A juventude acordou. E depois das urnas?

Uma democracia que depende de uma arrancada de última hora a cada eleição vive com a corda no pescoço. A juventude depois das urnas é quem dirá…

E ae, vô! Tudo bem? Foi na passeata? Massa, né vô…Essas foram as primeiras palavras dirigidas a mim pelos meus dois netos – 18 e 21 anos, ainda na faculdade – quando fui visitá-los, após o término do despertar da juventude curitibana que saiu da Praça Santos Andrades e tomou as ruas de Curitiba, num dos movimentos mais emocionantes dos últimos anos, ou depois dos “Diretas, Já”. Sacudi a cabeça afirmando positivo. Estamparam um sorriso emocionante.

Percebi, naquele e em outros dias, que jovens parecem ter trocado o desencanto pela disposição de participar. Ao longo da passeata, vi eles levando cartazes, músicas, irreverência e uma inquietação que começa a encontrar voz coletiva. É como se percebessem que o futuro pode ser decidido à sua revelia — e resolvessem chegar antes que fechem a porta.

Politicamente dividida

Perguntei ao neto mais novo, estudante de sociologia na PUC. Por que você foi na passeata? Oras, vô… fui defender a democracia e dar minha contribuição, pela minha voz, para expor nossa dificuldade de conseguir emprego, na universidade ameaçada e na liberdade de existir. Para mim foi o suficiente, pois não falou em fascismo, anarquismo ou qualquer outro tipo de ismo, para não dizer extremismo, mas foi o suficiente para descartar a arrogância e a prepotência da direita brasileira.

A juventude também é diversa, desigual e politicamente dividida. Seu vigor democrático estará justamente na capacidade de ampliar o diálogo e alcançar quem trabalha o dia inteiro, enfrenta horas de ônibus e raramente encontra espaço para participar.

O grande teste das urnas

O grande teste virá depois das urnas. Será preciso transformar entusiasmo em presença, cobrar compromissos de quem vencer e enfrentar retrocessos pelos caminhos democráticos. Nenhum governo deve receber um cheque em branco; nenhum parlamentar deveria contar com o esquecimento dos eleitores.

Há jovens descobrindo que a democracia precisa deles também quando termina a campanha. Os donos do poder costumam apostar no cansaço das ruas. Uma juventude que permanece organizada pode atrapalhar bastante essa confortável previsão.

Passados alguns dias, uma colega jornalista me sugere um artigo especial sobre o que essa mobilização representa ou como transformar o vigor da mobilização popular deste segundo turno em força política duradoura. Como manter esse povo organizado diante de um eventual governo bolsonarista, quando as bandeiras forem recolhidas e o entusiasmo das ruas enfrentar o desgaste dos dias? Como pressionar o Congresso e barrar, pelos caminhos democráticos, retrocessos patrocinados por uma maioria conservadora?

E, se a esquerda permanecer no governo, como sustentá-la diante da perda de espaço e poder, sem abrir mão de cobrar seus compromissos? Que energia coletiva poderá enfrentar tentativas de impeachment sem fundamento, chantagens parlamentares e acordos que fazem do interesse público uma moeda de troca?

E depois das urnas?

Marisa! O pessimismo também projeta o futuro. E nos obriga a perguntar o que restará desta mobilização depois das urnas. A indignação reúne multidões, mas precisa de organização, presença nos bairros, sindicatos, universidades e movimentos sociais para atravessar os anos.

Talvez uma das grandes lições desta campanha seja esta: fomos chamados a combater a barbárie enquanto tentávamos construir outro caminho. Esse caminho ainda não está pronto. Faltam um projeto compartilhado, vínculos permanentes e razões concretas para que a esperança sobreviva à campanha.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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