Por Joé Sestello –
Quando se discute eficiência em saúde, o debate costuma girar em torno de temas com apelo imediato: judicialização, glosas, sinistralidade, jornada do paciente oncológico, gestão de crônicos como diabetes e hipertensão. As doenças vasculares raramente entram nessa pauta com o peso que merecem e essa ausência tem um custo que a gestão em saúde, pública ou suplementar, já não pode ignorar.
Varizes, insuficiência venosa crônica, trombose e aneurismas compõem um grupo de condições altamente prevalentes, previsíveis e, na maioria dos casos, tratáveis a baixo custo quando identificadas cedo. O problema é estrutural: o sistema, de forma geral, não está desenhado para captar esses pacientes na fase em que o tratamento é simples. Ele os recebe, com frequência, apenas quando a doença já evoluiu para um estágio de maior complexidade clínica e assistencial.
Dados da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular indicam que cerca de 38% da população adulta brasileira convive com algum grau de varizes, afetando cerca de 45% das mulheres e 30% dos homens. É um número que, por si só, deveria justificar linhas de cuidado específicas em qualquer operadora ou rede hospitalar de porte relevante. Na prática, o que se observa é o oposto: a varize costuma ser tratada como demanda eletiva de baixa prioridade, represada até que o quadro evolua para complicações úlceras de difícil cicatrização, sangramentos, tromboses superficiais que exigem intervenções mais longas, mais caras e com recuperação mais lenta.
O reflexo disso aparece nos indicadores de internação. Levantamentos recentes do SUS mostram picos expressivos de internação por varizes em determinados períodos, num padrão que costuma refletir represamento de demanda mais do que aumento real de incidência. Do ponto de vista de gestão, é um sinal claro: cada caso que chega à internação por complicações é, em geral, um caso que poderia ter sido resolvido de forma ambulatorial, meses ou anos antes, a uma fração do custo.
Trombose: o risco que compromete desfechos em outras linhas de cuidado
A trombose venosa profunda merece atenção especial de quem gerencia risco assistencial, porque ela raramente aparece como evento isolado. Está associada a pós-operatórios,internações prolongadas, imobilização, uso de determinadas terapias hormonais e comorbidades como obesidade e câncer, ou seja, atravessa praticamente todas as linhas de cuidado de um hospital.
Protocolos de profilaxia para TVP já são amplamente conhecidos na literatura médica, mas a adesão a eles ainda varia significativamente entre instituições. Esse é um ponto de atenção direto para áreas de qualidade assistencial e segurança do paciente: cada episódio de TVP evitável representa não apenas risco clínico, mas também tempo de internação estendido, maior consumo de recursos e impacto potencial em indicadores de desfecho que hoje pautam contratos de valor entre operadoras e prestadores.
Aneurismas e o valor da triagem de baixo custo
O aneurisma de aorta é, talvez, o exemplo mais claro de como um investimento pequeno em rastreamento pode evitar um desfecho de altíssimo custo e gravidade. Trata-se de uma condição majoritariamente assintomática até a ruptura, que costuma resultar em quadro cirúrgico de emergência, com taxas de mortalidade muito superiores às de uma correção eletiva planejada.
A triagem por ultrassonografia em populações de risco, homens acima de 60 anos, fumantes, hipertensos e pacientes com histórico familiar é um exame simples e de baixo custo relativo, com potencial de reduzir de forma significativa a ocorrência de emergências vasculares de alta letalidade. É o tipo de intervenção que, incorporada a programas de check-up executivo ou saúde ocupacional, tende a se pagar rapidamente em termos de sinistralidade evitada.
Da agenda clínica para a agenda de gestão
A boa notícia é que a medicina vascular oferece hoje ferramentas compatíveis com qualquer estratégia de eficiência assistencial: procedimentos minimamente invasivos, realizados em regime ambulatorial ou de curta permanência, com retorno rápido do paciente às atividades. O gargalo não está na oferta tecnológica. Está na ausência de linhas de cuidado estruturadas para captar esses pacientes antes da complicação.
Isso significa, na prática, três movimentos que caberiam à liderança em saúde considerar: primeiro, incluir avaliação vascular básica em programas de check-up e saúde ocupacional, sobretudo para grupos de risco já mapeados por outras comorbidades; segundo, tratar indicadores de doença vascular internações evitáveis, tempo até o diagnóstico, adesão a protocolos de profilaxia de TVP como parte dos painéis de qualidade assistencial, e não como nota de rodapé; terceiro, aproveitar datas como o Dia do Cirurgião Vascular, em 15 de agosto, e campanhas como o Agosto Azul e Vermelho, não apenas como ação de comunicação institucional, mas como gatilho para revisar protocolos internos e linhas de cuidado.
Doenças vasculares não têm a visibilidade política de outras condições crônicas. Mas seu peso sobre custo assistencial, tempo de internação e qualidade de desfecho já é grande o suficiente para deixar de ser tratado como pauta secundária. A prevenção vascular, quando bem estruturada, não é apenas boa prática clínica, é eficiência de sistema.
(*) Por Joé Sestello é angiologista, cirurgião vascular e endovascular, diretor-presidente da Unimed Regional Fluminense (ex-Nova Iguaçu).






