Mel de Capanema conquista Indicação Geográfica e valoriza a identidade paranaense

Reconhecimento concedido pelo INPI destaca características únicas do produto, fortalece a apicultura regional e eleva para 29 o número de Indicações Geográficas do Paraná.

O Mel de Capanema, produzido no sudoeste do Paraná, conquistou, nesta terça-feira (20), o registro de Indicação Geográfica (IG), na modalidade Denominação de Origem (DO), concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O reconhecimento valoriza as características singulares do produto, como a coloração clara e o sabor suave, diretamente relacionadas às condições naturais da região, à diversidade de floradas nativas e ao conhecimento dos apicultores. Com a conquista, o Paraná chega a 29 Indicações Geográficas.

O registro, identificado pelo número BR412025000004-3, reconhece a relação entre as características do mel e seu território de origem. O pedido foi protocolado em março de 2025 pela Associação dos Apicultores de Capanema e Região (Apic). Com a concessão, os produtores da área delimitada poderão utilizar o selo da IG em seus produtos, desde que atendam às exigências técnicas e estejam sujeitos ao controle do conselho regulador.

A trajetória até o reconhecimento ganhou força em 2018, com ações da Prefeitura de Capanema e do Sebrae/PR voltadas à profissionalização da apicultura. Desde então, os produtores avançaram em assistência técnica, boas práticas de produção, organização coletiva e rastreabilidade. A criação da Apic, o desenvolvimento da marca coletiva Parque Iguassu e a realização de pesquisas científicas também fizeram parte desse processo.

Uma das etapas para a obtenção da IG é o diagnóstico técnico de potencialidade, realizado com o apoio do Sebrae/PR, que avalia a relação do produto com o território, a organização dos produtores e as características que o diferenciam. Esse levantamento ajuda a identificar os elementos que conferem identidade à produção local e orienta as ações necessárias para buscar o reconhecimento.

No caso do Mel de Capanema, estudos conduzidos pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Dois Vizinhos, contribuíram para demonstrar a influência das floradas nativas, especialmente de cambará e louro-branco, e das condições naturais da região, próxima ao Parque Nacional do Iguaçu, nas características do produto. As práticas tradicionais de manejo, colheita e beneficiamento adotadas pelos apicultores também contribuem para preservar essas características. As pesquisas ajudaram a fundamentar o pedido de Denominação de Origem, modalidade que exige a comprovação do vínculo entre as qualidades do produto e o meio geográfico.

“A conquista da IG é uma marca histórica para nós. Este reconhecimento valoriza não apenas a qualidade e a origem dos nossos produtos, mas também toda a tradição, o saber-fazer e o trabalho de muitas famílias conectadas com o campo”, afirma o presidente da Apic, Cleiton Cesar Lagemann.

Para a consultora do Sebrae/PR, Alyne Chicocki, o reconhecimento representa uma oportunidade para transformar os diferenciais do território em vantagens competitivas para os produtores.

“Esse reconhecimento valoriza uma combinação muito especial: a diversidade de floradas de Capanema, as condições naturais da região e o conhecimento e o cuidado dos apicultores. É desse conjunto que vêm as características que tornam nosso mel tão especial. A conquista é resultado de um trabalho coletivo entre produtores e instituições parceiras e abre novas oportunidades para ampliar a visibilidade do produto, conquistar mercados e gerar mais renda para as famílias produtoras”, destaca Alyne.

Valorização e novos mercados

A Apic reúne 25 produtores e registra uma produção anual de mais de 60 toneladas de mel. No município, a atividade envolve mais de 130 apicultores, distribuídos por diferentes comunidades rurais, e representa uma importante fonte de renda para pequenas propriedades familiares, segundo o INPI. Entre os associados está Ezequiel Balzan, que vê na conquista novas oportunidades para toda a cadeia produtiva.

“A IG é resultado de um trabalho coletivo. Além de valorizar a qualidade e a origem do nosso mel, esse reconhecimento destaca a importância da apicultura para o meio ambiente. É uma conquista que beneficia toda a cadeia produtiva, fortalece a nossa região e nos traz uma infinidade de novas possibilidades”, comenta Ezequiel.

Para a apicultora Adrieli Possatto, a conquista marca uma nova etapa, com expectativas de maior valorização e ampliação da presença do mel em outros mercados.

“Acreditamos que será um divisor de águas na comercialização e na divulgação dos nossos produtos para outras regiões, trazendo ainda mais visibilidade do município como uma referência na produção da apicultura e na meliponicultura”, pontua a produtora.

Pesquisa e união

A conquista da IG envolveu a articulação entre apicultores e diferentes instituições, como o Sebrae/PR, a Prefeitura de Capanema, a Cresol, o Instituto Federal do Paraná (IFPR – Campus Capanema), o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR) e a UTFPR. Para o gerente regional do Sebrae/PR, Cesar Giovani Colini, o resultado evidencia a importância da atuação conjunta para valorizar as vocações e os diferenciais do território.

“O reconhecimento da IG do Mel de Capanema, especialmente na modalidade de Denominação de Origem, é motivo de orgulho para todo o território. Esse resultado traduz um trabalho coletivo, pesquisa científica e demonstra como a valorização dos territórios pode gerar oportunidades de mercado”, enfatiza Cesar.

Além da organização dos produtores, a pesquisa científica teve papel fundamental na comprovação das características que diferenciam o Mel de Capanema. Os estudos ajudaram a demonstrar a influência do território sobre o produto, um dos requisitos para a obtenção da Denominação de Origem.

Uma das responsáveis pelos estudos, a professora Milene Oliveira Pereira, da UTFPR – campus Dois Vizinhos, explica que a combinação entre os fatores naturais e o trabalho dos produtores contribui para a singularidade do mel.

“O Mel de Capanema é um produto único pela identidade dos produtores de mel locais com o Parque e com o Rio Iguaçu. São propriedades inseridas em um terroir (termo em francês que resume a relação entre clima, relevo, temperatura, umidade e solo de um determinado lugar) único, com bioma característico de Mata Atlântica, rico em fauna e flora”, pontua Milene.

Paraná é líder

Com a conquista do Mel de Capanema, o Brasil passa a contar com 172 IGs nacionais, das quais 29 estão no Paraná, estado com o maior número de registros. No País são 137 Indicações de Procedência (IP) e 35 Denominações de Origem (DO).

No estado, agora com o Mel de Capanema, já são reconhecidas as cervejas artesanais de Guarapuava, o pão no bafo de Palmeira; o couro de peixe de Pontal do Paraná; o ginseng de Querência do Norte; o café da Serra de Apucarana; as tortas de Carambeí; as ostras do Cabaraquara; a ponkan de Cerro Azul; as broas de centeio de Curitiba; a cracóvia de Prudentópolis; a carne de onça de Curitiba; o café de Mandaguari; o urucum de Paranacity; o queijo colonial do Sudoeste do Paraná; o mel de Ortigueira; os queijos coloniais de Witmarsum; a cachaça e a aguardente de Morretes; o melado de Capanema; os vinhos de Bituruna; o mel do Oeste do Paraná; o barreado do Litoral do Paraná; a bala de banana de Antonina; a erva-mate São Matheus; a camomila de Mandirituba; as uvas finas de Marialva; os cafés especiais do Norte Pioneiro; o morango do Norte Pioneiro; e a goiaba de Carlópolis. Há, ainda, o mel de melato da bracatinga do Planalto Sul do Brasil, Indicação Geográfica concedida 

O apicultor Ezequiel Balzan acredita que a IG trará ainda mais visibilidade para o mel produzido na região.
Estudos da UTFPR, campus Dois Vizinhos, demonstram a influência das floradas nativas próximas ao Parque Nacional do Iguaçu nas características do mel.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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