Vênus Platinada estende tapete e cede os holofotes para filhote bastardo do bolsonarismo

Gaudêncio Penaforte

A entrevista realizada pelos apresentadores do JN, César Tralli e Renata Vasconcellos, com o candidato do PL à presidência da República nesta sexta-feira (28) — encerrando o ciclo de sabatinas com os candidatos melhor posicionados nas pesquisas de intenção de voto — foi reminiscente da infame edição do debate de 1989, aquela que pavimentou a vitória de Fernando Collor de Mello. A diferença é que, desta feita, a marmelada tóxica foi servida ao vivo, sem cortes, sem edição, na cara dura.

A Vênus Platinada do Jardim Botânico estendeu o tapete e cedeu os holofotes para o filho bastardo de um golpista condenado a 27 anos e três meses de prisão tergiversar e atacar seu adversário durante 40 minutos, sem sair do script, com a complacência de seus entrevistadores. Bem diferente da inquirição de delegacia de polícia a que Lula foi implacavelmente submetido na véspera.

 Flávio Bolsonaro se comportou como um potro chucro numa manhã de rodeio crioulo. Cada vez que os domadores se aproximavam com a cabreiada, tentando lhe passar a cabreada e encilhá-lo, ele saía troteando, gineteando, relaxando em desabalada carreira pela invernada afora. O bagual foi ganhando confiança diante do maneio frouxo dos peões que o cercavam, e passou a desferir coices ao menor movimento em sua direção — o que intimidou os já cansados Tralli e Renata.

O que se viu não foi sabatina: foi rodeio de araque, em que os papéis se inverteram e o animal terminou laçando o laçador. A audiência foi tratada como um imenso jardim de infância: estórias da carrocinha foram sendo contadas sem que o contador fosse interrompido. A cada pergunta incômoda, uma narrativa fantasiosa digna dos contos de Mil e Uma Noites — só que sem o encanto, e com o sotaque arrastado de quem já ensaiou a resposta na sala do marqueteiro.

Os entrevistadores abdicaram de fazer as analogias e associações mais óbvias, tão evidentes que chegam a soar ofensivas à inteligência do brasileiro e da brasileira medianamente informados. Como deixar passar batido o bordão repetido ad nauseam pelo entrevistado — de que a bolada de mais de R$ 100 milhões do Banco Master para a Famiglia Bolsonaro não envolvia recursos públicos? Vamos desenhar aqui na porteira, então, já que ninguém desenhou no platô: está comprovado e documentado que o governo de Cláudio Castro, no Rio de Janeiro, aliado histórico dos Bolsonaro, desviou cerca de R$ 3 bilhões do fundo de pensão dos servidores aposentados do estado para os cofres do Banco Master. Essa foi a porteira aberta que deu passagem à mesada milionária paga aos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro pelo banqueiro Daniel Vorcaro — uma fatia do Everest de propina tocada por Cláudio Castro.

Não é preciso ser um Sherlock Holmes campeiro para desenrolar essa tramoia com um puxão só de guasca. É tão escancarada a ligação entre a propina travestida de patrocínio de um filme B chamado “Dark Horse” e os R$ 3 bilhões desviados do fundo de aposentados e pensionistas fluminenses que chega a doer nos olhos. Elementar, meu caro Watson — só que Tralli e Renata Vasconcellos não tiveram estofo, ou não quiseram ter, para confrontar o entrevistado com essa pergunta. Há que se reconhecer, com a justiça que se deve até ao adversário mais nefasto: quem começou amealhando fortuna com rachadinha, apropriando-se do salário de servidores fantasmas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, depois passou pela lavagem de dinheiro em lojinha de chocolate de shopping, e hoje já milita na liga das máfias mais sofisticadas, articulando um propinoduto que conecta o governo Cláudio Castro, o Banco Master e a produtora do “Dark Horse” — esse sujeito percorreu, em pouco mais de vinte anos, todo o tranco do gado bandido, do bezerro desgarrado ao touro de arrasta-pé.

As mentiras escarradas ao vivo no platô do JN por Flávio Bolsonaro são um escárnio à inteligência nacional. E ficaram sem resposta, sem contestação, sem sequer um esporeamento mais firme dos entrevistadores. A que conclusão devemos chegar, então, depois de mais essa noite de campereada frustrada? Que mais uma vez a Globo presta um desserviço à democracia, dando trela — “enabling”, como dizem agora os pilchados de internacional — a um potro chucro e despreparado para atravessar a sanga de uma carreira política de mais de duas décadas, marcada passo a passo, cargo a cargo, pela corrupção, como membro ativo de uma organização criminosa familiar, e sair do outro lado da água faceiro, encilhado e apresentável como candidato viável da extrema-direita. A história, dizem, se repete como farsa. Mas farsa repetida também mata, e mata na urna. Só uma cidadania mobilizada e desconfiada da encenação pode evitar o desastre iminente de uma vitória de Flávio Bolsonaro. Ontem à noite, no seu próprio palco, a Globo deu um empurrão e tanto ao candidato, bem na reta final do rodeio. Gaudêncio Penaforte é analista político e ginete aposentado com larga experiência campeando gado nos pampas rio-grandenses.

Galdêncio Penaforte é jornalista e analista político

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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