Por Marcelo Santoro Almeida –
A porta se fecha com um ruído seco. Do lado de fora, tudo parece normal. Dentro de casa, porém, o silêncio não significa paz. Significa medo. Há mais de três décadas atuando no Direito das Famílias, aprendi que uma sala de audiência nunca recebe apenas processos. Recebe histórias que começaram muito antes da primeira petição: mulheres isoladas, humilhadas, ameaçadas e financeiramente controladas; filhos que aprenderam a reconhecer, pelo tom de voz dos pais, quando devem desaparecer para o quarto; famílias inteiras que demoraram anos para compreender que aquilo não era uma “briga de casal”, mas violência.
A ficção tem conseguido reproduzir essa realidade com desconcertante precisão. Na novela Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos, a professora Raquel, interpretada por Helena Ranaldi, revelou ao grande público a violência escondida sob uma aparência de normalidade. A raquete de tênis usada por Marcos para agredi-la tornou-se um símbolo de como objetos comuns podem participar do terror doméstico. Em É Assim que Termina, Colleen Hoover expôs o dilema de uma mulher que vê o homem que ama transformar-se em seu agressor. Bom Dia, Verônica, de Raphael Montes e Ilana Casoy, mostrou o cativeiro psicológico vivido por Janete diante de um marido manipulador e violento. Muito antes deles, Alice Walker, em A Cor Púrpura, já havia registrado como a violência patriarcal atravessa gerações e ensina mulheres a confundir sobrevivência com resignação.
Essas obras incomodam porque reconhecemos nelas algo verdadeiro. A ficção não inventou a violência doméstica. Apenas lhe deu rosto, voz e iluminação. Mas existe uma diferença decisiva: na ficção, os créditos sobem, o livro termina e o público pode respirar. Na vida real, o agressor permanece dentro de casa.
A violência não começa com o primeiro golpe
Nenhuma mulher inicia um relacionamento imaginando que será agredida. A violência doméstica raramente começa com uma bofetada. Ela se instala aos poucos, quase sempre disfarçada de amor, proteção ou ciúme. Primeiro, o agressor questiona as amizades. Depois, critica a família. Em seguida, controla as roupas, os horários, o telefone e o dinheiro. A mulher passa a pedir autorização para decisões que antes tomava sozinha. Suas conquistas são diminuídas, sua percepção é contestada e sua autoestima, cuidadosamente desfeita. Quando surge a agressão física, grande parte da arquitetura da violência já está construída.
Depois da explosão, vêm o arrependimento, as lágrimas, os presentes e as promessas. O agressor afirma que perdeu o controle, que nunca mais acontecerá e, muitas vezes, responsabiliza a própria vítima: “Você sabe como me provocar”. É a conhecida fase da “lua de mel”. Ela não encerra o ciclo. Apenas o reinicia. Por isso, perguntar “por que ela não vai embora?” é formular a pergunta errada. A questão deveria ser: que obstáculos emocionais, econômicos, familiares e institucionais impedem essa mulher de sair em segurança? Não se trata de fraqueza. Trata-se de um processo de aprisionamento psicológico, frequentemente acompanhado de dependência financeira, medo de perder os filhos, vergonha, ameaça de morte e ausência de uma rede de apoio.
Os números por trás das portas fechadas
Os dados mais recentes confirmam a dimensão do problema. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 com os registros de 2025, aponta novo crescimento dos feminicídios no país. Foram 1.571 mulheres assassinadas em razão de gênero, média de 4,3 vítimas por dia. No mesmo período, houve 4.189 tentativas de feminicídio. A maioria dos autores desses crimes era composta por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. O aumento ocorreu justamente em um ano no qual o Brasil registrou a menor taxa geral de mortes violentas desde 2012 — sinal de que a melhora dos indicadores de segurança não alcançou as mulheres da mesma forma.
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher de 2025, realizada pelo Instituto DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência, com mais de 21 mil entrevistadas de todas as unidades da Federação, mostra que 27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar praticada por um homem ao longo da vida.
Quando a pesquisa apresenta 19 situações concretas de violência — física, psicológica, moral, sexual, patrimonial e digital —, 34% das entrevistadas reconhecem ter vivenciado ao menos uma delas nos 12 meses anteriores ao levantamento. Outro dado merece especial atenção: entre as mulheres que solicitaram medida protetiva, quase metade relatou o descumprimento da determinação. A medida judicial é indispensável, mas o papel que a concede não pode ser mais rápido que o Estado encarregado de fiscalizá-la.
Esses números não são abstrações. São mulheres que tinham nome, profissão, planos e pessoas que as amavam. São crianças que perderam suas mães e, não raras vezes, tiveram seus próprios pais como autores do crime.
Quando a violência chega ao Judiciário
A Lei Maria da Penha representou uma ruptura histórica ao reconhecer que a violência doméstica não é um assunto privado. Mais recentemente, o feminicídio passou a ser tratado como crime autônomo, com penas mais rigorosas. A legislação brasileira avançou. A realidade, contudo, insiste em correr na direção contrária.
Na prática forense, ainda encontramos tentativas de reduzir a violência a um “conflito conjugal”. Não são situações equivalentes. Conflito pressupõe pessoas em posições minimamente semelhantes, ainda que discordem. Violência pressupõe domínio, medo e desigualdade de poder. Quando uma parte controla o dinheiro, vigia o telefone, ameaça retirar os filhos ou faz a outra temer pela própria vida, não existe uma mera desavença familiar.
Também é necessário reconhecer que a violência continua depois da separação. Ela pode reaparecer na retenção indevida de documentos, na recusa de alimentos, no uso dos filhos como instrumentos de perseguição, na multiplicação de processos ou no descumprimento deliberado de decisões judiciais. O fim da convivência nem sempre representa o fim da violência. Em determinados casos, representa seu momento de maior risco.
Por isso, a atuação do Estado precisa ser rápida, integrada e capaz de enxergar a história completa. Polícia, Ministério Público, Defensoria Pública, advocacia, Judiciário, saúde e assistência social não podem funcionar como ilhas diante de uma mulher que corre contra o tempo.
A colher que salva
Durante décadas, repetimos que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Poucas frases causaram tanto dano com tão poucas palavras. Violência doméstica não é uma briga privada. É violação de direitos humanos, problema de saúde pública e crime. A omissão não preserva a família. Preserva o agressor. Quem percebe sinais de violência em uma mulher próxima não deve julgá-la, pressioná-la ou exigir que tome imediatamente decisões para as quais talvez ainda não esteja preparada. Deve ouvir, acreditar, oferecer ajuda concreta e auxiliá-la a construir uma saída segura.
O Ligue 180 funciona gratuitamente, 24 horas por dia, inclusive aos sábados, domingos e feriados, para fornecer informações, orientar mulheres em situação de violência e registrar denúncias. O serviço pode ser procurado pela própria vítima ou por qualquer pessoa que queira denunciar. O contato também pode ser feito pelo WhatsApp, no número (61) 9610-0180. Em situações de agressão em curso ou risco imediato, deve-se acionar a Polícia Militar pelo 190.
A literatura, o cinema e a televisão cumprem uma função indispensável ao iluminar aquilo que tantas famílias tentam esconder. Mas, fora da ficção, não haverá roteirista para criar um final redentor no último capítulo. O desfecho dependerá da mulher que encontra forças para pedir ajuda, da pessoa que decide acreditar nela, e do Estado, que precisa chegar antes do agressor.
Quando os créditos sobem, a violência real não termina. Por isso, se atrás da porta do seu vizinho o silêncio parece esconder medo, não espere o último capítulo. Na ficção, o silêncio cria suspense. Na vida real, ele pode anteceder um feminicídio. Rompê-lo não é invadir a intimidade de uma família. É impedir que uma mulher se transforme em apenas mais um número no próximo anuário.
O silêncio no salão e o sangue na sala: Quando a ficção termina, a violência continua dentro dos lares brasileiros
Por Marcelo Santoro Almeida, mestre e doutor em Direito e professor de Direito das Famílias e Sucessões da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio
A porta se fecha com um ruído seco. Do lado de fora, tudo parece normal. Dentro de casa, porém, o silêncio não significa paz. Significa medo. Há mais de três décadas atuando no Direito das Famílias, aprendi que uma sala de audiência nunca recebe apenas processos. Recebe histórias que começaram muito antes da primeira petição: mulheres isoladas, humilhadas, ameaçadas e financeiramente controladas; filhos que aprenderam a reconhecer, pelo tom de voz dos pais, quando devem desaparecer para o quarto; famílias inteiras que demoraram anos para compreender que aquilo não era uma “briga de casal”, mas violência.
A ficção tem conseguido reproduzir essa realidade com desconcertante precisão. Na novela Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos, a professora Raquel, interpretada por Helena Ranaldi, revelou ao grande público a violência escondida sob uma aparência de normalidade. A raquete de tênis usada por Marcos para agredi-la tornou-se um símbolo de como objetos comuns podem participar do terror doméstico. Em É Assim que Termina, Colleen Hoover expôs o dilema de uma mulher que vê o homem que ama transformar-se em seu agressor. Bom Dia, Verônica, de Raphael Montes e Ilana Casoy, mostrou o cativeiro psicológico vivido por Janete diante de um marido manipulador e violento. Muito antes deles, Alice Walker, em A Cor Púrpura, já havia registrado como a violência patriarcal atravessa gerações e ensina mulheres a confundir sobrevivência com resignação.
Essas obras incomodam porque reconhecemos nelas algo verdadeiro. A ficção não inventou a violência doméstica. Apenas lhe deu rosto, voz e iluminação. Mas existe uma diferença decisiva: na ficção, os créditos sobem, o livro termina e o público pode respirar. Na vida real, o agressor permanece dentro de casa.
A violência não começa com o primeiro golpe
Nenhuma mulher inicia um relacionamento imaginando que será agredida. A violência doméstica raramente começa com uma bofetada. Ela se instala aos poucos, quase sempre disfarçada de amor, proteção ou ciúme. Primeiro, o agressor questiona as amizades. Depois, critica a família. Em seguida, controla as roupas, os horários, o telefone e o dinheiro. A mulher passa a pedir autorização para decisões que antes tomava sozinha. Suas conquistas são diminuídas, sua percepção é contestada e sua autoestima, cuidadosamente desfeita. Quando surge a agressão física, grande parte da arquitetura da violência já está construída.
Depois da explosão, vêm o arrependimento, as lágrimas, os presentes e as promessas. O agressor afirma que perdeu o controle, que nunca mais acontecerá e, muitas vezes, responsabiliza a própria vítima: “Você sabe como me provocar”. É a conhecida fase da “lua de mel”. Ela não encerra o ciclo. Apenas o reinicia. Por isso, perguntar “por que ela não vai embora?” é formular a pergunta errada. A questão deveria ser: que obstáculos emocionais, econômicos, familiares e institucionais impedem essa mulher de sair em segurança? Não se trata de fraqueza. Trata-se de um processo de aprisionamento psicológico, frequentemente acompanhado de dependência financeira, medo de perder os filhos, vergonha, ameaça de morte e ausência de uma rede de apoio.
Os números por trás das portas fechadas
Os dados mais recentes confirmam a dimensão do problema. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026 com os registros de 2025, aponta novo crescimento dos feminicídios no país. Foram 1.571 mulheres assassinadas em razão de gênero, média de 4,3 vítimas por dia. No mesmo período, houve 4.189 tentativas de feminicídio. A maioria dos autores desses crimes era composta por companheiros ou ex-companheiros das vítimas. O aumento ocorreu justamente em um ano no qual o Brasil registrou a menor taxa geral de mortes violentas desde 2012 — sinal de que a melhora dos indicadores de segurança não alcançou as mulheres da mesma forma.
A Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher de 2025, realizada pelo Instituto DataSenado e pelo Observatório da Mulher contra a Violência, com mais de 21 mil entrevistadas de todas as unidades da Federação, mostra que 27% das brasileiras já sofreram violência doméstica ou familiar praticada por um homem ao longo da vida.
Quando a pesquisa apresenta 19 situações concretas de violência — física, psicológica, moral, sexual, patrimonial e digital —, 34% das entrevistadas reconhecem ter vivenciado ao menos uma delas nos 12 meses anteriores ao levantamento. Outro dado merece especial atenção: entre as mulheres que solicitaram medida protetiva, quase metade relatou o descumprimento da determinação. A medida judicial é indispensável, mas o papel que a concede não pode ser mais rápido que o Estado encarregado de fiscalizá-la.
Esses números não são abstrações. São mulheres que tinham nome, profissão, planos e pessoas que as amavam. São crianças que perderam suas mães e, não raras vezes, tiveram seus próprios pais como autores do crime.
Quando a violência chega ao Judiciário
A Lei Maria da Penha representou uma ruptura histórica ao reconhecer que a violência doméstica não é um assunto privado. Mais recentemente, o feminicídio passou a ser tratado como crime autônomo, com penas mais rigorosas. A legislação brasileira avançou. A realidade, contudo, insiste em correr na direção contrária.
Na prática forense, ainda encontramos tentativas de reduzir a violência a um “conflito conjugal”. Não são situações equivalentes. Conflito pressupõe pessoas em posições minimamente semelhantes, ainda que discordem. Violência pressupõe domínio, medo e desigualdade de poder. Quando uma parte controla o dinheiro, vigia o telefone, ameaça retirar os filhos ou faz a outra temer pela própria vida, não existe uma mera desavença familiar.
Também é necessário reconhecer que a violência continua depois da separação. Ela pode reaparecer na retenção indevida de documentos, na recusa de alimentos, no uso dos filhos como instrumentos de perseguição, na multiplicação de processos ou no descumprimento deliberado de decisões judiciais. O fim da convivência nem sempre representa o fim da violência. Em determinados casos, representa seu momento de maior risco.
Por isso, a atuação do Estado precisa ser rápida, integrada e capaz de enxergar a história completa. Polícia, Ministério Público, Defensoria Pública, advocacia, Judiciário, saúde e assistência social não podem funcionar como ilhas diante de uma mulher que corre contra o tempo.
A colher que salva
Durante décadas, repetimos que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Poucas frases causaram tanto dano com tão poucas palavras. Violência doméstica não é uma briga privada. É violação de direitos humanos, problema de saúde pública e crime. A omissão não preserva a família. Preserva o agressor. Quem percebe sinais de violência em uma mulher próxima não deve julgá-la, pressioná-la ou exigir que tome imediatamente decisões para as quais talvez ainda não esteja preparada. Deve ouvir, acreditar, oferecer ajuda concreta e auxiliá-la a construir uma saída segura.
O Ligue 180 funciona gratuitamente, 24 horas por dia, inclusive aos sábados, domingos e feriados, para fornecer informações, orientar mulheres em situação de violência e registrar denúncias. O serviço pode ser procurado pela própria vítima ou por qualquer pessoa que queira denunciar. O contato também pode ser feito pelo WhatsApp, no número (61) 9610-0180. Em situações de agressão em curso ou risco imediato, deve-se acionar a Polícia Militar pelo 190.
A literatura, o cinema e a televisão cumprem uma função indispensável ao iluminar aquilo que tantas famílias tentam esconder. Mas, fora da ficção, não haverá roteirista para criar um final redentor no último capítulo. O desfecho dependerá da mulher que encontra forças para pedir ajuda, da pessoa que decide acreditar nela, e do Estado, que precisa chegar antes do agressor.
Quando os créditos sobem, a violência real não termina. Por isso, se atrás da porta do seu vizinho o silêncio parece esconder medo, não espere o último capítulo. Na ficção, o silêncio cria suspense. Na vida real, ele pode anteceder um feminicídio. Rompê-lo não é invadir a intimidade de uma família. É impedir que uma mulher se transforme em apenas mais um número no próximo anuário.
(*) Marcelo Santoro Almeida é mestre e doutor em Direito e professor de Direito das Famílias e Sucessões da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio.





