Fisioterapeuta explica por que dores recorrentes nem sempre significam uma nova lesão e o que precisa ser observado para interromper esse ciclo.
A dor passou, a rotina voltou ao normal e, algum tempo depois, o incômodo reapareceu. Para quem já fez fisioterapia, seguiu o tratamento e teve melhora, a volta da dor costuma vir acompanhada de uma pergunta: por que isso está acontecendo de novo?
Segundo a fisioterapeuta Valeria Baldan, especialista em Terapias Integrativas e fundadora do Instituto Sohma, a resposta nem sempre está exatamente no lugar que voltou a doer.
“Quando uma dor retorna, é importante entender o que pode estar mantendo ou recriando aquela sobrecarga. Muitas vezes, o paciente chega dizendo ‘meu joelho voltou a doer’ ou ‘minha lombar travou de novo’, mas olhar apenas para o ponto da dor pode não ser suficiente”, explica.
Postura, padrões de movimento, limitações de mobilidade, sobrecarga nos treinos ou nas atividades diárias e hábitos mantidos ao longo do tempo podem contribuir para que o problema reapareça. Sono, estresse e momentos de maior tensão também devem fazer parte dessa investigação, especialmente em quadros persistentes ou recorrentes.
Por isso, Valeria defende que a fisioterapia não deve ser entendida apenas como uma sequência de exercícios.
“O exercício é fundamental e deveria fazer parte da vida de todos nós. Mas fisioterapia não é sinônimo de exercício. Antes de decidir o que fazer, precisamos avaliar como aquela pessoa se movimenta, quais compensações criou, como é sua rotina e o que estava acontecendo quando a dor apareceu ou voltou.”
Quando o corpo compensa
Uma limitação em determinada região pode fazer com que outras estruturas assumam funções para as quais não estavam preparadas. Com o tempo, essas compensações podem gerar sobrecarga e dor em um local diferente daquele em que o problema começou.
Isso ajuda a explicar por que tratar somente a região dolorida nem sempre impede uma recidiva.
“Nosso corpo funciona de forma integrada. Às vezes, o local que dói é justamente aquele que está trabalhando mais para compensar uma dificuldade que está em outra região. Por isso a avaliação precisa ir além do sintoma”, afirma Valeria.
Para quem pratica esporte, essa análise ganha ainda mais importância. O desaparecimento da dor não significa necessariamente que o corpo esteja pronto para retomar imediatamente o mesmo volume e intensidade de treinamento.
“É muito comum o atleta amador se sentir melhor e querer voltar exatamente de onde parou. Só que ausência de dor e recuperação completa não são necessariamente a mesma coisa. É preciso observar mobilidade, força, movimento e capacidade de suportar novamente aquela carga”, explica.
Dor que volta merece uma nova avaliação
A recorrência não significa necessariamente que o tratamento anterior tenha dado errado. O corpo muda, assim como a rotina, a intensidade dos exercícios, o trabalho, o sono e os níveis de estresse.
O mais importante, segundo Valeria, é não transformar episódios repetidos de dor em algo considerado normal.
“Quando a dor vai embora e volta repetidamente, o corpo está mostrando que alguma coisa ainda precisa ser compreendida. Meu olhar é sempre para a pessoa como um todo: não apenas onde dói, mas como ela se movimenta, como vive e quais fatores podem estar contribuindo para aquele quadro.”
Sobre Valeria Baldan
(*) Valeria Baldan é fisioterapeuta e educadora física, especialista em Terapias Integrativas e fundadora do Instituto Sohma, em São Paulo.





