Na iminência de completar 81 anos, destreza na comunicação dá lugar a gafes sucessivas e deixa dúvidas sobre vigor num eventual quarto mandato.
Microfone nas mãos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre virou uma metralhadora. Sua habilidade de comunicação é indiscutível na consolidação de sua trajetória política. Claro que, muitas vezes, as balas dessa metralhadora falante ricochetearam, assustaram ou causaram danos. Até propositais, quem sabe. Nos últimos dias, talvez pelo acirramento da campanha eleitoral e desgaste físico e mental, Lula começou a enfileirar erros que não costumava cometer, contrariando a habilidade e técnica que lhe são próprias e o transformaram num respeitado estadista. Fanfarrices e bobagens à parte.
Aqui não está em questão fazer comparações ou buscar equilíbrio entre atitudes dos demais presidenciáveis, como Flávio Bolsonaro, o principal adversário de momento e que se vê às voltas de polêmicas com a CNBB, com presentinho de relógio caro ou festinhas moralmente censuráveis. O foco é Lula, o atual presidente (o 39° da história da República), que no próximo dia 27 de outubro completa 81 anos de idade. Não há dúvida da resiliência e do vigor físico demonstrado por esse pernambucano de Garanhuns em seus três primeiros mandatos.
A questão que ressurge entre as pessoas, sobretudo oposicionistas, é se o presidente tem saúde física e mental de fato para suportar os quatro anos seguintes — de 2027 a 2030 —, caso seja reeleito, tendo de enfrentar desafios como “nunca antes na história deste país”? Como o inevitável enfrentamento do maior patamar da dívida pública, que já roça o equivalente ao nosso PIB (refletindo igualmente numa população endividada), orçamento que não fecha e saúde, segurança e educação liderando os problemas. Será preciso muito mais que boa oratória e promessas.
Incidentes
O sinal de alerta amarelo, ou o famigerado risco “biden”, já não é mais intermitente. Acendeu de vez com a sucessão de abordagens que pode ir muito além de interpretação ou contextualização. O improviso e as gafes nunca assustaram tanto como agora. Em Santa Catarina, dirige-se ao agro dizendo que o mesmo deveria se ajoelhar em agradecimento por suas iniciativas. O agro já está de joelhos, mas pela carga que está suportando. De seu esforço e do endividamento e inadimplência que fez pedidos de recuperação judicial baterem recordes em 2025; e seguindo em alta em 2026. E a primeira-dama, que poderia amainar, joga gasolina e ofende os catarinenses pelo desconhecimento, ao negar a hospitalidade do povo, traduzida como o estado que mais recebe migrantes internos.
Pode se dizer que esse incidente verbal foi fichinha perto dos que se sucederam. Desnecessária a provocação à galera flamenguista – e também à do Palmeiras, com a zombaria de título mundial – em meio à proibição das bets, que, certamente, terá muitos desdobramentos. Na Justiça e no Congresso. Em entrevista à BandNews, mesmo alertado pela jornalista Adriana Araújo de que se tratava de “autêntica” notícia falsa, Lula insistiu na questão da Padroeira Nossa Senhora Aparecida e soltou a pérola: “Eu não sei se foi fake news, o dado concreto é que isso está na rede social, muito forte”.
No Pará, um dos estados mais pobres do Brasil e onde os abusos na infância e adolescência são assustadores, o presidente foi infeliz em abordagem sobre a prevenção masculina ao câncer de próstata. Numa tentativa de comparar às mulheres, que são mais presentes nos cuidados com a sua saúde, disse que os homens são resistentes ao exame de “toque”. Sua fala: “As mulheres aprendem a tomar toque desde pequenas, enquanto os homens não, pois são cheios de trejeitos”. Óbvio que não quis dizer o que disse, tanto que tratou de acionar a sua comunicação para destacar o mal-entendido. Mas que foi dito, foi, gerando indignação da sociedade e, até, das organizações médicas.
Porém, mais uma vez Janja da Silva complicou mais o marido do que ajudou. Num discurso de campanha na Bahia, nesta terça, Lula abordou a questão e realçou a menção fora de contexto, lamentou a exploração do tema pela oposição e passou a palavra à esposa. Esperava-se da primeira-dama uma mensagem capaz de oferecer o real sentido do que o presidente quis dizer e, assim, defender as meninas e clamar a sociedade contra abusos. Qual nada. Concentrou sua ira ao deputado federal Nicolas Ferreira, que tinha explorado o tema. Usando o microfone, reforçou a fala de Lula — que acabara de chamar Nicolas de “canalha” — e se referiu a ele como “piá de bosta”. Linguagem chula, imprópria para o local e para quem disse.
Colocando Dino numa “fria”
Na tentativa de montagem de um colar de “pérolas”, talvez a mais infantil das falas e que possa suscitar questionamento sobre o equilíbrio cognitivo de Lula ocorreu na segunda-feira (28), durante agenda de campanha eleitoral em Belém, ainda no Pará. Empolgado ao sancionar o texto relativo à Estratégia Nacional de Controle e Avaliação da Qualidade da Assistência à Saúde, que cria norma para definir padrões e critérios de verificação para os serviços de assistência à saúde no setor privado, o presidente fez uma ligação em público para o ministro Flavio Dino, do STF. Lula queria exaltar o seu ex-ministro da Justiça, o qual indicou à Corte, por ser ele o autor da proposta que virou lei.
Dino, que apresentou o projeto em 2024, quando ainda era senador, atendeu a ligação e ouviu (ou teria ouvido) os comentários do presidente relembrando a origem da proposta após a morte do filho do magistrado, aos 13 anos, ao dar entrada na emergência de um hospital com crise de asma, em 2012. O eufórico Lula viu a ligação ser interrompida quando conclamou o ministro a se manifestar. Certamente Dino desligou ao ver o tamanho do problema que se apresentava, pois o presidente não estava em agenda oficial e sim em campanha eleitoral. Pior, num momento em que o magistrado se vê em meio à polêmica de um suposto favorecimento às intenções de Lula na corrida para garantir novo mandato.
Sempre tão astuto em sua caminhada política, o episódio em Belém soa como estranha “pisada de bola” em grau de repetecos. A poucas horas da chegada do primeiro turno das eleições, se as atitudes adotadas são estratégicas, resta saber o calor e o efeito nas urnas. Para marqueteiros experientes, tais ações terão pouco impacto em decisão sobre votos neste momento, mas não no humor dos eleitores, que podem enriquecer a abstenção, sob a decepção geral dos candidatos que se apresentaram à corrida presidencial.
Lula levantar por duas vezes sucessivas a imagem de Nossa Senhora Aparecida e bradar que sob sua presidência ela jamais deixará de ser a Padroeira (questão que não é política e, sim, da esfera religiosa, pois foi decreto pontifício do Papa Pio XI, há quase um século, que a reconheceu), ou Janja aparecer com a camisa do Flamengo e mostrando o pingente da “santinha”, não serão instrumentos de propagação de confiança aos destinos do País. As propostas do atual mandatário e dos que estão no páreo na tentativa de sucedê-lo podem, sim, decidir votos ou levar às urnas a grande massa de eleitores dispostos a se ausentar em 4 de outubro. Em 2022, o índice de abstenção chegou a 20,9%. Ou sejam mais de 32 milhões de eleitores deixaram de exercer o seu direito cidadão.
Por Naninho Françolin, jornalista.






