Jason Newsted, ex-baixista do Metallica, diagnosticado com câncer de garganta. Entendendo a doença

O diagnóstico foi descoberto em maio de 2025; oncologista explica sobre os sinais de alerta.

O ex-baixista do Metallica, Jason Newsted, contou que descobriu um câncer de garganta há cerca de um ano. Durante uma entrevista ao podcast Let There Be Talk, ele dividiu sobre os tratamentos realizados. 

Ao falar sobre ter recusado participar de um tributo a Bon Scott e ao AC/DC, Newsted revelou sobre a doença: “No dia 8 de maio de 2025, fiz um procedimento para tratar um câncer de garganta. Eles removeram um monte de coisas daqui e depois usaram lasers para remover mais um monte de coisas. Então, a cavidade dentro da minha cabeça está diferente de como era antes, mas descobrimos cedo”. 

O músico comentou também sobre sua fase de repouso. “Eu prometi a mim mesmo que iria descansar, e essa foi a primeira vez que fiz isso na minha vida. Geralmente, eu sou oito ou oitenta, então, prometi a mim mesmo que iria tirar o peso do mundo das costas e deitar pelo tempo necessário”, completou.

Entenda sobre o câncer de orofaringe

Uma pesquisa divulgada pela Universidade de São Paulo (USP), em que foram analisados dados de 15.391 pacientes do Registro de Câncer de Base Populacional do município de São Paulo (RCBP-SP), contabilizados no período de 1997 a 2013, mostrou que o risco de câncer de boca e orofaringe (principalmente) associados ao Papilomavírus Humano (HPV) aumentou entre homens e mulheres jovens com idade até 39 anos. As estruturas que compõem a orofaringe são a base da língua, o palato mole, as amígdalas e paredes laterais e posterior da faringe. Principalmente a base da língua e as amígdalas são os locais mais acometidos pela doença HPV relacionada.

No Brasil, mesmo depois de dez anos em que os dados foram apurados, o cenário atual ainda preocupa: para cada ano do triênio 2026-2028 o Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima 17,1 mil casos de câncer da cavidade oral e orofaringe. Essa incidência vem aumentando no país, assim como ocorre em outros países desenvolvidos. Estima-se que entre 2030 e 2040, o vírus HPV seja responsável por cerca de 50% dos tumores de orofaringe, sendo a outra metade relacionada ao tabagismo.

É estimado ainda que 85% da população entre em contato com o vírus HPV em algum momento da vida, contudo, isso não significa que o câncer irá de fato se desenvolver. “Após o contato com o vírus, a maior parte das pessoas consegue eliminá-lo através do seu sistema imune, No entanto, eventualmente, o vírus não é eliminado e uma infecção crônica se desenvolve. Essa infecção pode persistir por muitos anos e não causar nenhum tipo de sintoma, o que não impede que o vírus seja transmitido para outra pessoa. Além do sexo oral, a transmissão do vírus também pode ocorrer por meio de relações sexuais vaginais ou anais, causando outras neoplasias, como câncer de colo do útero, vagina, vulva, pênis e anus”, explica Pedro De Marchi, oncologista clínico especialista em tumores de cabeça, pescoço e tórax da Oncoclínicas. 

Sintomas podem ser confundidos com problemas de saúde

Outro ponto que chama a atenção, segundo o especialista, são os sintomas – bastante inespecíficos na fases iniciais da doença. “O paciente pode ter um desconforto ou dor para engolir, sentir o alimentar “trancar” ao deglutir, notar um aumento de ínguas no pescoço ou alguma ferida na região da orofaringe que pode eventualmente levar a um sangramento. A dica mais importante aqui é a questão da duração dos sintomas. Havendo persistência por mais de 2 ou 3 semanas um médico especialista deve ser procurado”, indica o médico Pedro De Marchi.

A importância do diagnóstico precoce

Diferente do câncer de colo de útero, não existe uma estratégia de rastreamento para o câncer de orofaringe relacionado ao HPV. Assim, é fundamental a busca por atendimento especializado caso haja persistência de sintomas na região da garganta. Isso é ainda mais relevante para os indivíduos tabagistas que têm um risco ainda maior de desenvolver câncer nessa região. O diagnóstico precoce é fundamental para um maior sucesso do tratamento”, comenta o oncologista da Oncoclínicas.

Após a confirmação da doença realizada através de uma biópsia, o próximo passo é fazer o estadiamento do tumor, ou seja, entender o quanto ele está avançado. Para isso são utilizados métodos radiológicos como:

  • Tomografia computadorizada ou ressonância nuclear magnética do pescoço: traz informações quanto ao tamanho e extensão do tumor em relação às estruturas adjacentes. Também demonstra se há comprometimento de linfonodos do pescoço (primeiras estruturas acometidas quando a doença começa a se “espalhar”).
  • Tomografia computadorizada do tórax: solicitada para avaliar se há lesões relacionadas à doença (metástases) nos pulmões.
  • PET/CT: realizado em alguns casos para avaliar se há lesões relacionadas à doença em outros órgãos (metástases);
  • Exames de sangue: os exames de sangue são solicitados para avaliar o estado de saúde geral do paciente, especialmente antes do tratamento; e
  • Exame odontológico: antes de um eventual tratamento radioterápico, é imprescindível que seja realizado um inventário odontológico. Nesse momento pode ser necessária a remoção de dentes.

Existe tratamento?

“Existe tratamento tanto para lesões iniciais quanto para aquelas mais avançadas. Vários fatores são levados em consideração além do estadiamento da doença para se definir a melhor estratégia terapêutica, e, idealmente, essa definição deve ser feita por uma equipe multidisciplinar, em conjunto com o paciente”, enfatiza o especialista

O tratamento pode incluir:

  • Radioterapia IMRT: é um tipo de radioterapia que tem maior precisão na hora de tratar o tumor. Com isso, o paciente apresenta menos efeitos colaterais e os resultados são mais expressivos;
  • Quimioterapia: são medicamentos utilizados na maioria das vezes por via endovenosa (na veia) que atrapalham a replicação das células, inclusive as células tumorais, levando elas à morte. O principal quimioterápico utilizado é chamado cisplatina é pode fazer parte do tratamento tanto doenças mais iniciais quanto da doença metastática.
  • Terapia-alvo: são drogas que atuam de forma diferente da quimioterapia padrão, apresentando também efeitos colaterais distintos. Em linhas gerais elas impedem que a célula tumoral se multiplique, retardando ou mesmo interrompendo o crescimento do tumor. Diferente de outros cânceres, infelizmente não há muitas opções de terapia-alvo no tratamento do câncer de orofaringe. Basicamente uma única droga é utilizada e pode ser pode ser combinada com a radioterapia, combinada com a quimioterapia ou ser utilizada de forma isolada; e
  • Imunoterapia: esse tipo de tratamento auxilia a atividade das células de defesa do paciente no combate à doença. Pode ser utilizada em combinação ou não com quimioterapia, a depender de características clínicas do paciente e da expressão do PDL1, que é uma proteína presente na superfície do tumor.

“Para frear o aumento dos casos, é fundamental disseminar informações de qualidade. A vacinação contra o HPV também não deve ser deixada de lado – através do esquema de duas doses, sua proteção é de 98%. Infelizmente, a taxa vacinal ainda está bastante abaixo da meta, principalmente quando falamos da segunda dose da vacina. Contudo, ainda podemos mudar esse cenário e contribuir com o avanço da imunização contra o vírus”, conclui Pedro de Marchi.

Pedro Ribeiro

Jornalista há mais de 48 anos, com passagem pelos principais meios de comunicação do Paraná e autor de vários livros publicados.

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