissional mais flexível e alinhado à rotina familiar.
“Antes das crianças, eu era professora e trabalhava em um escritório. Durante o dia, ficava no escritório; à noite, dava aula em uma universidade; e, aos fins de semana, viajava para várias capitais do Brasil para ministrar aulas em uma pós-graduação. A primeira adaptação, ainda durante a gravidez, foi deixar as viagens por orientação médica”, relembra.
Após o nascimento de Maria, Aline manteve apenas parte das atividades profissionais. Quando João nasceu, cerca de dois anos depois, sair de casa à noite deixou de fazer sentido. Foi nesse momento que ela decidiu deixar também o escritório onde trabalhava e buscar alternativas que permitissem mais presença na criação dos filhos.
“Comecei a buscar alternativas que me permitissem ter mais flexibilidade para estar com eles”, conta.
Nesse processo, a arquiteta passou a desenvolver novos projetos. Criou workshops voltados a estudantes de Arquitetura, idealizou uma marca especializada em projetos infantis e aprofundou os estudos sobre quartos de bebê e educação montessoriana.
“Percebi que havia um nicho a ser explorado e que minha experiência como mãe faria toda a diferença”, afirma.
A busca por novos caminhos também aproximou Aline de outras mulheres empreendedoras. Juntas, organizaram a Feira da Mamãe Empreendedora, realizada em Cascavel, iniciativa que reuniu mães que conciliavam negócios e maternidade. No início de 2021, a arquiteta também passou por sociedades, atuou na área de consultoria empresarial e consolidou um modelo de trabalho que respeita tanto sua profissão quanto sua maternidade. Para ela, o principal desafio segue sendo a organização do tempo.
“A dificuldade é realmente conciliar o tempo entre as minhas duas funções principais. Tenho várias limitações de horário e, muitas vezes, preciso levá-los comigo para obras, lojas, reuniões ou para o escritório. Quando surge uma viagem ou um projeto que exige vários dias de dedicação, tudo precisa ser muito planejado”, relata.
Recomeço profissional com apoio da filha
Em Guarapuava, a história da empresária Jimara de Góes Wilke mudou a partir de um presente da filha mais velha. Depois de anos dedicados à família, ela recebeu da filha um curso de cabeleireira e encontrou um novo caminho profissional.
“Eu me casei e era muito difícil conciliar trabalho, estudos e a vida familiar. Deixei os estudos de lado. Minhas filhas cresceram e a mais velha me presenteou com um curso de cabeleireira. Em 2011, abri um CNPJ e comecei a atuar como cabeleireira e maquiadora. Eu ia até o local do atendimento e atendia noivas e debutantes”, relembra.
Em 2017, aos 42 anos, Jimara decidiu concluir o Ensino Médio. Depois, fez curso técnico em estética, graduação em terapias integrativas e pós-graduação em terapia capilar em tricologia. Com a nova formação, ampliou os serviços oferecidos e viu a clientela crescer. A expansão levou à necessidade de abrir um espaço próprio, e a primeira iniciativa foi buscar o Sebrae/PR.
Com o crescimento do Salão Jimara Wilke, em Guarapuava, a empreendedora voltou a buscar conhecimento. Em 2025, decidiu se afastar temporariamente da rotina intensa do salão para se capacitar. Participou de cursos da Vigilância Sanitária e de formação em panificação e produção de pães artesanais promovidos pela Prefeitura. O objetivo foi agregar um diferencial ao atendimento personalizado.
“Eu produzo pães, bolos e ofereço café e capuccino, todo o sábado, às clientes. Quero que elas se sintam acolhidas aqui”, comenta.
Apoio para crescer
Apesar dos desafios apontados pela pesquisa, a consultora Letícia Pimentel observa que há avanços importantes na trajetória das mães empreendedoras.
“Elas estão empreendendo mais. Muitas ainda estão em negócios informais, mas buscam se regularizar, ocupam mais espaços de liderança e passam a enxergar o negócio como fonte de renda, independência e autonomia financeira para elas e suas famílias”, afirma.
Para sustentar esse crescimento, Letícia avalia que o apoio às mães empreendedoras precisa ir além do acesso ao crédito. O levantamento mostra que 25% delas apontam o financiamento em condições especiais como o principal fator de apoio à jornada, mas também aparecem demandas como apoio psicológico, capacitações flexíveis, serviços de cuidado infantil e grupos de apoio entre mães e empreendedoras. A pesquisa reforça que o fortalecimento desses negócios depende de soluções que tragam mais previsibilidade, estabilidade, equilíbrio emocional e otimização do tempo.
Na prática, segundo a consultora, isso passa por ajustar horários, formatos de atendimento e canais de venda para construir uma rotina mais flexível e sustentável; reorganizar processos, tarefas e prioridades para reduzir sobrecarga; estabelecer limites operacionais mais claros; fortalecer redes de apoio pessoais e profissionais; buscar capacitações compatíveis com a rotina; e estruturar o planejamento financeiro, com reservas, metas e controle mais eficiente.
“É uma combinação de crédito, conhecimento, organização e rede de apoio. Quando a empreendedora consegue olhar para esses pontos de forma integrada, aumentam as chances de crescimento do negócio sem ampliar ainda mais a sobrecarga”, completa.
A pesquisa também mostra que apoio psicológico, capacitações flexíveis, serviços de cuidado infantil e grupos de apoio estão entre as demandas das mães empreendedoras para fortalecer a rotina e a gestão dos negócios. A pesquisa completa pode ser acessada no portal Impulsiona, do Sebrae/PR: https://sebraepr.com.br/impulsiona/pesquisa-maes-empreendedoras-2026/.
(*) Na foto em destaque, a arquiteta Aline Rodrigues Silveira, que redesenhou a carreira após a maternidade e criou um modelo de trabalho mais flexível, voltado à arquitetura, projetos infantis e consultorias.








