Quando o céu ameaça, a fragilidade humana fica exposta

O papel dos gestores das cidades diante de fenômenos climáticos que surpreendem com a fúria do céu e a vulnerabilidade de quem vive na terra.

No dia dois de novembro de 2026, ao ver sua cidade diante de um cenário devastador, de terra arrasada, com árvores arrancadas pelas raízes, galhos espalhados pelas ruas e calçadas, casas destelhadas e bueiros jorrando barro vermelho, o prefeito de Maringá, Silvio Barros, se viu, diante de um espelho dramático, desolador, em estado de colapso emocional. As primeiras fotografias de seu rosto mostravam fissuras, revelando um dia caótico.

No Paraná, onde as tempestades passaram a frequentar a rotina das cidades e o gestor público já não pode sair de casa olhando apenas para a agenda de compromissos, inaugurações e discursos. Precisa caminhar com um olho no céu, outro nos bueiros, nas árvores condenadas pelo tempo, nos rios que transbordam e nas encostas que ameaçam desabar. E, se ainda lhe sobrar alguma fé, que faça uma oração. A natureza não pede licença, não respeita.

Silvio Barros em Maringá e Luiz Fernando Jamur, secretário de Obras de Curitiba, vivem momentos semelhantes de desolamento, devido aos excessos de chuvas, mesmo uma cidade estando há 400 quilômetros de distância da outra.

Governar é, também, olhar para as nuvens

Governar, agora, é também aprender a olhar para as nuvens. Não basta administrar o presente. É preciso antecipar o desastre. Investir em drenagem, recuperar rios, fiscalizar ocupações de risco, cuidar da arborização urbana, preparar abrigos e estabelecer sistemas eficientes de alerta. A prevenção precisa deixar de ser promessa de campanha para se transformar em obrigação permanente.

O gestor público que ignora esses sinais não está apenas cometendo um erro administrativo. Está brincando com a fragilidade da vida humana.

Vem a pergunta. Como podemos prever estas catástrofes, se os sistemas ou serviços de meteorologias apenas informam o que veem nos mapas: chuvas com riscos de tempestades nas regiões tal e tal.

Uma ameaça constante à vida das pessoas

O Paraná está aprendendo, da maneira mais dolorosa, que as mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação distante dos cientistas para se transformar em ameaça concreta à vida das pessoas. O que antes parecia excepcional começa a ganhar contornos de rotina. O vento que arranca telhados, a chuva que invade casas, a árvore que desaba sobre um automóvel e a enxurrada que leva embora, em poucos minutos, o patrimônio construído durante uma vida inteira.

E há algo profundamente cruel nessas tragédias: a tempestade não escolhe endereço, mas suas consequências costumam castigar com maior violência aqueles que têm menos condições de se proteger.

É a mãe que passa a madrugada acordada, olhando a água subir pela parede. É o pai que tenta salvar os móveis enquanto os filhos choram. É o agricultor que contempla, em silêncio, a lavoura destruída. É o idoso que, depois de uma vida inteira de trabalho, vê suas lembranças boiando na água barrenta.

Não se pode impedir que chova, mas é preciso evitar tragédias

O cidadão quer apenas sobreviver. Quer que a sirene funcione, que a Defesa Civil chegue, que o bueiro esteja limpo, que a ponte não desabe e que alguém tenha pensado na tragédia antes que ela acontecesse.

Há uma diferença imensa entre ser surpreendido pela força da natureza e ser surpreendido pela própria negligência. Não se pode impedir que chova, que vente ou que o céu desabe em tempestades. Mas é possível evitar que esses fenômenos naturais se transformem em tragédias humanas?

Perguntamos ao Simepar: por que o Paraná virou rota de tempestades nos últimos anos. Há alguma justificativa científica para isso? E veio a resposta: “Sempre tivemos tempestades no Paraná. Muitos fatores aumentam a percepção delas hoje, ou seja, mais áreas urbanizadas, mais pessoas com celulares registrando os fenômenos, mais profissionais capacitados para analisar e classificar. Pesquisas já apontam que o sudeste da América do Sul é a região em que há mais condições favoráveis para formação de tempestades severas devido ao relevo e outros fatores”.

Caçador paranaense de tornados

A esta mesma pergunta, a jornalista Ana Zimmerman, do Canal Quatro + (https://www.youtube.com/@Quatromais.), enviou sua colaboração: uma entrevista com o cientista e professor da Universidade Federal do Estado do Paraná, Wilson Roseghini, da UFPR, conhecido como “caçador de tronados paranaense”.

“Se a gente for considerar os parâmetros, principalmente relacionados à possibilidade de ocorrência, isso une uma série de características, características geográficas, que favorecem ocorrência de tornados. Leva em consideração relevo, áreas de confronto entre massas de ar quentes e úmidas, frias e secas, que geralmente ocorrem em áreas de transição tropicais, subtropicais, como é a nossa região.

Então, a gente pode delimitar uma área que vai pegar pelo menos o sul do Brasil todo, parte de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Paraguai, Norte da Argentina e um pouco do Uruguai. Toda essa grande área, esse grande polígono, é uma área que a gente poderia considerar uma espécie de corredor de tornados da América do Sul, que é, comparativamente, pensando no planeta, seria a segunda área do planeta mais propícia à ocorrência desses eventos depois da região dos Estados Unidos. Só que lá eles estão muito à frente, lá eles têm uma ocorrência muito maior.” Wilson Roseghini, professor e pesquisador de Climatologia da UFPR.

Paraná virou rota de tempestades?

Também consultamos outros especialistas em meteorologia: “O Paraná não virou literalmente uma “rota de tempestades” de uma hora para outra. O que acontece é que a posição geográfica do Estado, o encontro de massas de ar e as mudanças no clima favorecem a formação de temporais intensos, especialmente na primavera e no verão. O que chama a atenção é a sucessão de episódios destrutivos, com vendavais, granizo, quedas de árvores e, ocasionalmente, tornados.

Voltamos ao Simepar, que nos fornece mais informações:  O quadro atual ajuda a explicar a sequência de temporais. Segundo o Simepar, o “Paraná está sob influência de condições associadas ao El Niño, que favorecem chuvas acima da média histórica. O órgão também prevê a formação de um ciclone extratropical na costa da Região Sul e a passagem de uma frente fria entre quarta e quinta-feira, dias 4 e 5 de novembro. Isso não significa que todo o Estado será atingido da mesma maneira. Os temporais são localizados e podem variar bastante de intensidade, mesmo entre municípios próximos”.

O que aconteceu em Maringá?

Há ainda um ponto importante: “o Paraná já registrou episódios severos em anos anteriores. Em novembro de 2025, por exemplo, o Simepar confirmou três tornados no Estado. Portanto, não se trata de um fenômeno inteiramente novo, embora a sequência de destruição seja motivo de preocupação”.

O que aconteceu em Maringá e cidades da região, foi um temporal severo, acompanhado de ventos muito fortes. Ainda não há confirmação técnica de que tenha sido um tornado.

O prefeito Silvio Barros disse que a cidade não recebeu nenhum tipo de “alerta vermelho” para tomar providências no sentido de prevenção do vendaval. O que aconteceu em nossa cidade não foi um fenômeno de Maringá, porque o Estado do Paraná, há uns quatro anos, foi classificado como um território propício para tornados, segundo estudos feitos por vários meteriologistas, em função do nosso relevo e da paisagem que o estado tem, sem florestas, sem grandes árvores, mais campo e agricultura e isto mexe com as condições climáticas. Particularmente, este ano, o fenômeno é o El Ninõ, mas os tornados passam a ser rota no nosso Estado há algum tempo. Barros adiantou que o município está contratando um serviço de monitoramento e a instalação de 20 estações metereológicas dentro do perímetro urbano que nos permitirão prevenir situações dessas com efetiva segurança.

Vendaval: é a descrição mais segura para o que ocorreu. Os ventos chegaram a aproximadamente 97 km/h em registros meteorológicos, derrubando árvores e arrancando telhados.

– Tornado: é uma possibilidade investigada, mas sua ocorrência ainda não foi confirmada pelo Simepar.

– Supercélula: a análise preliminar do Simepar identificou indícios desse tipo de tempestade severa, que pode produzir ventos destrutivos e, em determinadas condições, tornados.

– Furacão: não é a classificação adequada para o episódio. Furacões são sistemas meteorológicos tropicais específicos, diferentes de temporais severos como esse.

Maringá foi atingida por um temporal destrutivo, com ventos próximos de 100 km/h. Tornado ainda é uma hipótese, não um fato confirmado. É importante não confundir a intensidade dos estragos com a identificação definitiva do fenômeno.

Tornado, furacão ou outro fenômeno?

A cidade de Maringá, no Noroeste do Paraná, enfrentou um temporal com rajadas de vento de até 122 km/h, que causou destruição significativa. A tempestade derrubou árvores, arrancou telhados, danificou veículos e provocou interrupções no fornecimento de energia elétrica.

A análise preliminar do Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) indicou que a cidade foi atingida por uma supercélula, um tipo de tempestade severa capaz de provocar ventos extremamente fortes e destrutivos. No entanto, até o momento, não há confirmação oficial de que o fenômeno tenha sido um tornado.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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