Em discurso na ONU, Lula diz que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”

Como tem sido tradição, representante brasileiro faz a fala de abertura; presidente voltou a falar de soberania e criticou “ingerências” na Venezuela, Nicarágua, Haiti e Cuba.

No discurso na cerimônia de abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, nesta terça-feira (22) em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva retomou a agenda de defesa da soberania dos países, citando especificamente os cenários da América Latina e do Brasil, onde, segundo o presidente, há tentativas de influência estrangeira sobre processos políticos nacionais.Disse que a região da América Latina e do Caribe convive com pressões decorrentes da proximidade com grandes potências.

Além de dirigir mensagem ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sem citá-lo nominalmente, não perdeu a oportunidade de explorar o tom de campanha, voltado para o Brasil para colher eventuais dividendos eleitorais. Lula iniciou o discurso defendendo a reforma das Nações Unidas, em particular do Conselho de Segurança. O presidente associou o aumento do número de conflitos armados, a corrida armamentista e as tensões geopolíticas a uma crise de liderança e destacou a necessidade de maior articulação entre os países que integram o Conselho.

Ao abordar a atuação das Nações Unidas, Lula fez um balanço das contribuições da organização desde sua criação, citando a descolonização, a promoção dos direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a proteção de migrantes e refugiados e o combate ao racismo, ao antissemitismo e à intolerância religiosa. O presidente também mencionou mudanças recentes promovidas no âmbito da ONU, como o reconhecimento do tráfico de africanos escravizados como grave crime contra a humanidade e a aprovação de uma representação mais precisa do mapa-múndi.

Falando sobre soberania

“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais, a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais com recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos”, disse, citando contextos recentes registrados na Venezuela, na Nicarágua, no Haiti e em Cuba.

Ainda em sia fala, o presidente destacou que a região percorreu um longo caminho para consolidar regimes democráticos após períodos de ditadura e autoritarismo. Nesse contexto, ele defendeu maior integração regional e o respeito à autodeterminação dos povos. “Precisamos de parceiros com uma agenda positiva que fomente o desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculo para uma maior integração entre vizinhos. Os países da região reconheceram os horrores dos regimes de exceção. Percorremos um longo caminho para restaurar a vontade popular”, reforçou.

Lula também alertou para o que classificou como retorno de práticas incompatíveis com a ordem internacional contemporânea. “A democracia está novamente em xeque. O mundo voltou a assistir à ingerência externa em processos eleitorais, à divisão de países em zonas de influência e a investidas neocoloniais” em busca de recursos estratégicos”. Ao nomear países da região, o presidente afirmou que cada povo deve definir seu próprio caminho., refe3rindo que o povo venezuelano deve decidir seu destino sem interferências externas, enquanto a Nicarágua não solucionará seus problemas impedindo a participação da oposição nas eleições. Citou, também, a crise humanitária no Haiti e voltou a criticar o embargo econômico imposto a Cuba.

Campanha eleitoral e desinformação

Lula também citou a atuação de redes de desinformação durante campanhas eleitorais e afirmou que o Estado brasileiro estará atento a possíveis tentativas de interferência. “Não subestimamos o desafio das redes de desinformação que pretendem contaminar o debate público durante a campanha. Também não permitiremos que os inimigos da democracia, internos ou externos, atentem contra a vontade popular. O Brasil continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho”.

O presidente falou ainda os perigos das chamadas fake news, sobretudo no que diz respeito aos achados científicos em temas como saúde e meio ambiente. “Na era da desinformação, os obscurantistas resistem às evidências da ciência”, disse, ao defender o combate ao negacionismo. Nunca esqueceremos das milhões de vidas perdidas pelo descaso no enfrentamento à covid-19. Campanhas contra vacinas estão trazendo de volta doenças que julgávamos estar erradicadas. Enfraquecer a Organização Mundial da Saúde (OMS) torna todos mais vulneráveis. Até pouco tempo, a reposta à mudança do clima estava consolidada no centro da agenda internacional. Este ano, o tema desapareceu dos debates do G7 e do G20, fóruns que reúnem os maiores emissores de carbono do mundo. É hora de retomar a ofensiva e impor uma derrota ao negacionismo.”

Segurança pública e crime organizado

Ao tratar da segurança pública, Lula rejeitou a participação de forças estrangeiras no combate ao crime organizado em território nacional e defendeu a cooperação internacional em áreas específicas, como o combate ao tráfico de armas e à lavagem de dinheiro. “Não vamos transferir a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, afirmou.

O presidente acrescentou que o enfrentamento ao crime deve ocorrer por meio da cooperação entre governos, e não por ações militares externas. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas; precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado”, disse, acrescentando que o Brasil apresentou aos Estados Unidos proposta de cooperação para combater a lavagem de dinheiro realizada por criminosos brasileiros no exterior. Asseverou, ainda, que o país vem fortalecendo a coordenação entre os estados e ampliando as ações de combate às organizações criminosas.

Abordagem de Lula à parte, nada menos do que 14 países incluíram a proposição de Trump de reconhecer o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas.

(*) Com informações da Agência Brasil.

Presidente Lula, na abertura da Conferência da ONU, em Nova York.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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